A agonia do futebol pernambucano – 28/11/2025 – Gustavo Alonso
O Sport Club do Recife, o único time pernambucano na primeira divisão do futebol nacional, vem fazendo uma campanha sofrível no Campeonato Brasileiro, em último na tabela. Tudo bem, afinal ganhar e perder é do jogo. É outra derrota, a extracampo, que custa mais caro ao povo pernambucano.
Diferentemente do que o hypado cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho costuma defender em seus filmes e falas, este dano não é causado pelos “malvados sudestinos”. O torcedor pernambucano padece da total displicência das autoridades locais mesmo.
Depois de dez anos morando em Recife, resolvi ir à Arena Pernambuco assistir a Sport x Flamengo. Tenho vários amigos pernambucanos que nunca foram lá. Sagazes, deixaram o mico pro “gringo” aqui. A experiência dificilmente seria pior. Não pelo jogo em si, que até teve seus momentos interessantes, apesar do placar alargado de 5 a 1 para o time carioca. Mas pelo desrespeito total com o torcedor.
A Arena Pernambuco fica no município de São Lourenço da Mata, às margens do rio Capibaribe, na divisa entre os municípios de Recife, Jaboatão dos Guararapes e Camaragibe.
No entorno do estádio não há sequer uma residência ou comércio. As matas densas e a falta de iluminação deixam o ambiente tenso para qualquer brasileiro, mesmo os acostumados à violência urbana cotidiana. Quando foi construído para a Copa do Mundo de 2014, havia planos de se estruturar uma cidade planejada em seu entorno, promessa nunca cumprida pelos governantes. E se criou um gigante ineficaz, que não atende a sociedade pernambucana e é negligenciado pelo Estado, proprietário da obra.
A Arena Pernambuco está tão isolada que até a internet do celular pega muito mal. Em pleno 2025, um absurdo completo. Mesmo os fiscais de portão das entradas, que precisavam conferir a biometria de cada torcedor, padeciam da queda de sinal. Dentro do estádio, os telões não funcionaram em nenhum momento, e ficamos à deriva para acompanhar a goleada. Essa displicência não saiu barato. Meu ingresso custou R$ 120.
Mas o pior aconteceu fora do estádio. Não há qualquer transporte público para os torcedores. Todos têm que ir de carro, o que é a rota para o caos. A Arena Pernambuco tem capacidade para 44.300 pessoas e 4.700 vagas de estacionamento. Ou seja, a conta não fecha sem transporte público. Vários motoristas paravam os carros no meio da mata, em estacionamentos irregulares.
A polícia lá presente nem tentava organizar o trânsito. Não havia corredores para carros de aplicativo. Não havia ônibus, metrô ou trem no entorno. Cada um que se salvasse como podia.
Quem não foi de automóvel próprio, como eu, como fazer para chamar carro de aplicativo num lugar onde a internet não pega direito? Após a partida, centenas de torcedores padeciam em volta da Arena. Eu demorei uma hora para conseguir sair da temida região.
Do público total de 19.706 torcedores presentes na Arena, quase 66% eram flamenguistas. O torcedor do Sport pouco compareceu, decepcionado com o time e com a diretoria, que vendeu a partida por R$ 3 milhões a uma empresa que levou o jogo da tradicional Ilha do Retiro para a distante Arena. A empresa, cujo nome não foi divulgado, acabou tendo prejuízo, pois a renda da partida foi de R$ 2,1 milhões líquidos.
Diante de tamanha incompetência, todos saíram perdendo. Empresas, torcedores, equipes, cidades. Quando ninguém assume a responsabilidade de organizar o fluxo das multidões, tudo vira uma confusão completa. O que espanta no caso pernambucano é que não dá nem pra dizer que houve falha de planejamento. Não houve sequer tentativa de se planejar qualquer coisa.
Talvez seja por isso que a Arena Pernambuco é subutilizada. Ninguém quer ir lá. A agonia do futebol pernambucano é um emblema do pior legado da Copa de 2014, com seus “elefantes brancos” e governantes megalômanos em Brasília, nas cidades e Estados.
Passados dez anos da Copa, seguimos a sina de governos ineficientes e incompetentes de diversas correntes ideológicas, unidos em sabotar o futebol e as cidades brasileiras. Culpar os “sudestinos malvados” dessa vez não vai colar.
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