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Sociedade não pode ser ingênua diante de ações de influenciadores

Sociedade não pode ser ingênua diante de ações de influenciadores

 Sociedade não pode ser ingênua diante de ações de influenciadores

A influenciadora Virgínia Fonseca beija um chimpanzé em zoológico localizado em Dubai – Foto: reprodução

Dois acontecimentos recentes envolvendo grandes influenciadoras chamaram muita atenção. O primeiro foi a prisão de Deolane Bezerra, acusada de ligações com o PCC. O outro foi o beijo que Virgínia Fonseca deu em um macaco logo após encerrar um relacionamento com Vini Jr., jogador de futebol que é vítima costumaz de racistas que o chamam justamente de macaco.

Esses casos não são “só fofoca”, porque expõem como influenciadores operam como agentes econômicos e políticos, com impacto real no consumo, endividamento de famílias e percepção de legalidade pela população. Eles evidenciam um modelo de negócios que mistura publicidade, apostas de alto risco e práticas potencialmente criminosas, ancorado na confiança de milhões de seguidores.

No episódio do macaco, a polêmica escancara como imagens “inocentes” podem reativar séculos de racismo e desumanização, especialmente quando envolvem uma mulher branca poderosa e um homem negro. Dessa forma, o debate sobre esses casos envolve responsabilidade civil, ética e regulação das plataformas.

Influenciadores têm responsabilidade pública porque impactam profundamente uma parcela significativa da sociedade, sobretudo jovens e públicos vulneráveis. Mesmo sem más intenções, precisam responder pelos efeitos do que publicam, reconhecer erros e adotar critérios éticos mínimos no uso da própria visibilidade.

Eles são um sintoma de um tempo em que nossas vidas são dirigidas pelas redes sociais, e cresceram em um ecossistema que promove a falsa ideia de que tudo se pode, colhendo os benefícios e fugindo das responsabilidades da exposição. A sociedade precisa abandonar a sua ingenuidade diante dos problemas que isso cria.


Veja esse artigo em vídeo:


Virgínia gravou seu vídeo em um zoológico de Dubai, beijando um chimpanzé na boca e fazendo piada (disse “que pegada foi essa”), poucos dias após o término com Vini Jr. A cena “viralizou” em páginas de entretenimento, gerando críticas de especialistas, ativistas e parte do público, que apontaram riscos sanitários e a normalização de interações inadequadas com animais, além de ser lida como uma possível indireta ao ex-namorado.

O vídeo foi usado por internautas para direcionar novos ataques a Vini Jr., com comentários que associavam o jogador ao animal. Diante da repercussão, Virgínia gravou um vídeo se desculpando, dizendo que não teve intenção racista, reconhecendo que a publicação foi inadequada naquele momento e afirmando ser contra qualquer forma de preconceito. Essa resposta e a volatilidade de “escândalos fugazes” das redes sociais tiraram a força do episódio, reforçando que as atitudes mais irresponsáveis acabam sendo absolvidas em prazos cada vez mais exíguos.

Já no caso da Deolane, ela foi acusada de lavagem de dinheiro para o PCC. Ela nega participação em facção criminosa, diz ser alvo de perseguição e sua defesa alega desproporcionalidade das medidas. Ela segue presa preventivamente, enquanto o processo está em fase de investigação, sem condenação.

A repercussão expôs a polarização em torno da influenciadora. Parte dos seguidores reagiu com campanhas de apoio, mensagens de “injustiça” e reproduzindo a narrativa de perseguição, enquanto críticos apontam o caso como exemplo da ligação entre mercado de apostas, ostentação de luxo e crime organizado. A prisão também gerou debate sobre tratamento diferenciado a celebridades na cadeia, após denúncias de regalias, e sobre o papel de influenciadores na legitimação social de crimes.

Esses casos são exemplos recentes de uma longa lista de grandes influenciadores envolvidos com atitudes imorais ou ilegais. As redes sociais premiam ostentação, consumo e enriquecimento rápido, enquanto os mecanismos de fiscalização caminham lentamente. Mas é preciso destacar que a enorme maioria dos influenciadores não possui envolvimento com atividades suspeitas.

 

O valor da confiança

A lavagem de dinheiro aparece como o crime mais comum nesses casos. Ela surge, por exemplo, nos inquéritos envolvendo apostas online, as “bets”. Autoridades suspeitam que influenciadores legitimam dinheiro de origem obscura com contratos de marketing, empresas de fachada, premiações artificiais, compras de luxo e movimentações financeiras incompatíveis com a renda declarada.

De fato, esse crime se adapta muito bem às redes sociais. O mercado de influência é opaco, diferentemente da mídia tradicional. É difícil precisar quanto vale uma “publi”, um contrato de imagem ou uma campanha online. Além disso, o ambiente favorece a ostentação como credibilidade. Por fim, influenciadores possuem grande capacidade de mobilização financeira. Um simples story pode direcionar milhões de pessoas para plataformas de apostas, investimentos duvidosos ou fraudes em poucas horas.

Muitos criadores de conteúdo se tornaram verdadeiras plataformas de distribuição de confiança. Eles convertem intimidade digital em capacidade de convencimento econômico. Isso cria um problema novo para a sociedade, pois, quando seguidores passam a confiar mais em influenciadores do que em instituições tradicionais, o potencial de dano de práticas ilícitas cresce enormemente.

Do outro lado, seguidores criam uma relação emocional com influenciadores e os defendem como pessoas próximas. Eles simbolizam a promessa de ascensão social rápida, baseada em sucesso e visibilidade. Por isso, investigações nem sempre enfraquecem sua imagem, podendo até reforçar a identificação de quem os vê como vítimas.

As redes sociais, que se beneficiam largamente dessas polêmicas em suas páginas, amplificam esse fenômeno ao premiar conteúdos que geram emoção, conflito e polarização. Crises se transformam em engajamento, enquanto visibilidade se confunde com credibilidade. Somada à crescente desconfiança na imprensa, na Justiça e na ciência, essa dinâmica ajuda a explicar por que acusações graves muitas vezes não abalam a popularidade de influenciadores.

Diante de tudo isso, não dá mais para encarar as ações dos influenciadores só como entretenimento inocente. Se eles transformam atenção em poder, sua responsabilidade deve ser proporcional. Quem fala diariamente a milhões de pessoas é uma liderança social, e não “gente comum com sorte na Internet”.

Isso não significa exigir perfeição, mas sim transparência e consciência dos impactos de cada recomendação, especialmente em temas como dinheiro, saúde, política e aspectos sociais. Plataformas digitais, legisladores, marcas e público precisam atuar conscientemente para que engajamento não seja desculpa para descuidos éticos. Se a influência hoje representa um grande poder, também precisa incorporar compromisso explícito com verdade, clareza e interesse público.

 

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