Holocausto e Osmose Afetiva – Estadão
Holocausto e Osmose Afetiva
Por Paulo Rosenthal*e Paulo Rosenbaum **
Nem sempre é fácil ir a lugares que consideramos pesados por terem sido cenários de tragédias, massacres e injustiças, mas será que quem sofreu ou teve algum próximo que foi vítima nestes sítios pensa assim? Pensamos em nossa experiência, mas ao nos deslocar um pouco como centro único da realidade entendemos que para quem foi submetido direta ou indiretamente ao absurdo, ao impensável, ao hediondo aquele é, de certa forma, um lugar sagrado. O Holocausto permanece como um dos capítulos mais sombrios e vergonhosos da história. Sombrios pelo extermínio e vergonhoso pela omissão de grande parte da humanidade. A máquina industrial e meticulosamente organizada com que o regime nazista exterminou seis milhões de judeus é um horror que desafia a compreensão e continua a assombrar consciências.
Contudo, é um erro confortável acreditar que esse ódio pertence apenas ao passado. A perseguição aos judeus persiste, de forma recorrente, em diferentes partes do mundo, como se a intolerância jamais tivesse sido verdadeiramente erradicada. Parafraseando o célebre texto de Sigmund Freud, estamos diante de um novo mal-estar na cultura. E na civilização. E, seguindo a linha cronológica deste mal-estar, o pesadelo que foi despertado encontra-se insone. Foi nesse contexto que nós resolvemos visitar o sul de Israel.
Apesar de apenas um de nós ter conseguido, juntos decidimos construir a presente reflexão que muitos podem considerar polêmica: o massacre ocorrido no sul de Israel, em 7 de outubro de 2023, quando terroristas assassinaram brutalmente cerca de 1.200 pessoas, pode, sim, ser comparado simbolicamente ao Holocausto.
Não falamos em números — pois seria uma comparação desproporcional diante da magnitude da Shoah –, mas da intensidade do ódio, da crueldade deliberada e da perversidade empregada contra civis, simplesmente por serem judeus. Não é só preciso que o grande publico compreenda racionalmente, é bem mais do que isso: para penetrar na dor alheia é vital algum gênero de osmose afetiva. Portanto algo que comunique um sentimento para bem além do ensino pedagógico formal, uma mensagem que faça penetrar, que impregne através da comunicação emocional o significado psíquico que os ataques determinaram. E os conflitos subsequentes ao 07/10 contra judeus israelenses, quando, já no dia seguinte ficou patente o reacendimento da fleugma filonazista pelo mundo.
Era evidente que alguns sinais crescentes e alarmantes de antissemitismo estavam todos lá, crescentes e impunes. Em geral gestados por subsídios vultuosos de várias origens, fermentados através de patrocínios dentro dos nichos universitários, e, no vácuo criado para impulsionadores intolerantes e radicais que usam os recursos das grandes tecnologias para propagar mensagens conspiratórias e de convocação à violência.
Trata-se de um processo instrumentalizado pela mistura perversa de populismo, intolerância jihadista e instrumentalização das massas, tudo isso funcionou como um gatilho traumático para as comunidades judaicas. A sensação fantasmática que esteve em estado anestésico tornou-se mais uma vez viva, o processo tornou-se novamente uma ameaça vigente.
Para quem morre por ser judeu, a distinção entre morte industrializada ou artesanal é irrelevante. O que permanece é a vida interrompida, a família despedaçada, a comunidade ferida de forma irreversível. É essa dor compartilhada que nos une. É essa memória que nos obriga a reconhecer que o Holocausto não é apenas um acontecimento encerrado e sepultado nos livros de história, mas uma realidade que continua a ecoar — e a ferir — no presente.
Fica claro que deve haver uma novíssima leitura para a expressão “nunca mais’, pois em várias escalas a perseguição religiosa persiste – claro, disfarçada pela instrumentalização da linguagem — usando o manto do antissionismo para contornar o atavismo do ódio contra judeus.
Fica claro também como o judeu sempre serviu de álibi ideal para construir um protótipo que permite não apenas perseguir pessoas como também cercear os valores humanos que historicamente sempre fizeram parte canônica de sua trajetória.
Como Elie Wiesel, sobrevivente do holocausto escreveu, o combate ao ódio contra judeus exige que outras pessoas se engajem, não apenas por solidariedade ou simpatia pelo povo judeu, mas em função dos valores civilizatórios compartilhados.
Que essa atitude penetre nos corações e mentes, a alternativa pode ser um caminho bem mais penoso.
*Paulo Rosenthal é advogado em São Paulo
** Paulo Rosenbaum é Médico e Escritor (Editor do Blog “Conto de Notícia”)


