Como as mudanças climáticas podem prejudicar o fornecimento de água e saneamento básico
Entre os 17 objetivos estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) para serem alcançados até 2030, o de número 6 visa “assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos e todas”. Faltam cinco anos para o prazo, e, se o desafio era grande, pode se tornar ainda maior com as mudanças climáticas.
De acordo com um relatório de agosto de 2025 elaborado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), duas agências da ONU, 2,1 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável. Além disso, 3,4 bilhões de pessoas não têm saneamento básico, incluindo 354 milhões que defecam a céu aberto por não ter acesso a banheiros.
“O fornecimento de água e saneamento é crucial para nossas economias. Não é possível ter uma população saudável sem água e saneamento. Não é possível ser uma sociedade moderna sem esses serviços básicos”, resume Muyatwa Sitali, CEO interino da Sanitation and Water for All (Saneamento e Água para Todos, ou SWA, na sigla em inglês), uma parceria mantida pela Unicef para o tema.
A SWA visa unificar o debate sobre os serviços para melhorar o acesso, em conversas com diversas agências da ONU e outras instituições internacionais, governos, setor privado, organizações não governamentais (ONGs) e comunidades, para que haja uma priorização política do assunto. Natural da Zâmbia, Sitali está interinamente no cargo desde a morte de sua antecessora, a portuguesa Catarina de Albuquerque, em outubro de 2025.
Aumentar o fornecimento de água e saneamento já é um grande desafio, mas pode se tornar ainda mais complicado com as mudanças climáticas; na foto, trecho do rio Tietê na zona leste de São Paulo. Foto: Daniel Teixeira/Estadão
A maior parte dos projetos debatidos está em países de África, Ásia e América Latina, embora alguns da Europa também participem da organização. No Brasil, a SWA atua conversando com governos e instituições locais, dentre eles o Instituto Água e Saneamento (IAS), fundado por mulheres para monitorar avanços e retrocessos no assunto e trazer dados para a discussão de políticas públicas.
“O papel muito forte da sociedade civil é o monitoramento, que fazemos de forma constante. É com participação da sociedade civil que se consegue ganhar efetividade, tanto na tomada de decisão quanto na implementação”, considera Paula Pollini, coordenadora de Articulação e Incidência do IAS.
O relatório da OMS e Unicef aponta que entre 2000 e 2024, a população global aumentou de 6,2 bilhões para 8,2 bilhões, e, nesse mesmo período, 2,2 bilhões passaram a ter acesso a água potável e 2,8 bilhões ao saneamento. No entanto, as mudanças climáticas podem afetar o fornecimento dos serviços de várias formas.
Como as mudanças climáticas podem afetar esses serviços?
O primeiro e mais óbvio efeito é que eventos climáticos extremos como secas podem se tornar mais comuns. Certos lugares podem passar a ter menos chuvas, se tornando mais difíceis de serem habitados; outros podem passar a ter a chuva mais concentrada em determinados períodos.
Assim, em certos meses, há chuvas demais, podendo causar inundações, e, em outros, abaixo do que seria necessário para repor os reservatórios e garantir o fornecimento de água, mesmo que, ao longo de um ano, a quantidade de chuva permaneça parecida. A situação também pode afetar a agricultura e, no caso do Brasil, o fornecimento de energia.
Chuvas extremas podem ainda danificar infraestruturas fundamentais para o fornecimento de água e saneamento, desde canos e adutoras até barragens e diques. Também pode contaminar reservatórios com água de baixa qualidade, tornando-a imprópria para o consumo. O aumento do nível do mar pode causar o mesmo efeito em locais que tem a rede conectada aos oceanos, com o sal impedindo a utilização da água para fornecimento doméstico.
“É um desafio enorme para os municípios: planejar de forma integrada a gestão da drenagem, de infraestruturas de água e esgoto, de manejo de resíduos sólidos, fazer uma economia mais circular. Um caminho é com investimentos nessa questão de drenagem ligadas a soluções baseadas na natureza, para incentivar áreas verdes e a permeabilidade do solo, mas também na parte de água e esgoto, olhar para como essas infraestruturas vão ser resilientes frente aos eventos extremos”, sugere Paula Pollini, do IAS.
“Também é preciso olhar para quem não tem ainda essa rede de uma forma oficial, áreas irregulares, áreas rurais mais afastadas, quais soluções seriam adequadas, porque muitas vezes não é a rede tradicional. São soluções alternativas, comunitárias, individuais, mas que precisam ser olhadas em termos de uma política pública”, ressalta a especialista.
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Além disso, também há a poluição, que pode prejudicar mesmo regiões com farta oferta de água doce. São problemas que se retroalimentam: a falta de saneamento prejudica o fornecimento de água e vice-versa. Sem esquecer de poluição causada pelo descarte incorreto de produtos químicos, como agrotóxicos, resíduos industriais e o mercúrio utilizado em garimpos ilegais, este último fonte da contaminação de rios da Amazônia.
Todas essas ameaças conjuntas devem levar a um aumento nos conflitos por água, sejam entre países ou dentro de um mesmo território. Um exemplo é a disputa entre Egito, Sudão e Etiópia após esta última nação construir a “barragem da renascença etíope” no Rio Nilo, o que pode afetar o fornecimento de água para as populações que ficam depois no fluxo. Outro exemplo é a fronteira entre China e Índia, contestada pelos dois países e que conta com as nascentes de diversos grandes rios asiáticos.
Se guerras pela água podem se tornar cada vez mais frequentes, a própria existência de confrontos armados tende a aumentar a dificuldade das populações em obter fontes confiáveis para água potável e também causar fome, com infraestrutura atingida e crises de refugiados. Em um mundo em que os orçamentos militares estão sendo revisados para cima em diversos países, é mais uma razão para preocupação no tema de água e saneamento.
“O que um conflito faz é limitar as possibilidades de fornecimento”, resume Sitali, da SWA, lembrando que atacar o fornecimento de água e saneamento, como infraestruturas fundamentais, é um crime de guerra. “Podemos discordar em muitas coisas, mas podemos concordar no fato de que a água e o saneamento são fundamentais para todos como um direito humano”, diz.
Com tudo isso, Sitali demonstra pessimismo sobre a possibilidade de alcançar o objetivo da ONU até 2030, embora tente manter a esperança. “No momento, estamos fora do rumo (para alcançar a meta). O progresso precisaria aumentar seis vezes. E, para alguns países, há até estatísticas que indicam que as metas desses países serão alcançadas em 30, 40 anos. No entanto, temos cinco anos pela frente e, em cinco anos, muita coisa pode acontecer. Com os recursos certos e o acompanhamento adequado, podem ocorrer grandes avanços, mas isso depende da priorização política e institucional”, afirma.
Fornecimento de água para a produção de alimentos também deve ser afetado, com perda de produtividade e quebra de safras Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Quem sofre mais?
Atualmente, o acesso à água é mais difícil para pessoas que vivem em países pobres, além de comunidades rurais, crianças e minorias étnicas. Também há desigualdade de gênero, já que em diversos locais as mulheres são as principais responsáveis por obter a água em poços e garantir que ela esteja na qualidade necessária para ser consumida.
Secas se tornarão mais frequentes e prolongadas, o que afetará principalmente as mulheres em comunidades rurais Foto: Nilton Fukuda/Estadão
Com as mudanças climáticas e secas mais frequentes e prolongadas, os deslocamentos para obter água se tornam maiores, o que expõe as mulheres a maiores riscos como assaltos, estupros e extorsões na busca por uma fonte confiável. O relatório aponta que, em 70 países, embora a maioria das mulheres tenha materiais menstruais e um local privado para se trocar, muitas não têm absorventes suficientes.
“Quem sofre muito mais com isso é a mulher, que é quem cuida dos doentes, que é quem está responsável, às vezes, para garantir o fornecimento de água quando ela é inacessível. O impacto disso, em termos de segurança, é muito mais da mulher, que não tem um ambiente seguro, tanto para a sua saúde menstrual, quanto para as suas necessidades mais básicas, o que cria ainda uma vulnerabilidade extra”, cita Pollini, do IAS.
Muitas vezes, apesar de lidarem com a questão no dia a dia, as mulheres são deixadas de fora dos debates sobre como resolver os problemas, fazendo com que as perspectivas de soluções sejam incompletas por não levarem em conta todos os pontos de vista.


