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Faca de dois gumes: como a pressão de Trump sobre o Fed atinge os investidores brasileiros

Faca de dois gumes: como a pressão de Trump sobre o Fed atinge os investidores brasileiros

O Fed está de novo na mira de Trump – e isso tem tudo a ver com o Brasil. Com o republicano fechando o cerco contra Jerome Powell, presidente do BC americano, o clima esquenta. Mais investidores com dinheiro nos EUA tendem a buscar diversificação em outros mercados, incluindo as bolsa de países emergentes, como o nosso.

Ao mesmo tempo, também há uma pressão para a busca de investimentos mais tradicionais – leia-se tirar dinheiro da bolsa americana para os títulos americanos. E isso pressiona os juros daqui para cima.

Primeiramente, o que aconteceu: o Departamento de Justiça dos EUA ameaçou abrir uma investigação criminal contra Powell a respeito de um depoimento prestado em junho por ele ao Senado sobre a reforma da sede do Fed em Washington. Às claras, o objetivo é exigir respostas sobre os custos dessa reforma. Por trás do evento, porém, o que temos é um novo método de pressão sobre Powell e o Fed – Trump tem zero simpatia pela condução da política monetária americana. Deseja mais cortes de juros.

De um lado, isso tem força para empurrar mais dinheiro para ativos emergentes, incluindo o Brasil. São justamente as dúvidas envolvendo o governo de Trump que motivaram até aqui a procura por outras opções para diversificar o risco. O dinheiro de fora foi fundamental para que a bolsa subisse 34% no ano passado. E neste início de 2026, considerando dados até 8 de janeiro, os estrangeiros já aportaram R$ 750 milhões na B3.

Esse é um movimento, aliás, que vem acontecendo desde o ano passado, quando a guerra tarifária de Trump e a alta forte das ações americanas e da bolsa motivaram a procura por outras alternativas no mundo. Não à toa o investidor estrangeiro ingressou com R$ 27 bilhões na bolsa brasileira no ano passado – e ganhou 50% de retorno, considerando na conta a desvalorização do dólar frente ao real no ano.

A faca de dois gumes acontece por causa de um outro lado nesse ambiente todo: o efeito sobre os juros futuros e o ouro.

Na busca por proteção, é comum que as taxas dos contratos de juros futuros nos EUA subam. Quando há incertezas, os investidores passam a exigir um retorno maior para financiar o governo americano, seja por dúvidas sobre política fiscal, inflação ou independência do banco central. E episódios de estresse também costumam gerar venda de títulos para levantar liquidez, o que joga os preços para baixo. Nesse caso, vale lembrar: na renda fixa, se o preço dos títulos cai, as taxas sobem.

É exatamente o preço da cautela na reprecificação do risco americano. E, quando isso acontece lá fora, é muito comum que as taxas dos contratos futuros aqui no Brasil acompanhem o movimento e também subam.

Na mesma linha fica a procura pelo ouro, que é um tradicional meio de proteção. A cotação do metal ultrapassou os US$ 4,6 mil a onça, em nova máxima histórica.

Nos mercados, os eventos envolvendo o Fed e o presidente Trump geraram um efeito contido em linhas gerais hoje, mas já mostram como o mercado está encarando o problema. Os títulos da dívida americana de dois anos operam com as taxas em leve alta, enquanto as taxas dos títulos de 10 anos avançam mais, incorporando os riscos para o curto e para o longo prazo.

Os três principais índices americanos operam em ligeira baixa hoje, enquanto dólar tem queda comedida frente a outras moedas globais. Por aqui, o Ibovespa oscila perto da estabilidade.

A queda de braço entre o Fed e Trump não tem hora para acabar. O próprio Powell deixou clara essa preocupação: em vídeo divulgado no domingo (11), afirmou que a investigação contra ele não se refere ao seu depoimento, nem às reformas e nem ao papel do Congresso.

“São pretextos”, disse. “A ameaça de acusações criminais é uma consequência do fato de o Federal Reserve definir as taxas de juros com base em nossa melhor avaliação do que será melhor para o público em vez de seguir as preferências do presidente.”

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