Elis Regina em “Falso Brilhante”: o show em que a cantora virou atriz no palco e emocionou multidões
Notícia da estreia de Elis Regina com o show Falso Brilhante no Jornal da Tarde de 17 de dezembro de 1975. Foto: Acervo Estadão
Uma reinvenção artística como nunca vista na música brasileira. Já consagrada há uma década como a maior cantora do Brasil por sua voz e interpretações únicas, Elis Regina estrearia no final de 1975 um espetáculo que entraria para a história pela ousadia, impacto cênico, qualidade musical e um grande sucesso de público.
Até o começo de 1977 o show “Falso Brilhante” seria apresentado dezenas de vezes no Teatro Bandeirantes sempre lotado, com um público de cerca de 280 mil pessoas na longa temporada musical.
O Jornal da Tarde noticiou a estreia numa página da seção “Divirta-se” e dez dias depois publicou uma crítica de Vladimir Soares elogiando o espetáculo: “Elis, vida e canto: a perfeição”. Leia abaixo a íntegra dos textos e veja as páginas originais da época.
Jornal da Tarde – 17 de dezembro de 1975
Elis Regina está de volta. Como estreante
Elis ia parar de cantar, mas preferiu voltar como uma estreante
Com um vestido cor de rosa e saia rodada, ela se apresenta pela primeira vez no Clube do Guri, em Porto Alegre. Vestida de branco com estrelas prateadas ela canta hoje “Mestre Sala dos Mares”, como uma nova cantora. Entre as duas fases, Elis Regina vai contar sua vida passando pelo Rio, pelo Fino da Bossa, pelas angústias e pelos descobrimentos. E, além de tudo isso, Elis vai cantar muito no show “Falso Brilhante”, que estréia hoje no Teatro Bandeirantes.
Desde que descobriu que fazer apenas um show ou um recital não tinha mais sentido, Elis Regina passou por vários processos antes que o “Falso Brilhante” estivesse elaborado. Fez expressão corporal, recebeu aulas de interpretação e até passou por um processo de análise de grupo com o psiquiatra Roberto Freire. Foram três meses de ensaios, discussões, tentativas que começavam no fim da tarde, mas nunca tinham hora para terminar.
— No começo deste ano percebi que tinha chegado a uma fase onde a técnica e a perfeição tentavam esconder a angústia e o relacionamento superficial que existia entre eu e os músicos que me acompanhavam. Percebi também que precisava fazer alguma coisa que dissesse algo ou então me retirar. Acabei encontrando as pessoas certas e partindo para uma tentativa.
Em o “Falso Brilhante” tanto Elis como os músicos César Mariano (tecladista), Nenê (bateria), Natan (guitarra), Crispin (guitarra e sintetizador) e Wilson (contrabaixo) participam do espetáculo cantando, dançando, representando, sob a direção de Miriam Muniz.
Na primeira parte Elis canta tudo o que já mostrou ao público em seus onze anos de carreira, desde o samba canção até o bolero. Na segunda mostra músicas novas de João Bosco, Aldir Blanc, Belchior e Thomaz Roth.
O espetáculo deve ficar em cartaz durante dois meses, de quarta-feira a domingo às 21 horas. Os ingressos, para todos os dias serão de Cr$ 40,00 e Cr$ 20,00 (estudantes), no Teatro Bandeirantes (Av. Brigadeiro Luís Antônio, 1401).
Miriam Muniz está cansada. Acaba de transformar uma cantora em atriz.
Sentada numa poltrona do Teatro Bandeirantes, a atriz Miriam Muniz não consegue disfarçar as olheiras e o rosto cansado. Ela já nem se lembra mais quantas vezes ouviu as músicas, pediu para repetir cada passagem, cada momento do espetáculo. Em teatro ela já fez de tudo, mas com “Falso Brilhante” está marcando duas estréias em sua carreira. Pela primeira vez dirige profissionalmente e também, pela primeira vez, um espetáculo musical.
Não deixava de ser um desafio transformar um grupo de músicos acostumados ao limitado espaço de uma bateria ou piano em atores ou apenas pessoas dispostas a uma nova maneira de enfrentar um palco. Mas, um bom desafio nunca foi problema. Principalmente para Miriam Muniz:
— Se eles apresentavam alguma resistência, estavam um pouco … enferrujados, eram também pessoas sensíveis e inteligentes que tinham uma emoção a coordenar. E este foi o meu trabalho, apenas fazer com que Elis e os músicos colocassem para fora tudo o que podiam fazer.
O começo deste trabalho, que começou há três meses, aconteceu no Centro de Estudos Macunaíma. E foi, basicamente, um trabalho de grupo que hoje, apesar de cansada, mas sem nunca perder o bom humor, Miriam faz questão de lembrar:
— Sem o pessoal do Mucunaíma, sem a cenografia da Naum Alvez de Souza, a assistência de Marcelo Peixoto, as aulas de expressão corporal de Viola, os filmes de José Rubens Siqueira, os figurinos de Lou Martin, o trabalho de cenotécnica de Arguimedes Ribeiro, o grupo de teatro “Pod Miniga”, eu não poderia terminar o espetáculo sozinha.
Como diretora de teatro, Miriam Muniz já trabalhou, principalmente, com grupos amadores do IADE, Centro Cultural Brasil-Japão, São Caetano, no Sesc. Durante 16 anos ela esteve nos palcos. É formada pela Escola de Arte Dramática, participou do elenco do Teatro de Arena. Atualmente já não trabalha mais corno atriz, dedicando-se a formar atores no Centro de Estudos Macunaíma.
Em “Falso Brilhante”, o trabalho de Miriam Muniz foi aproveitar as qualidades de Elis e seu grupo, usando bastante seus conhecimentos de teatro:
— Na primeira parte do espetáculo, o teatro é o protagonista. E a descoberta, a chegada, a carreira, a glória e o desgosto de uma artista. Na segunda, o teatro funciona apenas como pano de fundo e a música de Elis vem para a frente. E a consciência, a descoberta da afetividade e do quixotismo.
Elis Regina em páginas do Jornal da Tarde de dezembro de 1975. Foto: Acervo Estadão
Jornal da Tarde – 27 de dezembro de 1975
Elis, vida e canto: a perfeição
Elis Regina em Falso Brilhante. O show que é mais do que a simples soma dos talentos que o realizaram
Wladimir Soares
O melhor e mais importante show do ano chama-se “Falso Brilhante”, está sendo apresentado no Teatro Bandeirantes e surpreende por ser um trabalho de equipe com resultado sinérgico, muito maior que a simples soma dos talentos que o realizaram. No centro está uma Elis Regina aperfeiçoando. a perfeição, cantando com grande categoria, além de ter sido transformada em atriz de expressões irrepreensíveis.
Contribuindo para isso, a direção de Miriam Muniz, que não se contentou em elaborar um roteiro que fôsse apenas o retrospecto da carreira de uma cantora mas criou todo um clima de insinuações que extrapola a situação para um universo mais genérico, mostrando o processo de formação de um artista e não somente relativo a uma carreira. E os belíssimos e eficientes cenários de Naum Alves de Souza ilustram o show, que deve ser considerado o trabalho mais profissional já apresentado no setor.
“Falso Brilhante” é um espetáculo dividido em duas partes, uma com linguagem teatral e, a outra, o recital de uma cantora sempre em busca de renovação. O começo é circense, alegre, plasticamente valorizando o “camp” e não temendo o emprego da estética kitsch.
Na primeira parte, que Elis chama de “Descoberta/Carreira/Glória”, o roteiro não -precisa de texto — apenas de música — para fazer um levantamento da vida da cantora, desde os primeiros instantes em que começou a cantar, até ser envolvida pela roda viva e esterilizante do sucesso, no caso, os festivais da Record.
A cada situação corresponde uma crítica. Os primeiros momentos, com Elis vestida como uma Shirley Temple infantil, são sempre vistos com sarcasmo, com uma ironia que critica mas não destrói. O inicio da carreira, com a saida de Porto Alegre rumo à capital (a passagem de tempo é feita pela belissima “No Dia em que Eu Vim Me Embora”, de Caetano, com uma incrível interpretação de Elis) é visto com uma alegria contagiante e com uma elegia ao Kitsch, çom cenários subindo e descendo, numa féerie de Broadway, ao som de músicas como “O Guarani”, “Singing in the Rain”, “Hino ao Amor” e “Aquarela do Brasil”.
Com o começo da glória, a alegria vai sendo mais artificial, Elis torna-se amarga, o cenário chega a ser surrealistas. Duas simbólicas mãos caem no palco, envolvem a cantora e começa a loucura. E termina a primeira parte em clima de êxtase.
A trajetória está completa mas não terminada. Mesmo sem mãos, o canto continua. Mesmo oprimido, o artista não se cala. A mensagem está dada e não foi gratuita ou pretensiosa porque é uma verdade conhecida pela própria intérprete num ambiente onde coexistem as mais variadas formas de opressão.
Agora vem a segunda parte, do “Desgosto/Gosto-Vontades”, da necessidade de romper estereótipos, de romper elos, de cantar o que julgar necessário. E como canta a Elis Regina que manifesta vontades! Completamente solta, com a voz ferina, insinuante, Elis mescla um repertório onde as preferências recaem em João Bosco/Aldir Blanc mas que não deixa de incluir “Gracias a la Vida”, de Violeta Parra e “Los Hermanos”, de Atahualpa Yupanqui.
Nessa profissão de fé, Elis também inclui a coisa mais importante de sua vida, Cesar Camargo Mariano. Para seu homem, Elis canta “O que Tinha de Ser” e “Tatuagem”, e não apenas “como uma prova de amor”, mas de entrega total e absoluta.
Cesar Camargo Mariano foi o homem que entrou na vida de Elis logo após o colapso mencionado no final da primeira parte. Como homem e músico, ele é responsável por essa necessidade de evolução/transformação de Elis Regina. E César está no palco não apenas como um tecladista e arranjador, más participando criativamente de todo o espetáculo, se expondo corajosamente, como Elis Regina.
Espetáculo belíssimo, “Falso Brilhante” é repleto de detalhes visuais, de troca de roupas, de mudanças de cenários, tudo feito à vista do público.
Para solucionar cênicamente o problema, a diretora Miriam Muniz traz para o palco uma ajudante/camareira com muita importância nos detalhes. Interpretada por Ligia de Paula, essa camareira não diz uma palavra e tem uma presença muito engraçada, nos seus gestos, poses e roupas, o mesmo acontecendo com os músicos, também transformados em atores.
Com tantos componentes em cena, seria quase inevitável que um se sobressaísse. A simbiose, entretanto é perfeita: um show de multimedia (há dois) ótimos filmes de José Rubens Siqueira) que traz uma Elis Regina preocupada com sua carreira e interessada em mostrar qualidacle e emoção para a platéia.
Naum, o que desenha cenários. E monstros de coxas grossas.
Ex-aluno de letras, ex-aluno de Darei, Grassman e Gruber, ex-mestre de desenho, Naum Alves de Souza descobriu afinal que é cenarista, figurinista, e criador de monstros irresistíveis. O resultado está em Falso Brilhante.
Todas as noites, ele está no teatro Bandeirantes, numa das últimas fileiras, entusiasmado com o Falso Brilhante que ajudou a lapidar. Quando as luzes se acendem, os elogios começam a se aproximar, com os amigos e conhecidos.
Os vinte e quatro bonecos que ocupam o enorme espaço do proscênio; o monstro, que participa do momento de maior empatia do espetáculo; os cenários e figurinos são obra de Naum Alves de Souza, ex-aluno de Darel, Grassman e Gruber e que bem poderia ser até hoje, professor de artes plásticas.
Mas Naum preferiu aderir ao show-business e, na temporada atual, além de Falso Brilhante, tem trabalhos executados para dois outros espetáculos em cartaz, Ai de ti, Mata Hari e O Último Bolero em Sorocaba.
De Pirajuí e de uma família burguesa e calvinista, Naum veio para São Paulo, aos 19 anos, para estudar letras. Fez o cursinho mas nem chegou a prestar exame porque, matriculado no curso de gravura da Fundação Armando Alvares Penteado, decidiu que desenhar e pintar seriam as ocupações de sua vida. Transformado em professor, lecionou seis anos, para crianças e adolescentes.
Um mês de dezembro qualquer, em que era preciso presentear amigos e não havia muito dinheiro, fez bonecos de retalhos, aproveitando sobras de panos dos trabalhos escolares e o sucesso foi tão unânime que nunca mais parou de fazê-los.
Em 1970 largou a FAAP e passou a trabalhar em, casa, onde montou se atelier e passou a receber alunos para fazer teatro amador, nos fundos da casa, num palco de dois metros por três, com uma platéia para quinze pessoas: ” — Depois da peça, nós corríamos o pires…”
Um teatrinho amador, clandestino e underground que começou a fazer da rua Mato Grosso, um endereço célebre, mais tarde, transferiu-se para unia garagem um pouco maior, na rua Oscar Freire. E foi então que a tevê Globo ouviu falar do moço que fazia bonecos e contratou-o, com exclusividade, para executar as personagens de Vila Sésamo.
Para esse trabalho, que não deveria ser mais que uma reprodução dos bonecos criados pela televisão americana, nos Estados Unidos, Naum trouxe suas próprias invenções, entre elas um boneco muito brasileiro, o Gugu.
Naum ficou oito meses na Globo. A possibilidade de vir a criar bonecos para uma série que contaria o Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato, ainda o segurava um pouco na televisão, que detesta. Mas a série não saiu e Miriam Muniz convidou-o para participar do espetáculo de Elis. Naum não pensou duas vezes.
Falso Brilhante foram quatro meses de trabalho. Dois só para a execução dos bonecos, feitos por seis pessoas, no atelier. Para ajudar nos figurinos, Naum pediu os conselhos de experiência do figurinista Lou Martin. Os cenários são de Naum, que todas as noites vai ao teatro saborear o resultado, que todos estão achando “brilhante, fantástico, uma das melhores coisas do espetáculo…”
E que, no dizer de Naum, “marcaram uma etapa na minha vida, porque, agora, vou partir para outro trabalho; minha idéia é reabrir um curso, talvez em casa mesmo, e recomeçar a trabalhar com teatro, não só com o cenário e os figurinos, mas com representação de atores”.
O que não quer dizer que, vez. por outra, seu lápis não se arrisque a desenhar bonecas de coxas grossas que são, um pouco, a marca registrada de um risco barroco e quase sempre, recoberto de purpurina.
Jornal da Tarde – 17 de dezembro de 1975
Elis Regina em páginas do Jornal da Tarde de dezembro de 1975. Foto: Acervo Estadão
Jornal da Tarde – 27 de dezembro de 1975
Elis Regina em páginas do Jornal da Tarde de dezembro de 1975. Foto: Acervo Estadão
JORNAL DA TARDE
Por 46 anos [de 4 de janeiro de 1966 a 31 de outubro de 2012] o Jornal da Tarde deixou sua marca na imprensa brasileira.
Neste blog são mostradas algumas das capas e páginas marcantes dessa publicação do Grupo Estado que protagonizou uma história de inovações gráficas e de linguagem no jornalismo. Um exemplo é a histórica capa do menino chorando após a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982, na Espanha.


