Filipe Luís pausou o jogo agressivo e robusto do Flamengo – 03/12/2025 – Marcelo Bechler
Confirmando o título brasileiro, independentemente do que aconteça no Intercontinental, Filipe Luís finalizará 2025 como um vencedor e um sobrevivente. Vencedor por acumular conquistas. E sobrevivente por ser o primeiro técnico, desde Vanderlei Luxemburgo, em 2011, a começar e terminar um ano à frente do rubro-negro.
Filipe Luís não é o personagem mais marcante do Flamengo. Arrascaeta, com seus 23 gols e 18 assistências até o início de dezembro, é o grande “resolvedor de jogos” da temporada. Rossi e suas defesas salvadoras na primeira fase da Libertadores, passando pelos pênaltis contra o Estudiantes e a atuação contra o Racing, foi decisivo. Jorginho é a bússola da equipe. Filipe Luís é quem conseguiu transformar um clube sempre convulso em algo equilibrado.
A figura de um treinador convicto, mas também aberto a aprender e mudar de ideia, fez o Flamengo atravessar o ano com andar firme e decidido. Se não encantou todo dia, não jogou mal quase dia nenhum. O fim da temporada premia o controle tão buscado pelos técnicos em um esporte incontrolável.
A média de gols sofridos é inferior a 0,7 por jogo —a mais baixa desde 1977. Um mérito e tanto para um time que não é reativo e domina as partidas a partir do meio-campo e ataque, não da defesa.
O que Filipe Luís fez para dar sua cara a uma equipe vencedora foi tirar o que sobrava de Jorge Jesus da sala e colocar seus próprios móveis. A sensação que dava nos últimos anos é que o Flamengo vencia graças a uma fórmula criada pelo treinador português, de jogo agressivo e robusto. E quem melhor se aproximasse disso, mais prêmio tinha.
O atual comandante pausou o Flamengo. O jogo passou a ser de Jorginho e as jogadas de Arrascaeta. Um dita o ritmo e outro decide no setor mais difícil. Jogadores trabalhadores foram incorporados à equipe, ainda que brilhassem menos aos olhos de quem esperava um time avassalador. Samu Lino ganhou a disputa com Cebolinha, Plata colocou Pedro no banco em algumas rodadas. A experiência e consistência de Alexsandro deram mais ao time do que as subidas de Ayrton Lucas, e Pulgar voltou de lesão para o time titular, deixando o currículo de Saúl no banco de reservas.
O domínio econômico pode dar a sensação de que há menos méritos em vencer no Flamengo —afinal é mais fácil ser campeão em um clube rico do que nos outros que não têm a mesma capacidade de contratar e manter jogadores. No entanto, de Domènec Torrent a Tite, ninguém conseguiu a estabilidade e desempenho alcançados pelo novato.
Filipe não é mister nem professor. Ele dá a sensação de ter sido um bom aluno. Aquele que estuda bastante, mas que, sobretudo, observa. Seu time tem a disciplina, o convencimento e o esforço de tantas e tantas versões do Atletico de Madrid de Diego Simeone. Mas também tem o controle com a bola e o “ditar o ritmo” de equipes que o ex-lateral teve como rival. Em sua gestão de grupo, não “se casou” com ninguém e fez escolhas difíceis para que as individualidades não se sobrepusessem ao coletivo.
Em tempos em que treinadores ainda chamam camisa cor-de-rosa de coisa de veado, ele vai de preto e passa despercebido nos jogos. Seu papel é dar equilíbrio para que Arrascaeta, Jorginho, Rossi e companhia deem o seu melhor.
O dever de um técnico é melhorar os jogadores, e é isso que um Filipe foi capaz de fazer para ganhar tudo… e dar a sensação de que pode fazer de novo no ano que vem.
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