Há 60 anos, Jornal da Tarde chegava com inovação e criatividade
Página de 1986 do Estadão sobre os 20 anos do Jornal da Tarde. Foto: Acervo Estadão
No dia 4 de janeiro de 1966 começava a circular o Jornal da Tarde, publicação do Grupo Estado que por 46 anos, até 31 de outubro de 2012, deixou sua marca no jornalismo com uma história de inovações gráficas e de linguagem. Um dos exemplos é a histórica e premiada capa do menino chorando após a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982, na Espanha.
A estreia do JT, como era também apelidado, aconteceu com a manchete exclusiva “Pelé casa no carnaval” sobre o casamento que até então era um segredo restrito à família do maior jogador do mundo e de sua noiva.
Relembre algumas das capas e páginas icônicas (atualmente amostras delas são republicadas neste blog) e leia mais abaixo um texto do repórter José Maria Mayrink publicado em 1986 quando o Jornal da Tarde completou 20 anos e foi tema de uma exposição no Masp [Museu de Arte de São Paulo. Clique nas imagens para ampliar as páginas.
Jornal da Tarde – 4 de janeiro de 1966
Foto: Estadão
Jornal da Tarde – 21 de fevereiro de 1966
Foto: Estadão
Anúncio da estreia do Jornal da Tarde publicado em 4 de janeiro de 1966.
Foto: Estadão
Jornal da Tarde – 6 de julho de 1982
Foto: Estadão
Estadão – 5 de janeiro de 1986
Entrevista com Ruy Mesquita no Estadão de 5 de janeiro de 1986. Foto: Acervo Estadão
Estadão – 5 de janeiro de 1986
A revolução na arte de informar
Tinha de ser um jornal leve, irreverente, até meio moleque. Foi mais longe, fez uma revolução. Texto de José Maria Mayrink, ex-JT.
A ordem era fazer um vespertino leve e descontraído, e foi por isso que o Jornal da Tarde nasceu assim “meio moleque”, como lembra agora Ruy Mesquita, seu diretor nesses 20 anos, o jornalista que o pai, Júlio de Mesquita Filho, encarregou de levar às rotativas o que até 1965 era apenas uma idéia. E, se era para inovar, nada melhor do que arregimentar gente jovem, os melhores profissionais da praça, escolhidos a dedo por Mino Carta, o primeiro editor-chefe.
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É claro que havia também veteranos, mas não passava de garotos a maioria dos 51 pioneiros que entraram na folha de pagamento de dezembro de 65, uma semana antes do lançamento. Eram 50 homens e uma mulher, idade média de 21 anos, uma equipe convocada em toda parte do Brasil, apesar das más línguas que viam na redação da rua Major Quedinho, 28, uma invasão de mineiros. Exagero, nem tantos eram eles, mas é verdade também que Murilo Falisberto, o secretário de redação e depois sucessor de Mino Carta, tinha os olhos sempre fixos em Minas Gerais.
Mineiros eram Ivan Angelo, Flávio Márcio, Dirceu Soares, Kleber de Almeida, Moisés Rabinovici, Fernando Mitre, Carmo Chagas, Miguel Jorge e Luciano Ornelas, mas havia também talentos de outras bandas, como provam os nomes de Laerte Fernandes, Carlos Brickrmann, Ewaldo Dantas Ferreira, Percival de Souza, Vital Bataglia e Niles Simone, isso sem falar em todo mundo dessa primeira hora e, naturalmente, nos que vieram depois. A única mulher era então Maria Lúcia Fragata, “aquela moça que o Estado me roubou para o Suplemento Feminino”, como até hoje lamenta Ruy Mesquita. Logo depois dela chegava Teresa Montero, que foi a primeira repórter
Era uma equipe jovem e barulhenta. Do outro lado do corredor (na verdade “o túnel do tempo” que dividia duas gerações de jornalismo), o pessoal do velho O Estado de S. Paulo, tão sério e tão respeitado, olhava os recém-chegados com desconfiança. “Como é que esses barbudinhos podem trabalhar em jornal?”, perguntavam repórteres e redatores, experientes profissionais de terno e gravata, escandalizados com o que viam nascer ali tão perto, o vespertino moderno da tradicional família Mesquita.
E era mesmo para escandalizar. A rapaziada do JT virava a madrugada como se estivesse numa festa, jogando bola nos corredores, subindo nas mesas, passando trote nos focas (os novatos que chegavam pedindo emprego), tumultuando tudo o que parecia ordem e merecia respeito. Num desses lances, lembram as testemunhas anônimas, Sandro Vala derrubou da galeria um retrato de Machado de Assis. Mas o estrago ficou por conta da bomba terrorista que muitos meses depois explodiu no prédio.
Nem era só questão de idade. Mais de um jovem repórter que tentou atravessar o túnel, não suportou a barra e, falta de adaptação, voltou correndo para a redação de O Estado. Mas quem parecia tão irresponsável tinha talento e arte. E a prova estava diariamente nas bancas, em cada novo jornal, um vespertino que começou a circular às 15 horas e, vencido pelo trânsito de São Paulo, acabou optando pela manhã.
De vespertino ficou o nome, mas não era isso o mais importante. Não havia a menor preocupação de concorrer com qualquer outro jornal em massa de informação, como lembra agora Ruy Mesquita, pois a diferença seria outra. A inovação, o pioneirismo do Jornal da Tarde, veio com sua apresentação gráfica — uma cara totalmente nova, muito branco e muita fotografia — e sobretudo através das grandes reportagens, seu maior segredo. Casamento de Pelé, tragédia de Caraguatatuba, transplante de coração, incêndio do Joelma entraram na história do jornal e garantiram, desde os primeiros anos, consecutivos prêmios de jornalismo que depois iam virar rotina. Como se vê, assuntos sérios, trabalho de equipe, fruto de pesquisa e garra, nada da brincadeira que se esperava de profissionais tão irreverentes e descontraídos.
Saiu Mino Carta, entrou Murilo Felisberto. Saiu Murilo, entrou a dupla Fernando Mitre/Laerte Fernandes. Saiu Mitre, Rodrigo Mesquita ocupou o seu lugar, mais Ivan Ângelo. E assim se chega aos anos mais recentes, à terceira geração dos Mesquita. Ruy, o fundador do JT, sempre foi seu diretor responsável, mas os filhos vão ocupando espaço: Rodrigo, editor-chefe, Fernão, editorialista, Ruizito, diretor de redação. O tempo vai passando, os editores se revezam em rodízio, mas lá está o Ivan Ângelo, mineiro da primeira hora, em sua mesa, até há pouco secretário de redação. Se Mino Carta criou o jornal, Murilo Felisberto lhe deu cara e Fernando Mitre levou mais longe a revolução, foi o tranquilíssimo Ivan Ângelo quem veio, esses anos todos, mantendo algo de indefinível que se poderia chamar, quem sabe, de espírito da primeira página.
Mas não se fale só da primeira, que revolucionárias são todas as páginas, o jornal inteirinho, como se há de provar agora, na exposição de aniversário que o Masp inaugura depois de amanhã. Histórias em quadrinhos, Jornal do Carro, Divirta-se, Modo de Vida, Caderno de Leitura, Seu Dinheiro e cotações de bolsa — roteiros para todos os gostos e precisões — eis aí as provas da inventividade de uma equipe que tem hoje 130 jornalistas, meia dúzia talvez da primeira equipe, mas assim mesmo tão homogênea, como se jamais tivesse mudado. Mas não se esqueça que os tempos são outros, pois aí está a confirmação na grande foto desta página: o JT abriu espaço para as mulheres, que (mais uma vez o pioneirismo) desde os primeiros anos foram invadindo sua redação.
Jornal jovem, jornal para os jovens. Quando ninguém pensava nisso, o Jornal da Tarde o levou os vestibulares para suas páginas, publicando em novembro de 1969 os testes que os candidatos teriam de enfrentar para a universidade dois meses depois. Publicava, corrigia, dava provas simuladas, acompanhava cada exame. E, um serviço de quebra, ainda promovia testes vocacionais e dava as dicas das melhores profissões. O “Jornal do Estudante”, que depois todo mundo copiou, foi mais uma revolução
“Bons tempos aqueles”, recorda agora Ruy Mesquita, falando da primeira fase, dos dez primeiros anos de vida, quando ainda não havia recessão econômica nem crise do petróleo. Havia dinheiro de sobra para investir em gente e na reportagem, não se mediam as viagens, os repórteres rodavam o Brasil. Antes da chegadas, dos tratores, Fernando Morais e Ricardo Gontijo vararam a selva para apontar os caminhos do que um dia haveria de ser (e não foi) a Transamazônica. Era uma aventura para super-heróis e heroismo foi o que não faltou. Inajar de Souza, que amava os índios e a mata, morreu de câncer na cama de um hospital acreditando que sua doença vinha de alguma desconhecida bactéria de sua última viagem à Amazônia.
A rainha Elisabeth ia visitar o Brasil? Uma equipe do JT não lhe daria sossego, acompanhando todos os seus gestos, minuto a minuto, uma cobertura fantástica que só se repetiria muitos anos depois, quando o papa também decidiu vir. O jornal pensava em tudo: Murilo Felisberto contratou até Aldemir Martins para fazer o desenho dela, um retrato que acabou indo parar em Londres, na coleção real de Buckingham.
Aliás, essa mania que o Jornal da Tarde sempre teve de usar os mais variados traços de artistas, no humor e na política, nas variedades e na economia, sempre foi uma tradição, se é que se pode falar em tradição quando se conta a história de um jovem de 20 anos. Quem não se lem-bra do nariz de Paulo Maluf que foi crescendo na primeira página, edição após edição, à espera das promessas da Paulipetro jamais cumpridas? Se a fotografia freqüentemente substituiu o texto com imenso sucesso, para a admiração agora confessada de Ruy Mesquita, os títulos também costumam roubar o espaço das fotos — e os desenhos, o lugar de qualquer outra coisa.
Basta consultar a coleção — e ‚45 qualquer jornalista ou estudante de jornalismo sabe disso. O JT fez escola e passou a servir de referência pelo Brasil afora, nas universidades e nas redações, mesmo sendo um jornal mais voltado para São Paulo.
Não é um jornal nacional, mas quem quiser estudar a história do jornalismo brasileiro deste século não poderá esquecê-lo. Um jornal às vezes irreverente e brincalhão, sempre Jovem e meio moleque, mas também sério e corajoso, capaz de enfrentar a censura e de denunciar corruptos, como mostram os 20 anos de sua história. E sempre uma obra de arte, como se verá a partir desta semana nas galerias do Masp, homenagem de aniversário.
Capa do Jornal da Tarde de 13 de agosto de 1988 com manchete sobre queimadas. Foto: Acervo Estadão
Capa de 8 de junho de 1970 com torcida assistindo transmissão do jogo do Brasil na Copa do Mundo. Foto: Acervo Estadão
Maluf Pinóquio, série de capas sobre o governador de São Paulo. Foto: Acervo Estadão
Capa do Jornal da Tarde de 9/12/1994 sobre morte de Tom Jobim. Foto: Acervo Estadão
Capa do Jornal da Tarde de 01/3/1985 com reportagem de Randau Marques sobre poluição petroquímica na Serra do Mar. Foto: Acervo Estadão
Capa de 26 de janeiro de 1984 sobre comício das Diretas Já. Foto: Acervo Estadão
Capa de 26 de abril de 1984 sobre a derrotada da proposta das eleições diretas. Foto: Acervo Estadão
Capa do Jornal da Tarde de 16 de novembro de 1985 sobre a vitória de Jânio Quadros como prefeito de São Paulo. Foto: Acervo Estadão
Capa de 31/10/1988 sobre a conquista do Campeonato Mundial de Formula 1 por Ayrton Senna. Foto: Acervo Estadão
Capa da última edição do Jornal da Tarde, de 31 de outubro de 2012. Foto: Acervo Estadão
GALERIA DE CAPAS E PÁGINAS
Páginas do Jornal da Tarde
JORNAL DA TARDE
Por 46 anos [de 4 de janeiro de 1966 a 31 de outubro de 2012] o Jornal da Tarde deixou sua marca na imprensa brasileira.
Neste blog são mostradas algumas das capas e páginas marcantes dessa publicação do Grupo Estado que protagonizou uma história de inovações gráficas e de linguagem no jornalismo. Um exemplo é a histórica capa do menino chorando após a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982, na Espanha.


