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entenda o que muda para o investidor

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Pergunte para qualquer investidor. Você sabe qual o valor real de 1 ação da companhia aérea Azul? Provavelmente a maioria não saberá dizer. Quem consultar o Google ou o ChatGPT vai encontrar algo como R$ 220, referente ao lote de papéis ordinários (ON) atualmente negociado na B3 com o ticker AZUL53.

O valor na tela engana. O preço unitário da ação é 1 milhão de vezes menor. Isso porque o AZUL53 representa um lote de 1 milhão de ações cada.

O verdadeiro valor da unidade é R$ 0,00022. Sim, isso mesmo, frações de centavo.

É até difícil de imaginar, mas a quantidade de ações emitidas pela Azul alcançou mais de 54 trilhões de ONs. Isso no intervalo de alguns meses.

Esse número astronômico foi o resultado do lançamento de dezenas de trilhões de novas ações depois de várias capitalizações e da conversão de dívidas em participações realizados nos últimos nove meses.

Essas operações foram feitas no âmbito da recuperação judicial realizada nos EUA (explicamos o processo mais para a frente).

Agora a companhia aérea resolveu transformar essa numeralha em algo mais tangível. Para isso, a empresa propôs na quarta-feira (4) fazer um grupamento de ações.

O grupamento é uma forma de tornar os valores mais fáceis de entender e de negociar. Guarda muitas semelhanças com os cortes de zeros no dinheiro adotados nos anos de hiperinflação.

A proposta da Azul prevê agrupar 150 mil ações em 1, ou seja, a nova unidade passará a representar o valor somado de 150 mil papéis atuais. Nas cotações de hoje, essa ação grupada equivaleria a R$ 33.

De qualquer modo, o acionista, já escaldado com a diluição ocorrida nos processos de capitalização, pode ficar tranquilo desta vez: não haverá nenhum prejuízo financeiro – ou ganho direto – com o grupamento.

O processo não vai alterar o capital social da companhia, de R$ 21,8 bilhões. Vai “apenas” transformar 54 trilhões de ações em 365 milhões.

É claro que o valor que cada ação vai ter, se a operação for aprovada, vai depender do fechamento da cotação em 19 de abril, que é a véspera do dia em que os lotes de ações já agrupadas passarão ser negociados.

O plano considera ainda que a negociação seria realizada em lotes de 100 ações a partir do dia 20 de abril. Nesse caso, cada lote teria um valor de R$ 3,3 mil nas cotações atuais.

A companhia vai ainda recuperar o antigo ticker AZUL3 para as futuras negociações.

Os acionistas com uma quantidade de ações ordinárias que não seja um múltiplo de 150 mil poderão ajustar suas posições por meio da negociação dos lotes atuais na própria B3. O prazo para esse ajuste acaba em 17 de abril de 2026.

Na prática, significa que, após o grupamento, a equivalência vai ser “arredondada” no caso de quem carrega uma quantidade fora do múltiplo de 150 mil. Por exemplo, o acionista que tiver 151 mil ações ao fim do processo vai passar a contar com 1 ON, e não 1,006 unidade.

A assembleia para votar a proposta ficou marcada para 25 de março.

O que aconteceu antes do grupamento

Um benefício indireto do grupamento vem justamente da simplificação. Fica bem mais fácil analisar o “valuation”, ou seja, a estimativa de valor justo do negócio pelo mercado. Além disso, haverá uma referência mais estável para as cotações após tantas mudanças recentes nos lotes negociados.

Para se ter uma ideia da confusão que envolveu os papéis da Azul nos últimos meses, é preciso fazer uma recapitulação. Em meio à reestruturação do grupo, em dezembro de 2025, a Azul criou um lote de negociação que representava 10 mil ações preferenciais (PN), o AZUL54.

Logo em seguida, porém, em janeiro deste ano, aprovou a conversão das PNs em ONs na proporção de 75 para 1.

Após a última capitalização de R$ 5 bilhões, em fevereiro, quando emitiu 45 trilhões de novas ações ordinárias, a empresa criou outro lote, de 1 milhão de papéis ONs, o AZUL53. Tudo isso embalado por diluições de participação dos acionistas minoritários que superaram 90%.

A companhia saiu da recuperação judicial, realizada nos EUA sob as regras do Chapter 11, nome da legislação americana sobre o tema, em 20 de fevereiro. O processo durou cerca de nove meses.

A Azul saiu desse processo judicial com uma redução de US$ 2,5 bilhões em dívidas e obrigações por arrendamentos de aeronaves. E também com novos sócios, como a American Airlines e a United Airlines, que aportaram, cada uma, US$ 100 milhões na aérea brasileira. E muitos minoritários.

No fim das contas, após os processos de capitalização e conversão de dívidas em ações, os principais acionistas passaram a deter cerca de 43,5% da companhia. Nesse grupo estão, além das duas companhias aéreas americanas, fundos como o Readystate, o VR Global e o Blackbarn. Os 56% restantes permanecem nas mãos de minoritários.

Agências revisam notas da Azul

Uma boa notícia para os acionistas é que, com o encerramento do processo equivalente à recuperação judicial nos EUA, as principais agências de rating passaram a elevar as notas de crédito da aérea brasileira – o que tende a reduzir o seu custo de crédito.

A Fitch foi a mais recente e elevou os ratings finais para “B-” e “BBB-(bra)” na quarta-feira (4).

Antes da Fitch, S&P e Moody’s já haviam revisado os ratings para, respectivamente, “B-“e “B2”. Todas as agências mantêm as perspectivas como estáveis.

As agências de classificação de crédito passaram a ver, após o fim da recuperação judicial, uma companhia com perspectivas mais favoráveis de crescimento.

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