Mundo precisará se reorganizar diante das mudanças no Google
Larry Page e Sergey Brin, fundadores do Google, no primeiro escritório da empresa, em 1999 – Foto: reprodução
“Existe um serviço novo que você precisa usar: ele se chama Google!”
Lembro de dizer exatamente essa frase a vários amigos meus, já no ano 2000. Naquela Internet primitiva, em que o melhor buscador era o AltaVista, criado pela DEC, Larry Page e Sergey Brin criaram o Google oferecendo respostas muito melhores até para pesquisas simples. Aquela combinação de classificação eficiente de páginas com uma usabilidade disruptiva o transformaria no site mais visitado do mundo poucos anos depois.
Tudo isso está prestes a mudar, graças às novidades apresentadas na conferência Google I/O, no dia 19 de maio.
Naturalmente, o gigante de buscas evoluiu em seus algoritmos e na diversidade de informações que abarca ao longo desse quarto de século. Mas a experiência se manteve mais ou menos inalterada: a pergunta é feita em uma caixa de texto e a resposta vem em uma relação de links para os sites mais relevantes.
Agora, a inteligência artificial está forçando o fim do formato consagrado do buscador. Ela acostumou as pessoas a receber respostas prontas mesmo para pedidos complexos, dispensando-as da necessidade de ficar clicando nos links oferecidos.
Se a mudança impactasse apenas o buscador, seria uma questão da empresa e de seus clientes. Mas não é exagero dizer que o formato original do Google redefiniu o mundo, e não só o digital. Há décadas, “aparecer bem” nas suas respostas era sinônimo de dinheiro e sucesso.
Todo mundo se organizou para ser agraciado com um bom posicionamento, e negócios inteiros foram criados a partir disso. Com o novo formato, tudo isso vai por água abaixo, sendo substituído por algo que ninguém sabe ao certo como funcionará e muito menos como cair nas graças dos novos algoritmos.
Não se pode ignorar que a atual onda de IA generativa se apoia em avanços de pesquisas do próprio Google, como a arquitetura Transformer, em 2017. Ainda assim, a empresa relutou em lançar produtos com essa tecnologia, abrindo caminho para que ela fosse explorada antes por concorrentes como OpenAI, Meta e outros.
Com uma cultura interna orientada à pesquisa acadêmica, o Google temia que modelos ainda imaturos produzissem conteúdos tóxicos, enviesados ou factualmente errados em produtos sensíveis, como o buscador ou o Gmail. Isso poderia gerar danos à marca e atrair ainda mais escrutínio de reguladores em um momento em que já enfrentava investigações antitruste e debates sobre responsabilidade de plataformas.
Dessa forma, por anos a fio, o foco predominante foi publicar papers de ponta e integrar IA de forma incremental a serviços existentes, em vez de priorizar um produto revolucionário (como o ChatGPT), o que fez com que outros atores, menos avessos ao risco, capitalizassem primeiro o potencial comercial da tecnologia.
A grande ironia é que essa ética e o cuidado para não ameaçar seu bilionário negócio de buscas fizeram o Google ter que “correr atrás” em algo que ele dominava. Eu seria capaz de apostar que a recém-anunciada mudança abrupta no buscador aconteceu por pressão, e não por opção. Se ela não acontecesse, o Google poderia se tornar irrelevante, algo então inimaginável.
O problema é que, graças à sua posição absurdamente dominante, esse movimento forçará o mundo a se mexer junto, em um exemplo emblemático do poder descomunal que as big techs construíram em nossas vidas.
O Google está mudando para não morrer e todos que dependem dele terão que fazer o mesmo, ainda que não se saiba como. O placar do mundo digital foi zerado, e isso pode ser uma enorme oportunidade ou uma terrível ameaça.
Depende das próximas jogadas de cada um.
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