‘Hoje você tem tudo; amanhã, só Deus sabe’: moradora volta para casa após nova chuva em Juiz de Fora
Bombeiros buscam sobreviventes em área atingida pelas chuvas em Juiz de Fora
Temporal deixou cenário de destruição, com mortos, desaparecidos e desabrigados na região da Zona da Mata de MG. Crédito: Pedro Kirilos/ Estadão
JUIZ DE FORA – O luto por amigos e familiares vítimas das chuvas em Juiz de Fora, Minas Gerais, foi interrompido por mais uma noite de apreensão e deslizamentos de terra na Zona da Mata mineira. O temporal, que começou por volta das 20h30 da quarta-feira, 25, fez com que novas casas ficassem sob a lama. Há ainda quem não deixou as casas em áreas de risco e convive com o risco de desabamentos.
O bairro Três Moinhos, na zona leste da cidade, foi, mais uma vez, um dos mais afetados pelo temporal. Um novo deslizamento atingiu pelo menos três imóveis. Na manhã desta quinta-feira, 26, Adriana Aparecida Vieira, de 59 anos, voltou à casa onde morava na rua Rosa Sffeir para tentar retirar roupas e objetos pessoais.

Adriana Aparecida Vieira diante de sua casa, em Juiz de Fora Foto: Pedro Kirilos
Uma encosta nos fundos da casa dela começou a ceder, derrubou parte de um muro e ameaça tomar todo o terreno. Dona de um brechó, Adriana conseguiu se abrigar com a mãe de 81 anos na casa de um vizinho. O primo, no entanto, insiste em não deixar o local.
“Nós estávamos deitados na segunda na hora que caiu (a encosta). Morava eu, minha mãe e o primo. Ele está ficando em casa. Fica o dia inteiro ali. A terra está descendo. Já está quase na porta dele”, conta Adriana.

Juiz de Fora decretou calamidade pública após temporal recorde. Foto: Foto Pedro Kirilos/Estadão
No topo da encosta aos fundos da casa de Adriana, dois homens observavam o estrago causado pelas chuvas do alto de uma laje em uma área de difícil acesso. O imóvel corre o risco de desabar. Segundo vizinhos, eles não pretendem, por ora, deixar a casa.
Até o momento, Adriana não recebeu a visita de representantes da Defesa Civil, Bombeiros ou da prefeitura. No momento de dor e incerteza, Adriana minimiza: “Não posso pensar só em mim, né? Eu estou viva, minha mãe está, as minhas criações eu consegui salvar”.

Adriana mora na mesma casa há 50 anos. Do alto da rua, à beira de um muro de contenção onde casas foram demolidas por risco de desabamento a cerca de quatro anos, Adriana relembra o antigo cenário: “Aqui tinha algumas casas que já caíram. Lá embaixo passava um córrego. A gente brincava e tomava banho nele. Hoje foi canalizado e mais casas foram construídas no entorno”.
Como medida preventiva, a Defesa Civil orienta que os moradores de algumas ruas dos bairros Três Moinhos, Vila Ideal, Esplanada e Paineiras deixem suas casas. Ao todo, há a previsão de retirada de cerca de 600 famílias desses locais.
Dezenas de mortos e milhares de desabrigados
Em Juiz de Fora, o número de pessoas mortas chega a 47. A cidade contabiliza ainda 13 pessoas desaparecidas. De acordo com o levantamento atualizado do Corpo de Bombeiros, 3 mil moradores estão desabrigados, ou seja, dependem de abrigos públicos, e outros 400 estão desalojados, tendo precisado deixar suas casas e buscar abrigo temporário com familiares ou amigos.

Evangélicos rezam em praça de Juiz de Fora Foto: Pedro Kirilos
Oração de convencimento
No Parque Burnier, um dos locais com o maior número de vítimas de soterramento, o pastor André Milato, da igreja Universal do Reino de Deus, fez preces para que os moradores deixassem suas casas no fim da tarde de quarta, 25.
“A vida é o mais importante. Meu Deus, faça com que todos entendam que a vida é mais importante que bens materiais. Aqueles que perderam as suas vidas, meu Deus, conforte os familiares”, orou Milato, com moradores, voluntários e bombeiros.



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