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Aryna Sabalenka não precisava se expor a esse papelão – 12/12/2025 – Marina Izidro

Aryna Sabalenka não precisava se expor a esse papelão – 12/12/2025 – Marina Izidro

Em 1973, os americanos Billie Jean King e Bobby Riggs se enfrentaram em uma partida de exibição que ficou conhecida como Batalha dos Sexos. O desafio entre a dona de 39 títulos de Grand Slam de simples e duplas e o campeão de Wimbledon e do US Open teve audiência global de 90 milhões de pessoas na televisão. O já aposentado Riggs tinha dito que, mesmo aos 55 anos, “ganharia de qualquer mulher”. A vitória de King foi considerada um marco na luta pela igualdade de gêneros no esporte.

Mais de 50 anos depois, uma nova versão da Batalha dos Sexos, anunciada recentemente, é uma das ideias mais absurdas do tênis dos últimos tempos.

A atual número 1 do mundo, a belarussa Aryna Sabalenka, vai enfrentar o australiano Nick Kyrgios no dia 28 de dezembro, em Dubai. Já seria desinteressante ver um tenista que é muito mais conhecido por seus chiliques em quadra e pelo desrespeito a árbitros e a adversários do que pela qualidade do seu tênis. Mas é bem mais grave que isso.

Kyrgios é o pior nome possível para um evento dessa natureza. Já admitiu ter agredido uma ex-namorada, tem histórico de comentários sexistas, apoiou Andrew Tate, “influenciador” acusado de estupros e de tráfico humano.

A escolha não é total coincidência. Kyrgios e Sabalenka fazem parte da mesma agência que organiza a partida. Para alguém que é o atual 672º do mundo e não disputa o circuito ATP desde março deste ano devido a uma lesão, é uma chance de ouro: vai voltar aos holofotes por uns dias e ganhar dinheiro de premiação.

Difícil entender por que Sabalenka não só topou como disse que acredita que o evento não vai prejudicar o tênis feminino, vai trazer novas audiências e ser um bom entretenimento. Logo ela, que trouxe novos ares para o esporte –é espontânea, beija o namorado em público, toma açaí, posta fotos nas redes sociais se divertindo e viajando de férias, sem pudores. Era melhor ter admitido que a razão era faturar uma graninha extra agora que a temporada acabou.

Apesar de os valores que ambos vão levar não terem sido revelados, a equipe da tenista deve ter feito as contas e chegado à conclusão de que vale a pena, mesmo que a reputação dela fique manchada.

Mas qual é o propósito? Se Sabalenka vencer, está apenas derrotando um homem fora de forma e irrelevante no tênis –e certamente ainda vai ouvir de alguns que ele fez corpo mole para deixá-la ganhar. Se perder, legitima o pensamento de Kyrgios e de quem pensa como ele: “Eu não preciso dar meus 100%” —foi a frase do machão. E ela já vai ser humilhada antes mesmo do primeiro saque. O lado da quadra dela vai ser 9% menor porque, segundo os organizadores, tenistas mulheres são 9% mais lentas que os homens.

Sabalenka, com seu talento, força física e carisma, conseguiu se tornar uma tenista dominante em quadra e querida fora dela. Não precisava se expor a esse papelão. Quem diz que é apenas entretenimento está passando pano para machistas e misóginos. Mas, apesar de parte da comunidade do tênis ser contrária essa partida, ela vai acontecer.

Se, nos anos 1970, nomes como King lutavam por igualdade, em pleno fim de 2025 o mundo é outro, e não é dessa forma que ela virá.

Qualquer que seja o placar final, já perderam o tênis feminino e o esporte como um todo.


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