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Novo governo terá de reorganizar políticas e financiamento da saúde para atender País que envelhece

Novo governo terá de reorganizar políticas e financiamento da saúde para atender País que envelhece

Estadão promove o ‘Brasil Adiante”, ciclo de debates para apresentar propostas ao País

Até agosto, especialistas debaterão medidas concretas contra os principais gargalos brasileiros. Crédito: Juliano Galisi

Se por um lado os avanços na Medicina e as melhores condições de vida aumentaram a expectativa de vida do brasileiro nas últimas décadas, por outro o País não preparou adequadamente seu sistema de saúde e sua estrutura de assistência social para lidar com uma população cada vez mais envelhecida.

Se há 50 anos um dos principais desafios sanitários era evitar mortes por doenças infecciosas como o sarampo, hoje temos algumas dessas patologias controladas ou erradicadas, mas convivemos com o aumento de doenças crônicas que consomem anos de vida saudável e uma crescente fatia do orçamento da Saúde, sem que tenhamos ainda uma saída para garantir o acesso a tratamentos caríssimos para doenças cada vez mais comuns, como o câncer.

O cenário pressiona governantes a ampliarem a oferta de hospitais, consultas, exames e cirurgias, mas também joga luz sobre a importância de políticas de prevenção e promoção da saúde e da necessidade de uma gestão mais eficiente dos recursos da Saúde.

Propostas para enfrentar esses desafios serão discutidas no segundo encontro do Brasil Adiante, série de eventos promovida pelo Estadão nos meses que antecedem as eleições de outubro, para construir uma agenda integrada e executável de soluções para os primeiros 24 meses do próximo governo.

 Novo governo terá de reorganizar políticas e financiamento da saúde para atender País que envelhece

Cerca de 15% da população brasileira tem 60 anos ou mais, segundo dados do último Censo Foto: Ivica Drusany/Adobe Stock

No primeiro encontro, que aconteceu em maio, o debate teve como foco o sistema Judiciário e os efeitos da baixa previsibilidade judicial sobre as atividades econômicas (veja como foi). Até agosto, serão realizados outros três encontros que discutirão temas como segurança pública e crime organizado, produtividade, infraestrutura e sustentabilidade.

Neste segundo encontro, que acontece na quinta-feira, 11, o debate terá como foco as questões mais urgentes de dois dos principais pilares sociais do País: saúde e educação.

Na saúde, um dos temas centrais será o envelhecimento populacional, que já deixou de ser uma projeção distante para se tornar uma pressão concreta sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), os planos de saúde, as famílias e a economia.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024. Em 1940, início da série histórica, era de 45,5 anos. O ganho de mais de três décadas de vida é uma conquista associada à queda da mortalidade infantil, à vacinação, ao saneamento, à ampliação do acesso a serviços de saúde e aos avanços da Medicina.

A transição, no entanto, ocorre em ritmo acelerado. O Censo de 2022 mostrou que o número de pessoas com 65 anos ou mais chegou a 22,2 milhões, o equivalente a 10,9% da população. Em 2010, eram 14,1 milhões, ou 7,4%.

Considerando o recorte de 60 anos ou mais, usado pelo Estatuto da Pessoa Idosa, o contingente já somava 32,1 milhões de brasileiros, 15,8% da população.

O aumento da expectativa de vida é uma conquista, mas traz desafios para o sistema de saúde do País pela mudança no perfil epidemiológico da população.

Com uma população mais jovem, boa parte da demanda se concentra em pré-natal, parto, vacinação, pediatria, acidentes, infecções e condições agudas. Em uma população mais envelhecida, cresce a prevalência de doenças crônicas, que exigem consultas e exames recorrentes, medicamentos de uso contínuo, reabilitação e tratamentos caros por períodos prolongados.

Mudança de perfil epidemiológico aumenta custos da saúde

Essa mudança de perfil tem impacto direto nos custos. Um estudo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), com base em planos de saúde individuais, mostrou que a despesa assistencial anual per capita aumenta fortemente conforme a idade. Em valores de 2016, o gasto médio era de R$ 1.501 entre beneficiários de 0 a 18 anos e chegava a R$ 19.263 entre pessoas com 80 anos ou mais. Na prática, o custo anual médio de um beneficiário nessa faixa era quase 13 vezes o observado entre crianças e adolescentes.

No SUS, a pressão segue a mesma lógica, embora a conta seja mais difícil de mensurar por causa da fragmentação dos registros e da diferença de financiamento entre União, Estados e municípios. Reportagem do Estadão com base em dados do Ministério da Saúde mostrou que o custo médio da internação de um idoso no SUS é 30% maior do que a hospitalização de um adulto de 25 a 59 anos.

O câncer é uma das doenças que ilustra esse novo cenário. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 781 mil novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028. A doença já é a segunda causa de morte no País, atrás apenas das doenças cardiovasculares.

O envelhecimento da população é um dos fatores associados ao aumento da incidência de câncer. Ao mesmo tempo, muitos pacientes ainda chegam aos serviços especializados com doença avançada ou metastática, quando as chances de cura são menores e os tratamentos tendem a ser mais complexos e caros.

O avanço científico observado nas últimas décadas também aumenta os custos. Na oncologia, por exemplo, tratamentos como a terapia com células CAR-T, aprovada para cânceres hematológicos como leucemia, linfoma e mieloma, chega a custar mais de R$ 2 milhões por paciente.

Nesses casos, especialistas são unânimes em dizer que é preciso atuar em várias frentes: na prevenção e no diagnóstico precoce, para prevenir tumores ou ao menos detectá-los rapidamente; no investimento em pesquisa e desenvolvimento locais, o que pode diminuir os custos de tratamentos; e em novas formas de custeio e uso dos recursos na compra de tratamentos, como aquisições centralizadas e acordos de compartilhamento de risco.

O aumento de brasileiros com demência é outro desafio do envelhecimento populacional. Relatório Nacional sobre a Demência, do Ministério da Saúde, estima que cerca de 2,5 milhões de pessoas com 60 anos ou mais convivam com a doença no Brasil, número que pode chegar a 5,7 milhões em 2050.

A estrutura disponível no sistema público ainda é insuficiente para esse perfil de demanda. Estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) apontou baixa disponibilidade de recursos físicos e humanos para o cuidado de idosos no Brasil.

O trabalho, publicado em 2023, mostrou que apenas 0,7% dos médicos que concluíram a residência em 2020 se especializou em geriatria, índice que se manteve praticamente estável ao longo dos dez anos anteriores e que contrasta muito com os 9,5% que concluíram a especialização em pediatria, por exemplo.

O Brasil tem, hoje, pouco mais de 2,6 mil geriatras, mas a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) estima que o déficit seja de 28 mil desses profissionais.

O estudo do IEPS mostrou ainda que, também na contramão da demanda brasileira, o número de leitos em instituições de longa permanência ou de reabilitação caiu de 0,6 para mil idosos em 2010 para 0,4 para mil idosos em 2021.

A desigualdade social também define como cada brasileiro envelhece. Segundo o IEPS, idosos de menor renda têm piores indicadores de saúde e menos acesso a cuidados médicos. O estudo aponta que pessoas de 75 anos ou mais no grupo de maior renda podem ter condições de saúde semelhantes às de indivíduos 10 a 15 anos mais jovens entre os mais pobres.

Entre as propostas que devem entrar em debate no evento Brasil Adiante devem estar o fortalecimento da atenção primária, a ampliação do rastreamento e controle de doenças crônicas, a melhora da regulação de filas e a adoção de modelos mais eficientes de negociação de medicamentos e terapias de alto custo.

Veja os detalhes e painéis do encontro

  • Data: 11 de junho⁣;
  • Local:⁣ Espaço JK Eventos⁣;
  • Endereço: Rua Professor Atílio Innocenti, 780 – Itaim Bibi;
  • Horário: Das 8h às 11h30;
  • Onde assistir: Transmissão ao vivo nas plataformas do Estadão.

Painel 1: Educação: como preparar os brasileiros para um mercado de trabalho que já mudou?

Painelistas: Priscila Cruz, cofundadora e presidente-executiva do Todos Pela Educação, Denis Mizne, CEO da Fundação Lemann, e Jair Ribeiro, fundador do Parceiros da Educação e da Proz Educação. Mediação de Renata Cafardo, repórter especial e colunista do Estadão.

Painel 2: Quem vai pagar a conta do envelhecimento no Brasil?

Painelistas: Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central e cofundador do IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde), Gonzalo Vecina, sanitarista e professor da USP, Paulo Moll, CEO da Rede D’Or São Luiz. Mediação de Thaís Manarini, editora do Pulsa, hub multiplataforma de saúde e bem-estar do Estadão.

Veja o cronograma do Brasil Adiante

  • 27 de maio: Encontro 1: Eixo I: Estabilidade Institucional e Fundamentos do Crescimento (veja como foi);
  • 11 de junho: Encontro 2: Eixo II: Capital Humano e Coesão Social (Educação e Saúde);
  • 23 de julho: Encontro 3: Eixo II: Capital Humano e Coesão Social (Segurança Pública e Crime Organizado);
  • 19 de agosto: Encontro 4: Eixo III: Produtividade, Infraestrutura e Sustentabilidade;
  • 27 de agosto: Encontro 5: Apresentação do documento consolidado, divulgação da agenda e fechamento do projeto;
  • Novembro: Entrega da agenda de soluções ao presidente eleito.

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