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Com IPO da Compass, Cosan indica que reestruturação vai passar pelas empresas mais saudáveis

Com IPO da Compass, Cosan indica que reestruturação vai passar pelas empresas mais saudáveis

Ao anunciar nesta segunda-feira (23) a intenção de realizar uma oferta pública inicial (IPO) da distribuidora de gás natural Compass, a Cosan deixou claro que sua reestruturação financeira será mais longa e que não se resolveu apenas com o aumento de capital de pouco mais de R$ 10 bilhões em setembro passado, que marcou a entrada do BTG Pactual e da gestora Perfin em seu quadro acionário.

O próximo passo do grupo fundado por Rubens Ometto vai na direção de monetizar seus ativos mais rentáveis no momento – a Compass e a operadora ferroviária Rumo – para recompor o caixa e, possivelmente, ajudar a equacionar o endividamento da Raízen, hoje o ponto mais sensível da holding e que vai depender de um aporte de capital por parte da Cosan e da Shell, sócias na empresa de etanol.

O InvestNews apurou que a Cosan já conta com BTG Pactual e Bank of America (BofA) para coordenar o IPO. Ainda assim, por conta do endividamento do grupo, especialmente do impasse envolvendo a Raízen, hoje com mais de R$ 70 bilhões em dívidas e sem grau de investimento, alguns bancos têm evitado participar da oferta.

A listagem da Compass é vista no mercado como um movimento apressado, numa tentativa da holding controlada por Ometto e o banqueiro André Esteves de furar a fila de outras companhias de infraestrutura que também avaliam abrir capital na B3, como BRK Ambiental e Aegea.

O Broadcast informou que a Cosan, dona de 88% da Compass, estaria buscando cerca de R$ 5 bilhões com a oferta. Se confirmado o montante, a operação tende a ser predominantemente secundária – quando o controlador vende ações já existentes, sem entrada de recursos no caixa da empresa.

Empresa de infraestrutura regulada no Brasil costuma valer entre seis e oito vezes sua geração anual de caixa – no caso da Compass, Ebitda anual gira em torno dos R$ 5 bilhões. Aplicando um desconto pela pressa e o momento da Cosan, a empresa de gás natural poderia ser avaliada em algo perto de R$ 25 bilhões. 

Nesse cenário, a venda de cerca de 20% das ações da Cosan poderia chegar ao montante pretendido. A Compass chegou a ensaiar um IPO em 2021, porém as condições oferecidas não agradaram e a operação foi suspensa.

Mais saudável

A dívida líquida consolidada da Cosan, considerando todas as empresas do grupo, encerrou o terceiro trimestre de 2025 em cerca de R$ 71 bilhões, o equivalente a 4,9 vezes o Ebitda dos últimos 12 meses.

Olhando apenas para a holding, o endividamento direto soma aproximadamente R$ 24 bilhões, com alavancagem superior a seis vezes sua própria geração de caixa. Os dados mais recentes, do terceiro trimestre, ainda não consideraram o follow-on de R$ 10 bilhões ancorado pelo BTG. Os números mais atualizados serão divulgados no dia 10 de março.

A fotografia do balanço ajuda a explicar por que a Compass virou a próxima peça a ser monetizada. Do ponto de vista operacional, a empresa de gás natural está longe de ser o elo frágil da Cosan.

No mesmo período, a Compass registrou dívida líquida de R$ 9,9 bilhões e alavancagem de 1,9 vez o Ebitda. Mais de 80% dos financiamentos vencem no longo prazo, com prazo médio superior a cinco anos. 

O principal ativo da Compass é a Comgás, maior distribuidora de gás natural do país, com 3 milhões de clientes e 28 mil quilômetros de rede em São Paulo. A companhia também controla a Commit, joint venture com a japonesa Mitsui que reúne participações em distribuidoras como Sulgás, Compagas e Necta.

No braço de marketing e serviços, a Edge opera ativos como o Terminal de Regaseificação de São Paulo (TRSP), em Santos, além de projetos de biometano e comercialização de gás no mercado livre. É justamente esse ativo mais previsível e menos pressionado que agora pode ser levado ao mercado para ajudar na desalavancagem do grupo.

Operações com a Rumo

Outra empresa do grupo que pode ser acionada para reforçar o caixa da Cosan é a Rumo. No fim do ano passado, a holding levantou R$ 2,5 bilhões por meio de um empréstimo lastreado em 10% de sua participação na operadora ferroviária.

Mais recentemente, o colunista Lauro Jardim informou que o BTG estaria estudando uma eventual venda de ações da Rumo. Não está claro, porém, se a operação envolveria toda a fatia da Cosan – hoje de 20,3% do capital, algo próximo a R$ 6,5 bilhões – ou apenas uma parcela.

Assim como na Compass, o retrato financeiro da Rumo é mais equilibrado. A operadora encerrou o terceiro trimestre com dívida líquida próxima de R$ 9,7 bilhões e alavancagem de 1,9 vezes o Ebitda.

A Rumo opera a maior malha ferroviária independente do país, por meio das concessões da Malha Norte, Malha Paulista e Malha Sul, que conectam o Centro-Oeste aos portos de Santos e do Arco Norte, eixo estratégico para o escoamento da produção agrícola brasileira.

Além da dupla Compass e Rumo, a Moove é outra empresa citada como fonte de liquidez. No entanto, uma tentativa frustrada de IPO em Nova York em 2024, esfriou o interesse do mercado sobre a empresa de lubrificantes – uma tese de mercado menos atraente que ferrovias e distribuição de gás natural.

Desatando nós

Os recursos que a Cosan pretende levantar com a venda de ativos não servem apenas para reduzir a dívida consolidada da holding. Eles ajudam, sobretudo, a resolver a estrutura montada para financiar a aposta mal sucedida na Vale.

Parte relevante dos financiamentos obtidos pelo grupo, cerca de R$ 13 bilhões, ficou concentrada na Cosan Dez e na Cosan Nove – veículos que deram em garantia participações na Compass e na Raízen para bancos como Bradesco BBI e Itaú

No caso da Compass, os dividendos ainda ajudaram a amortizar parte da exposição e a Cosan renegociou o acordo com o Bradesco, cedendo uma fatia da empresa de gás natural e colocando o BTG na composição da dívida. 

Já na Raízen, o cenário se deteriorou. Com a empresa altamente alavancada e sem distribuir dividendos, a estrutura montada na Cosan Nove naufragou e tornou-se um ponto de tensão entre o grupo de Rubens Ometto e o Itaú.

Segundo fontes próximas à Cosan, essa engrenagem financeira só poderá ser desmontada após Cosan e Shell definirem uma solução estrutural para o endividamento da Raízen.

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