Armandinho queria preservar as memórias do bairro que era sua vida. Criou o Museu Memória do Bixiga
Armandinho do Bixiga em 1991. Foto: Monica Zarattini/Estadão
Na minha ignorância toda, eu mudei a forma de museologia quase que no mundo. Antes de mim não havia museu que colocava as peças onde você poderia pegar. Em qualquer museu, até hoje, é aquele silêncio, todas as peças embutidas nos armários. Aqui no meu museu, não, você entra e daqui a pouco vê um italiano xingando o outro, brigando.
Armando Puglesi, no livro ‘Memórias de Armandinho do Bixiga’
Um dos moradores mais ilustres do Bixiga se afligia de ver parte do que viveu em sua infância e mocidade de raízes italianas se perder com as rápidas transformações que aconteciam na São Paulo dos anos 60 e 70, e que começavam a descaracterizar o tradicional bairro que fica entre o Centro de São Paulo e a Avenida Paulista.
Em depoimento ao jornalista Julio Moreno publicado no livro “Memórias de Armandinho do Bixiga” [Editora Senac, 1996], Armandinho contou como teve a ideia de criar um espaço que inicialmente seria um arquivo histórico sobre o bairro.
“… Nesse embalo de divulgação do bairro, eu pensei: puxa vida, se fizesse um museu eu daria uma grande valorização ao bairro. Um bairro que tem um museu, é porque tem alguma coisa para ser preservada… … E como eu tinha bastante coisa daquele jornal, O Bixiga, de 63, logo de cara eu pensei em fazer um arquivo histórico porque só tinha documentos, papéis, etc. Desocupou a casa e eu fiz.
Sou semi-analfabeto, pois só tenho o quarto ano primário. E de museu eu não tinha experiência nenhuma. Eu só tinha entrado num museu uma vez na minha vida, que foi quando eu tinha 12 anos e fui, com a escola no Museu do Ipiranga. E eu fiz um museu como eu achava que tinha que deveria ser. Fui no Hospital do Câncer e comprei dois arquivos, mas aí começaram a aparecer umas peças. Começou a mudar e o negócio já não era mais um arquivo e sim um museu…”
estadao.com.br/acervo
MUSEU VIVO
Mas o conceito de museu que saiu da cabeça de Armandinho do Bixiga era diferente dos tradicionais museus. Seria um museu vivo:
“Na minha ignorância toda, eu mudei a forma de museologia quase que no mundo. Antes de mim não havia museu que colocava as peças onde você poderia pegar. Em qualquer museu, até hoje, é aquele silêncio, todas as peças embutidas nos armários. Aqui no meu museu, não, você entra e daqui a pouco vê um italiano xingando o outro, brigando.”
“O museu do Bixiga, então, não é parado como quase todos, hoje os museus já estão fazendo eventos. Eu costumo dizer também que isso não é bem um museu. É um local onde as pessoas, os jornalistas, estudantes vêm para saber tudo do Bixiga. Eu considero como museu de verdade as velhas casas, os velhos moradores, o último poste de lampião a gás, o salão de barbeiro do Gaetano, etc. Não é só essa casa e o que está dentro: o museu é o bairro inteirinho.”
Em 1981, na véspera da inauguração do espaço “Memória do Bixiga, o Jornal da Tarde dedicou uma página inteira à iniciativa de Armandinho. Ao lado do texto da repórter Rachel Melamet sobre o novo espaço de memória foram publicadas várias fotos com pequenas histórias do bairro. Veja a página ampliada da reportagem, leia a íntegra da transcrição e veja fotos do museu mais abaixo.
Página do Jornal da Tarde de 29 de abril de 1981 sobre a inauguração do Museu Memória do Bixiga. Foto: Acervo Estadão
Jornal da Tarde – 29 de abril de 1981
A memória do Bixiga
Rachel Melamet
Amanhã, às oito horas da noite, haverá festa no Bixiga: por iniciativa de Armando Puglisi, antigo morador do bairro, será fundado o arquivo histórico “Memória do Bixiga”, onde serão guardados todos os documentos fotos e registros de acontecimentos locais importantes. O arquivo vai funcionar numa casa na rua dos Ingleses, número 165, construída pelo avô de Armando.
Vai ser uma grande festa, como aquelas dos velhos tempos em que os imigrantes italianos se reuniam para tomar bons vinhos e comer o tradicional pão especial com sardela, berinjela e queijo. Amanhã, às oito horas da noite, o Bixiga vai entrar oficialmente para a história da cidade de São Paulo como o primeiro bairro a possuir um arquivo histórico.
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Só isso bastaria para que os moradores se sentissem muito orgulhosos. Mas o que torna o arquivo histórico “Memória do Bixiga” ainda mais importante é que ele foi idealizado e executado por um cidadão comum, e não pelo poder público. Esse cidadão é Armando Puglisi, que todo mundo na Bela Vista conhece e admira como Armandinho, que ali nasceu e vive há 49 anos. Ele próprio é uma espécie de “arquivo ambulante”, tal o seu conhecimento da história do bairro e o seu empenho na luta pela preservação de suas tradições e das construções mais antigas que ainda sobrevivem ao progresso.
Armandinho é uma espécie de relações públicas da Bela Vista, sempre atendendo a jornalistas e estudantes e pesquisadores em busca de informações. Foi pensando em concentrar todos os documentos e fotos que possuía e em fixar um ponto para essas conversas que ele decidiu criar o arquivo histórico, há cerca de um ano.
Essa iniciativa chegou a ser criticada por algumas pessoas, que achavam que ele só queria “aparecer”. Mas qualquer morador do Bixiga sabe que Armando Puglisi, dono de uma pequena fundição e que não esconde de ninguém que “não terminou o ginásio”, faz tudo por amor ao lugar onde nasceu, sem nenhuma outra intenção.
O arquivo histórico Memória do Bixiga vai funcionar na rua dos Ingleses, 165. É uma casa amarela construída na década de 20 por Francisco Puglisi, avô de Armandinho, que nasceu ali mesmo, num dos cômodos. Hoje a casa está alugada para um homem chamado Brasil Arouca, mas ele fez questão de colaborar e cedeu a sala da frente e o corredor de entrada para o arquivo.
Armandinho arrumou tudo com muito carinho, com a ajuda do fotógrafo Paulo Santiago, que decidiu colaborar quando tomou conhecimento da “iniciativa incrível”. Nesta terça-feira os dois começaram a fazer um curso de “arquivismo histórico”, para aprender mais sobre o trabalho que estão desenvolvendo como pesquisadores amadores. Mas, mesmo sem o conhecimento técnico, a iniciativa vem sendo considerada tão pioneira que Armandinho já foi até convidado para dar uma palestra numa faculdade.
O arquivo conta atualmente com duas mil fotografias e cerca de três mil documentos, que vão desde recortes de jornais até uma cópia xerox do Livro de Tombo da Igreja de Nossa Senhora Aquiropita, a padroeira do bairro. Mas Armandinho acha quer isto não é o mais importante:
— Este bairro inteiro é um museu vivo —diz Armando Puglisi. — O arquivo é apenas a sua memória, um lugar para guardar documentos e lutar para que o Bixiga seja preservado. Cada casa antiga, cada vila, cada padaria, bar, cantina ou pizzaria, a escola de samba Vai-Vai, o último poste de lampião a gás que resta na cidade, na rua Manoel Dutra, tudo isso faz parte do museu histórico da Bela Vista. Não nos interessa por exemplo, trazer esse último lampião para a porta do arquivo. O importante é restaurá-lo e preservá-lo no seu local de origem, como tudo que existe e funciona no bairro.
A “Memória do Bixiga” enfrenta muitos problemas financeiros porque tudo depende do próprio Armandinho e de alguns poucos colaboradores. Recentemente, o cenógrafo Flavio Império emprestou ao arquivo um filme de oito horas sobre a história do bairro para que fosse tirado uma cópia, mas a falta de verbas não permitu. Flávio, então, doou ao arquivo um quadro de sua autoria, chamado “Bela Vista” para ser leiloado amanhã, e a renda financiaria as cópias do filme. Mas Armandinho já desistiu:
— O quadro é tão bonito, e tem o nome do bairro, que decidi incorporá-lo ao museu em vez de fazer um leilão. O dinheiro vai aparecer, de algum lugar.
Até 15 dias atrás, a Prefeitura ainda não havia entrado em contato com o arquivo histórico Memória do Bixiga, apesar das multas notícias sobre ele já publicadas na imprensa. Essa falta de apoio deixou Armandinho um pouco magoado, mas não foi sufiente para desanimá-lo. Agora, a Secretaria Municipal de Cultura mandou uma arquivista até a rua dos Ingleses, para catalogar corretamente todo o material coletado.
MUSEU MEMÓRIA DO BIXIGA
O Museu do Bixiga na Rua dos Ingleses, 118. Foto: Hélvio Romero/Estadão
Interior do Museu Memória do Bixiga em 1998. Foto: Denise Adams/Estadão
Itens do Museu Memória do Bixiga, entre eles a página do Jornal da Tarde sobre a inauguração em 1981. Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Taça de torneio de futebol resgatada por Armandinho e quadro com reportagem do Estadão de 1992. Foto: Hélvio Romero/Estadão
ARMANDINHO NAS REDES
Conteúdos do livro “Memórias de Armandinho do Bixiga” podem ser vistos e lidos digitalmente nas redes sociais Instagram e Facebook no perfil @armandinhodobexiga.
JORNAL DA TARDE
Por 46 anos [de 4 de janeiro de 1966 a 31 de outubro de 2012] o Jornal da Tarde deixou sua marca na imprensa brasileira.
Neste blog são mostradas algumas das capas e páginas marcantes dessa publicação do Grupo Estado que protagonizou uma história de inovações gráficas e de linguagem no jornalismo. Um exemplo é a histórica capa do menino chorando após a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982, na Espanha.



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