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Dias agitados para autistas – Estadão

Dias agitados para autistas – Estadão

Acompanhe todos os episódios da coluna Vencer Limites no Jornal Eldorado

O ano de 2026 começa conturbado para autistas e suas famílias. Nas últimas semanas, informações sobre a possível existência de vários tipos de autismo, a emissão de laudos falsificados e o uso do diagnóstico para ‘furar fila’ em concursos geram desinformação a respeito da neurodiversidade.

Aqui no Brasil veio a público no final do ano passado, a partir de uma reportagem do jornal The Washington Post traduzida pelo Estadão, um artigo publicado em 9/7/2025 na revista Nature mostrando evidências de quatro tipos de autismo, com traços genéticos e comportamentos específicos para cada tipo. O artigo é assinado por nove cientistas da Universidade de Princeton (EUA) e do Instituto Flatiron (também dos EUA), especializado em pesquisa científica por meio de métodos computacionais, incluindo análise de dados, teoria, modelagem e simulação

Isso modifica substancialmente o entendimento a respeito do autismo e gera muitas perguntas sobre critérios de avaliação e diagnósticos. “Há muitos autismos”, diz a pesquisadora Natalie Sauerwald, um das autoras do artigo.

“Desvendar a complexidade fenotípica e genética do autismo é extremamente desafiador, porém crucial para a compreensão da biologia, hereditariedade, trajetória e manifestações clínicas das diversas formas da condição. Utilizando uma abordagem generativa de modelagem de mistura, aproveitamos dados fenotípicos abrangentes de uma grande coorte* com genética correspondente para identificar classes robustas e clinicamente relevantes de autismo, bem como seus padrões de características centrais, associadas e concomitantes. Validamos e replicamos esses dados em uma coorte independente. Demonstramos que os desfechos fenotípicos e clínicos correspondem a programas genéticos e moleculares de variação comum, de novo e herdada, e caracterizamos ainda vias distintas afetadas pelos conjuntos de mutações em cada classe. Notavelmente, descobrimos que as diferenças específicas de cada classe no momento do desenvolvimento dos genes afetados se alinham com as diferenças nos desfechos clínicos. Essas análises demonstram a complexidade fenotípica de crianças com autismo, identificam programas genéticos subjacentes à sua heterogeneidade e sugerem padrões específicos de desregulação biológica e hipóteses mecanísticas”.

Também em dezembro do ano passado, a prefeitura de Recife cancelou a nomeação do filho de uma procuradora do Tribunal de Contas de Pernambuco para o cargo de procurador do município, com salário de R$ 30 mil, após o candidato, que havia ficado em 63° lugar no concurso regular, ter apresentado, três anos depois, um laudo médico com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista e pedido para ser incluído na lista de pessoas com deficiência, ocupando a única vaga reservada, conquistada por um candidato com deficiência física que aguardava nomeação.

Além de ser filho da procuradora de contas do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE), o candidato que apresentou o laudo é filho do segundo juiz titular da Vara Regional de Crimes Contra a Administração Pública, Ordem Tributária, Lavagem de Dinheiro e de Delitos de Organizações Criminosas do Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco (TJPE) na capital.

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Ainda em dezembro, na Baixada Santista, uma clínica especializada no tratamento e crianças e adolescentes autistas (Instituto de Neurodesenvolvimento Infantil – ALMAI, que tem oito unidades em seis cidades da região) foi alvo de uma operação da Polícia Civil, em Santos e Praia Grande, a partir de uma denúncia feita por uma operadora de saúde.

A ação liderada pela Delegacia de Mongaguá apura denúncias sobre autorizações de até 500 sessões mensais por paciente, falsificação de diplomas e certificados de especialização usados para credenciamento irregular de profissionais, pagamento de incentivos financeiros a médicos para emissão de diagnósticos em massa de Transtorno do Espectro Autista e aumento artificial da carga horária de terapias, pagamento das mensalidades de planos de saúde de beneficiários para mantê-los vinculados à clínica, utilização de estagiários sem supervisão, cobrança por terapias que não teriam sido efetivamente realizadas, falsificação de assinaturas em guias de atendimento e obtenção irregular de logins e senhas dos aplicativos dos beneficiários, manipulação de sistemas de validação biométrica, com uso de fotografias dos pacientes para faturamento de sessões sem a presença real dos atendidos.

Os proprietários da clínica negam as acusações uma mensagem foi compartilhada nas redes sociais.

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