Soberania digital vira prioridade estratégica nas organizações

Soberania digital vira prioridade estratégica nas organizações

 Soberania digital vira prioridade estratégica nas organizações

Para Sandra Vaz, country manager da Red Hat Brasil, não há soberania digital sem controle de ponta a ponta – Foto: reprodução

A soberania digital deixou de ser um conceito abstrato e passou a orientar decisões concretas nas empresas. Com a escalada das tensões geopolíticas e a dependência crescente da nuvem, organizações revisam onde estão seus dados, quem os controla e sob quais regras operam.

Não se trata de um movimento marginal. Segundo a consultoria Gartner, mais de 50% das multinacionais terão estratégias de soberania digital até 2029, frente a menos de 10% hoje, com investimentos que devem superar US$ 80 bilhões em “nuvem soberana” já em 2026, refletindo a pressão por mais autonomia operacional e competitividade. Esse conceito busca assegurar autonomia regulatória e operacional, evitando dependência excessiva de provedores estrangeiros ou jurisdições externas sobre dados estratégicos.

“A soberania digital busca capacitar organizações e nações com a autonomia necessária para tomar decisões informadas e independentes que moldem seu futuro digital”, define Thiago Araki, diretor sênior de tecnologia para a América Latina na Red Hat. “Negligenciá-la pode expor as empresas a riscos significativos, principalmente relacionados ao aumento da dependência, vulnerabilidades legais e comprometimento da segurança.”

Como a infraestrutura digital se tornou o novo terreno de disputa econômica e política, empresas e países começam a se preocupar com quem realmente controla o seu futuro digital e se estão preparados para abrir mão de conveniência em nome de autonomia.

A soberania digital, no sentido mais amplo, é a capacidade de exercer controle efetivo sobre infraestrutura, dados e tecnologias. Trata-se de um conceito que mistura técnica, estratégia e política, e que redefine a relação entre empresas, governos e provedores globais de tecnologia.

Ela inclui a soberania de dados, que diz respeito ao domínio sobre como informações são coletadas, processadas e armazenadas. Mais que uma preocupação de compliance, isso trata de poder, pois quem controla os dados controla também os modelos de inteligência artificial, as decisões automatizadas e, em muitos casos, a própria narrativa sobre o negócio.

Há ainda a soberania tecnológica, que envolve a capacidade de executar cargas de trabalho, incluindo aplicações de IA, sem dependência excessiva de um único fornecedor, reduzindo riscos de interferência externa. A soberania operacional, por sua vez, envolve visibilidade e controle sobre o funcionamento dos sistemas, do provisionamento ao monitoramento. Por fim, a soberania de confiabilidade refere-se à capacidade de verificar, de forma independente, a integridade, a segurança e a confiabilidade dos sistemas digitais, incluindo a resiliência de infraestruturas e serviços críticos.

Em ambientes cada vez mais automatizados, perder essas capacidades pode significar operar no escuro, com riscos que vão da ineficiência à vulnerabilidade estrutural. “Não há soberania digital sem controle de ponta a ponta”, reforça Sandra Vaz, country manager da Red Hat Brasil. “É preciso garantir que organizações e países mantenham o controle sobre suas decisões, infraestrutura e propriedade intelectual em um ambiente global cada vez mais complexo.”

 

Arquitetura como disputa estratégica

Nesse cenário, a arquitetura tecnológica deixa de ser uma decisão técnica e passa a ser um diferencial competitivo. Setores como finanças, saúde e governo já sentem esse impacto de forma mais intensa, pressionados por exigências de transparência, governança e auditabilidade.

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Arquiteturas distribuídas e híbridas surgem como resposta a esse dilema, conciliando escala global com controle local. Ao mesmo tempo, o avanço de sistemas de código aberto (ou open source) adiciona uma camada de transparência e inovação contínua que desafia modelos proprietários tradicionais, ao permitir mais auditabilidade e reduzir dependências.

A Red Hat, líder global em plataformas empresariais open source, defende uma abordagem de soberania digital ancorada na transparência, na flexibilidade e na resiliência. “Trabalhamos em parceria com organizações públicas e privadas para implementar ambientes de nuvem híbrida que promovam maior controle, conformidade e resiliência operacional”, explica Alexandre Duarte, vice-presidente de Serviços para a América Latina. “Para isso, impulsionamos o desenvolvimento do ecossistema tecnológico por meio de parcerias com universidades e um sólido programa acadêmico que oferece acesso gratuito a treinamentos e certificações em áreas-chave.”

A América Latina começa a se mover nesse tabuleiro, ainda que de forma mais lenta do que na América do Norte, Europa e Ásia. O investimento na região em nuvem soberana deve chegar a US$ 506 milhões em 2026 e quase dobrar no ano seguinte, segundo o Gartner. Esse avanço sugere um amadurecimento estratégico de uma região que historicamente consome tecnologia desenvolvida fora de suas fronteiras.

A construção de data centers locais, o debate regulatório e o estímulo a modelos abertos reforçam essa percepção. Mas para superar esse desafio, os países da região precisam também investir na formação de profissionais e na construção de uma coordenação regional para traduzir princípios abstratos em políticas e regulamentações mais alinhadas aos valores locais.

Não se deve confundir autonomia com isolamento. A soberania digital propõe justamente ampliar escolhas, mas esse equilíbrio exige governança sólida e uma visão estratégica que reconheça a tecnologia como infraestrutura crítica. Os diferentes atores da sociedade devem se organizar para conseguir isso sem comprometer a inovação ou a competitividade. Ignorar esse debate pode indicar que o controle já não está mais nas próprias mãos.

 

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