Mortes no trânsito ligadas ao álcool têm maior alta desde 2016
Motorista alcoolizado em Porsche se envolve em acidente e deixa 4 feridos na zona leste de SP
Acidente de trânsito ocorreu na Avenida Conde de Frontin, na região da Vila Matilde. Crédito: Divulgação/PM
O Brasil registrou 13.075 mortes no trânsito relacionadas ao consumo de álcool em 2024, o que equivale a mais de 35 casos por dia. Conforme estudo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), é o maior número da série histórica desde 2016, quando ocorreram 13.095 casos.
Os dados, divulgados nesta quinta-feira, 18, revelam ainda uma queda de 19,5% na taxa de óbitos no trânsito por álcool por 100 mil habitantes ao comparar os anos de 2010 e 2024. Nesta sexta-feira se completam 18 anos da chamada Lei Seca, que estabeleceu tolerância zero para o consumo de bebidas alcoólicas na direção.
Em números, foram 1.925 mortes a menos entre 2010 e 2024, o que corresponde a uma diminuição de 12,8%. A taxa de óbitos atingiu seu menor valor em 2019, quando chegou a 5,4, com 11.261 vítimas. Mas voltou a crescer no ano seguinte, alcançando 5,5 e 11.600 casos em 2020. Também houve aumento nos demais anos até 2024, que encerrou com um índice de 6,2 e 765 mortes a mais que 2023.
“O crescimento nas ocorrências nos últimos anos tem fatores complexos”, afirma a coordenadora do Cisa, Mariana Thibes, ao Estadão.
Para ela, o número de operações com o uso de bafômetros aumentou, mas também cresceu a frota de motocicletas e a quantidade de acidentes envolvendo motociclistas. De acordo com um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 40% das mortes no trânsito envolvem esse grupo. “O trânsito ficou mais perigoso”, destaca.
Mariana defende que uma redução efetiva no número de vítimas exigiria que as leis sejam acompanhadas de investimentos em fiscalização confiável, com mais planejamento e inteligência estratégica, além de acesso a atendimento de emergência e estratégias de prevenção direcionadas.
“É um sinal de alerta importante. O Brasil avançou muito na última década para reduzir as mortes em acidentes de trânsito ocasionados pelo uso de álcool, mas ainda há desafios sérios. Um deles é a consistência das medidas de fiscalização. O impacto na redução de mortes tende a diminuir, mesmo com leis existentes, se não houver uso frequente e constante do bafômetro, sobretudo nas áreas onde os dados mostram”, diz a especialista.
Conforme a avaliação do Cisa, 18 Estados apresentaram taxas superiores à média nacional, com Tocantins (13,4), Piauí (12,1) e Mato Grosso (11,1) registrando os maiores índices. Os dados levantados reiteram que a população masculina é a principal vítima (86,7%), respondendo também por 81,8% das hospitalizações por álcool no trânsito. Em 2024, ocorreram 102.440 internações por combinação de álcool com direção, um aumento de 1,9% em comparação com o ano anterior.
“Os homens são as principais vítimas porque concentram os dois fatores de risco que mais se combinam de forma fatal: a maior exposição ao trânsito, especialmente como motociclistas, e o maior consumo nocivo de álcool”, avalia Mariana.
Ela acrescenta que também há uma dimensão cultural por trás da maior vitimização de homens, já que o consumo excessivo de álcool ainda é socialmente associado à masculinidade. “Essa mesma lógica opera no trânsito, ou seja, a predisposição para o risco, a velocidade, a resistência a usar equipamentos de proteção”, ressalta, e cita a pesquisa “Álcool e a Saúde dos Brasileiros: Panorama 2025”.
No estudo, o Cisa traz que a Fração Atribuível ao Álcool nos acidentes de trânsito é de 36,6% para homens e 26,3% para mulheres, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o que significa que uma parcela maior das mortes masculinas no trânsito tem o álcool como fator determinante. “Isso não é uma questão de biologia, é uma questão de comportamento socialmente construído. Justamente por isso, exige resposta que vá além da fiscalização e precisa incluir campanhas de conscientização que dialoguem com essas normas culturais de gênero”, afirma a coordenadora.

Brasil registrou 13.075 mortes no trânsito relacionadas ao consumo de álcool em 2024. Foto: Daniel Teixeira/Estadão
País tem o Dia Nacional da Lei Seca
Nesta sexta-feira, o Brasil também celebra o primeiro Dia Nacional da Lei Seca. A data é comemorada no dia da assinatura da lei, em 2008, considerada como uma das mais rigorosas do mundo e reconhecida como um importante instrumento de segurança viária no País. Diante da data e do aumento do número de mortes por álcool no trânsito nos últimos cinco anos, Mariana afirma que “a resposta para esse problema precisa ser necessariamente multidimensional, uma vez que não existe uma medida isolada capaz de resolver algo tão complexo”.
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De acordo com a coordenadora, a primeira frente é a fiscalização, que precisa ser melhor distribuída pelo território, seguida por penalização e conscientização. “Precisamos ser mais estratégicos. As campanhas genéricas são limitadas. É preciso desenvolver ações direcionadas aos grupos mais vulneráveis, especialmente homens jovens e motociclistas, que dialoguem com as normas culturais que normalizam o risco e o consumo excessivo de álcool. O motociclista, em particular, merece atenção especial do poder público por ser o perfil mais exposto, vulnerável fisicamente e que mais cresce em número nas vias.”
A última frente apontada por Mariana é a regulamentação para a nova realidade, com infraestrutura viária que contemple o volume de motos, além de políticas de segurança específicas para o modal. “O Brasil tem uma das legislações mais restritivas do mundo no que tange álcool e direção e ela representa um avanço real na prevenção das mortes no trânsito. O que está faltando é estratégia para fazer essa lei funcionar de forma consistente, inteligente e integrada em todo o território nacional.”



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