Influenciadores precisam deixar de ser foco de desinformação e se profissionalizar
Manifestantes afirmam que não se vacinar é “liberdade de escolha”, argumento comum de influenciadores antivacinas – Foto: reprodução
O mercado de influenciadores pode estar diante de um sopro de seriedade. A ocupação cresce vertiginosamente há anos, graças à falsa ideia de que, para se tornar famoso e rico, basta ligar a câmera do celular e falar, mesmo não tendo qualquer preparo para tal. Agora isso pode mudar.
Vários países, inclusive o Brasil, estão criando leis para disciplinar, em maior ou menor escala, a atividade dos criadores de conteúdo digital. Pelo menos em tese, isso oferece algumas garantias a esses profissionais, assim como diminui práticas condenáveis, incluindo a desinformação (consciente ou não).
Essas regras ficam ainda mais importantes em tempos de inteligência artificial generativa. Graças a ela, pessoas sem qualquer conhecimento sobre determinado assunto conseguem produzir conteúdo que parece verdadeiro, mas que pode estar completamente errado. Como não são capazes de avaliar a produção da IA, passam a bobagem adiante, que pode ganhar grande escala e afetar decisivamente o público.
A OpenAI, criadora do ChatGPT, está atenta a isso. Desde novembro, ele oficialmente não oferece mais “aconselhamento” jurídico, financeiro ou sobre saúde, passando a se comportar menos como um “consultor” e mais como uma “ferramenta educacional”.
Segundo um estudo da organização de saúde americana KFF, 17% dos americanos adultos usam a IA todos os meses para informações sobre saúde (25% se tiverem menos de 30 anos), mas 56% deles não têm certeza se a informação é correta. Por isso, a mudança no ChatGPT visa evitar processos por informações erradas, mas ela impacta diretamente aqueles que usam o serviço para criar seus conteúdos digitais.
Influenciadores têm um papel central em como as pessoas se informam hoje, mas muitos seguidamente demonstram despreparo e até falhas éticas graves. Por isso, as novas regras são muito bem-vindas para profissionalizar essa atividade.
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No Brasil, a lei 15.325/2026, sancionada em 6 de janeiro, reconhece o “profissional de multimídia” como trabalhador multifuncional, apto a atuar em criação, produção, captação, edição, gestão e distribuição de conteúdos digitais em diversas plataformas, incluindo redes sociais, games, sites e animações. Profissionais de outras áreas que exerçam funções assim poderão pedir um aditivo em seu contrato de trabalho.
Apesar de dar reconhecimento jurídico à profissão, especialistas criticam a lei porque ela não exige nenhuma formação profissional, além de não possuir mecanismos de combate à desinformação ou deveres claros das plataformas. Isso significa que casos recentes de médicos passando informações falsas de saúde ou de influenciadores indicando apostas digitais como investimento continuarão inundando as redes.
Por outro lado, na China, desde outubro, criadores de conteúdo que queiram falar de finanças, educação, saúde ou área jurídica precisam comprovar qualificação formal na área. As plataformas digitais são obrigadas a coletar documentos que comprovem isso, verificar sua autenticidade e só então permitir esse tipo de conteúdo. Quem desrespeitar pode ter a conta suspensa, seu conteúdo apagado e receber multas que chegam a 100 mil yuans (cerca de R$ 75 mil).
O governo justifica a lei pelo alto volume de dicas enganosas, especialmente em saúde e investimentos, com o cidadão leigo não conseguindo distinguir entre um especialista e um influenciador. Assim, a influência deve deixar de ser só uma questão de popularidade e passa a se apoiar em capacitação comprovada. Isso é uma boa notícia para profissionais formados nessas áreas, que hoje concorrem com o carisma de influenciadores e até com charlatanismo digital. Por isso, analistas sugerem que esse tipo de lei pode inspirar outros países que enfrentam problemas semelhantes.
Alguma organização desse setor também pode ser encontrada em leis do Reino Unido, França, Itália, Espanha, Austrália, Nova Zelândia, Índia e Hong Kong, a maioria priorizando autorregulação com punições.
Não dá mesmo para continuar “deixando solto” um setor que, só no Brasil, “emprega” 10 milhões de autointitulados influenciadores com, pelo menos, mil seguidores. Segundo o banco Goldman Sachs, esse mercado deve movimentar quase US$ 500 bilhões (cerca de R$ 2,7 trilhões) até 2027, vindo principalmente de companhias com marketing de influência e pela monetização de plataformas de streaming ou de redes sociais.
Despreparo e falta de ética
De fato, grandes empresas vêm recorrendo cada vez mais a influenciadores para suas campanhas. Apesar de isso lhes garantir muita visibilidade, nem sempre o resultado é positivo, pois, ao contrário de veículos de comunicação, cujo mercado é bem regulamentado, os influenciadores se comportam como pessoas físicas sem regras. Por isso, suas ações às vezes questionáveis podem respingar na reputação das marcas.
Alguns casos emblemáticos no Brasil são o de Monark, que, em 2020, relativizou a existência de um partido nazista no país, o de Karol Conká, que apresentou um comportamento agressivo e humilhante na sua participação no Big Brother Brasil 21, ou o de Gabriela Pugliesi, que publicou um vídeo de uma festa que promoveu no momento mais crítico da pandemia de Covid-19, ironizando as regras sanitárias. Em todos eles, as companhias que os patrocinavam rescindiram contratos.
As empresas têm culpa no problema. Ao contratar influenciadores apenas pela sua exposição, ignoram o alinhamento dos valores da pessoa com os da marca. Em muitos casos, eles são conflitantes, e isso gera crises que poderiam ter sido evitadas.
Em dezembro, influenciadores de grande alcance fizeram um ataque coordenado contra o Banco Central e seus diretores, para proteger o Banco Master, que havia sido liquidado pela instituição. A maioria daqueles criadores faz publicações de fofocas, sem qualquer relação com finanças ou economia. O caso demonstrou como a falta de ética no segmento permite que se compre mecanismos para moldar a opinião pública.
Casos recentes de influenciadores de saúde vêm provocando grande prejuízo ao público, inclusive no Brasil. Além da promoção de produtos inócuos e até perigosos, médicos vêm atacando vacinas e protocolos consagrados, como a mamografia. Entre as consequências disso, está a queda da vacinação, levando ao aumento de doenças antes erradicadas, como o sarampo.
O fenômeno dos influenciadores criou a maior máquina de convencimento da história. Muito longe de configurar censura, disciplinar essa atividade é vital para que não nos afundemos ainda mais em todo tipo de desinformação, um problema que já foi banalizado. A sociedade precisa se organizar para que informações com base na ciência e bem apuradas se sobreponham ao despreparo e à falta de ética.


