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Falta de água e informação expõe indígenas à epidemia de chikungunya em MS

Falta de água e informação expõe indígenas à epidemia de chikungunya em MS

A epidemia de chikungunya na Reserva Indígena de Dourados escancarou um problema antigo nas aldeias Jaguapiru e Bororó. É comum encontrar caixas d’água abertas em quintais, já que não há água encanada. Além disso, ainda há muita gente que não tem informações suficientes sobre a transmissão da doença.

Na Aldeia Bororó, Luciana Vasquez Garcia, de 71 anos, teve chikungunya há dois meses e ainda sofre com dores nas articulações. Sem água encanada e com pouca informação sobre as formas de contágio da doença, ela mantém uma caixa d’água aberta no quintal e outra na frente de casa, à espera da próxima chuva — criadouros ideais para o mosquito Aedes aegypti.

“Eles dizem que pega do mosquito, mas eu não sei por que a gente pega. Minhas duas caixas d’água ficam abertas, sem tampa, pode ser que eu peguei dali mesmo. Torneira tem, mas não tem água, aí tem que tomar essa água suja. Quando tem, eu tomo da caixa. Quando não tem, é essa água suja. Só mandaram caminhão-pipa uma vez”, afirma Luciana Vasquez Garcia.

Como não há abastecimento canalizado, a água deveria ser levada por caminhão-pipa ou veículos da Sesai (Secretaria de Saúde Indígena), mas essa entrega é irregular e insuficiente. Assim, muitas famílias precisam racionar e improvisar com água da chuva.

Tal cenário, aliado ao acúmulo de lixo pela ausência de coleta e à falta de informação preventiva, ajudou a transformar as reservas indígenas no epicentro da epidemia de chikungunya na região.

Dor que não passa

Nesta quinta-feira (30), o município de Dourados chegou a 2.755 confirmações de chikungunya e outros 2.516 casos em investigação. Dourados também soma nove das 14 mortes registradas em Mato Grosso do Sul neste ano, o equivalente a 64% dos óbitos estaduais pela doença. A maioria das vítimas era indígena.

Apesar da redução de 81% dos casos nas aldeias entre a 12ª e a 16ª semanas epidemiológicas, a zona urbana passou a registrar aumento de 61% no mesmo período, indicando que a doença já ultrapassou os limites da reserva e avançou para os bairros da cidade. Mesmo assim, quem pegou chikungunya na aldeia ainda sofre as consequências da doença.

“Eu não estou bem desde que eu peguei essa doença. A chikungunya já vai fazer dois meses, ainda tenho diabetes. Eu não estou bem, não. O doutor falou que a gente sara com dois anos, com um ano. Eu estou tomando remédio caseiro, porque essa doença é muito ruim. Nós todos pegamos, meus filhos, minha filha, a família toda pegou. Mas, graças a Deus, nós passamos”, relata Luciana Vasquez Garcia.

Ela conta que sofreu com febre, dores intensas e ainda sente os efeitos nas articulações. “Eu sentia ânsia de vômito, febre, dor de cabeça, dor no corpo. As juntas doem até hoje, estou tomando remédio caseiro para melhorar. A vacina ainda não tomei, mas, se tiver ali, eu vou tomar para dar uma melhorada, porque essa doença me maltratou muito, me deixou quase seca”, diz.

Conscientização de porta em porta

Com o avanço da epidemia, agentes de saúde e de endemias intensificaram o trabalho de visitas domiciliares para eliminar criadouros e orientar os moradores. Jaqueline Amaral Barbosa, de 33 anos, começou a atuar como agente de endemias justamente durante o surto. Antes da epidemia, as aldeias não tinham atendimento regular desse serviço, mesmo tendo mais de 20 mil habitantes.

“Comecei a trabalhar como agente de endemias depois que veio esse surto e nós fomos chamados para trabalhar na área. A gente trabalha fazendo visita de casa em casa, para verificar as caixas d’água, os arredores da casa. Se a pessoa estiver positivo para chikungunya, temos que fazer bloqueio químico e fazer relatório de tudo. Encontramos muito lixo cheio de água, cheio de foco”, explica.

Segundo ela, a resistência de parte da população ainda dificulta o controle da doença. “Tem muita casa com caixa d’água aberta, na minha área eu achei muitos focos. E ainda tem gente que não autoriza a entrada, recusa, não aceita. Isso vem entristecendo a gente, porque é uma doença muito séria”, afirma.

A agente de saúde indígena e rezadeira Priscila Maciel Duarte, de 63 anos, também acompanha o combate diário à doença dentro da aldeia. “Veio Polícia Militar e Força Nacional para poder ver os pneus dos carros, se tem água. A gente está indo nas casas para juntar lixo que tem água, enterrar lixo, o que precisar”, conta.

Ela diz que, no início, muitos moradores não acreditavam na gravidade da situação. “Primeiro, as pessoas não estavam sabendo [como prevenir a chikungunya e acabar com os focos]. Depois, nós estamos firmes junto com os agentes de endemia, e as pessoas passaram a conhecer. A gente sempre falava, sempre. Mas eles não acreditavam, tiveram que ver para acreditar. Eu sempre falei: ‘Não deixa água nem dentro de uma tampinha, derrama tudo’. Depois, voltava e estava a mesma coisa. Até que deu essa chikungunya aí”, relata.

Priscila afirma que viu muitas famílias adoecerem e acredita que houve melhora recente no cenário. Além dos trabalhos de combate, ela credita a melhoria do cenário à fé da comunidade. “Eu vi muita gente adoecida, muito mesmo. Agora, que passou esse mês, parece que deu uma melhorada, com a nossa reza. Nós fizemos tudo isso e tem muita gente que estava doente e já está novo”, diz.

Cacique rebate prefeitura e cobra estrutura

O cacique da Aldeia Bororó, Reinaldo Arévalo, critica a falta de apoio da Prefeitura de Dourados e rebate declarações de que manter caixas d’água abertas seria um hábito cultural indígena. Segundo ele, a prática acontece por necessidade, diante da ausência de abastecimento e coleta de lixo adequados.

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Cacique da Aldeia Bororó, Reinaldo Arévalo. (Pietra Dorneles, Jornal Midiamax)

“Se tivesse mais apoio da Prefeitura de Dourados, não teria essa epidemia aqui. Aqui tem 26 mil habitantes, entre a Jaguapiru e a Bororó. Se tivesse um caminhão de lixo, ou, pelo menos, que deixasse um container para jogar o lixo e recolhesse de semana em semana, não teria essa epidemia. Antes não estava tendo e agora virou isso”, afirma.

Sobre o abastecimento de água, ele diz que promessas são frequentes, mas poucas ações chegam até a comunidade. “A gente só vê na mídia dizer que estão fazendo isso e aquilo, mas não chega aqui. Agora falaram que vai ter dois superpoços, mas não vai dar em nada depois que acabar essa campanha política. Até chegar isso aqui vai demorar muito. A nossa aldeia tem gente demais”, critica.

Para o cacique, o armazenamento de água não é escolha, mas sobrevivência. “As pessoas guardam água da chuva porque não tem água mesmo, é por motivo de necessidade mesmo. Tem várias casas que você vê caixa d’água sem tampa, porque é velha. O recurso que vem do governo federal está indo para onde?”, questiona.

Vacinação em andamento

Diante da gravidade da situação, o Governo Federal reconheceu, no fim de março, situação de emergência em saúde pública em Dourados por causa da epidemia de chikungunya. A medida reforçou o decreto municipal publicado anteriormente e ampliou a possibilidade de ações emergenciais.

A vacinação começou na segunda-feira (27). Nas aldeias Bororó e Jaguapiru, cerca de 100 pessoas já receberam a dose. Em todo o município, são 350 vacinados até agora. A meta da Secretaria Municipal de Saúde é imunizar pelo menos 27% da população, o equivalente a cerca de 43 mil pessoas.

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(Revisão: Nichole Munaro)

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