Interlocução com Madel Luz (1939-2026) In Memoriam
A Revista Cultura Homeopática* entrevistou no inverno de 2003 a Profa. Dra. Madel Luz uma pensadora que, como Cícero e Montaigne também consentia que filosofar é aprender a morrer. Pois ontem ela partiu em direção à luz da coisa indistinta.
O tema da nossa interlocução na época foi “Uma visão sociológica da saúde”.
Madel foi uma das mais proficientes pesquisadoras acerca das questões ligadas à saúde. Sua linha de investigação “racionalidades medicas” tem sido reconhecida como uma das mais compreensivas abordagens que oferecem suporte intelectual, tanto epistemológico como sociológico, para as várias formas de atuação na área.
Em sua carreira docente orientou gerações de pesquisadores na Uerj e em muitas outras instituições publicas e privadas. O escopo amplo de sua visão e sua forma critica e maiêutica forjou pessoas que hoje atuam em vários campos do saber.
“Apresentamos nesta edição entrevista especial, feita pelo editor Paulo Rosenbaum especialmente para a revista Cultura Homeopática, com Madel Terezinha Luz, professora titular do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Socióloga, pesquisadora, autora entre muitos outros títulos de Natural, racional, social (ed. Campus), A arte de curar versus a ciência das doenças e O lugar da mulher (ed. Paz e Terra), Madel Luz é, acima de tudo, uma pensadora das questões que interessam ao homem e consequentemente à Homeopatia.
Revista Cultura Homeopática – Como você avalia a situação atual
da homeopatia no Brasil? Pergunto isso por que se aumenta seu grau de institucionalização, aumenta também a cobrança por uma validação mais consistente. E este me parece um problema – como você mesma apontou em um Congresso Medico- pois as contradições afloram de duas formas: os que desejam validá-la (diante disso, não estou nem computando os que não se preocupam com a questão) fora de seus padrões epistêmicos (alegando consonância com a ciência moderna) e os que preferem fazer isso (apesar do custo intelectual e desgaste político) de acordo com critérios que podem ser considerados científicos, mas que ainda não estão no main frame da medicina contemporânea?
Madel Terezinha Luz – Acho que este é um tema da história do campo homeopático:
a) Lutar pela institucionalização do saber e da prática
homeopáticos. Como já disse no livro, a Homeopatia
pode ser considerada “vencedora” quanto a este processo.
b) Em relação às exigências de cientificidade, elas já se
colocavam ao tempo de Samuel Hahnemann, e não cessarão de existir enquanto o paradigma científico que se colocou na modernidade não for superado. O marco desse paradigma, baseado em causalidades, leis, determinações, linguagem formal através do método científico etc. impede que determinados olhares e perspectivas disciplinares sejam considerados científicos. A homeopatia é uma dessas disciplinas. Mas, no limite, é o caso de todas as ciências humanas.
Para mim, como cientista social, a ciência é um discurso cultural, socialmente construído como qualquer outro. Suas afirmações não têm o caráter de estabelecimento de verdades absolutas como parecem ter para os homeopatas, ou pelo menos para uma parte deles. E isso também é parte da
história da Homeopatia. Não importa o que os homeopatas façam para se fazer reconhecidos, jamais serão vistos como científicos DENTRO DESTE PARADIGMA, com seus pressupostos filosóficos e método.
CH – Você direcionaria uma discussão profícua neste
campo
abordando a medicina do sujeito e o desafio institucional da homeopatia?
.
MTL – Esta é uma questão interessante. O saber e a
prática clínica homeopáticos pertencem claramente a
uma medicina do sujeito, no caso do sujeito doente. O
diagnóstico é o diagnóstico de um sujeito, e o medica-
mento, terapêutica básica da homeopatia, também o é.
Em relação ao processo de institucionalização, embora
a medicina das especialidades, dominante nos sistemas
de saúde (público e privado) seja centrada na “objetivi-
dade” das patologias, cada vez mais a questão do sujeito
se coloca como um obstáculo epistemológico, prático e
institucional para este paradigma. A questão do sujeito
nos serviços e programa de saúde já é uma discussão
forte no campo da Saúde Coletiva.
A Homeopatia poderia fazer uma discussão profícua do assunto, à medi-
da que não dicotomizasse esses termos, pois já ha cam-
pos de aplicação em que a dicotomia sujeito doente X
doenças, coletivo X individual está sendo superada.
CH – Sua pesquisa sobre racionalidades médicas continua.
Que novos aportes e direções de pesquisas surgiram como
desdobramentos?
MTL – Nem o CNPq me pediu esse resumo de minha
linha de racionalidades! Basicamente, estou tendo
resultados interessantes com a investigação das novas
práticas em saúde. Sua ligação com valores culturais
centrais, como beleza, vigor, juventude, e também
individualismo, competição, sucesso etc. A questão do
corpo e sua modelagem” são estratégicas nessa área
temática do Projeto, e a ascensão de um paradigma da
saúde vista como vitalidade, boa forma etc. está sendo
analisado como alternativa cultural ao modelo medica-
lizante da medicina preventivista atualmente dominante
na cultura médica, por oposição ao paradigma curativista
anterior.
No entanto, os estudos comparativos das
medicinas, e/ou dimensões de cada medicina do projeto
inicial “Racionalidades Médicas” (homeopatia, medicina
tradicional chinesa, ayurveda e biomedicina) continuam
desdobrando-se nos trabalhos de meus orientandos.”
CH – Considerando que o discurso das medicinas assim
denominadas complementares (termo que acho particular-
mente infeliz) tem sido particularmente ambíguo: ora quer
se ver integrada no hall da modernidade científica, ora prefere
o isolamento auto-referente, teoricamente afirma que trata o
sujeito mas quer validar seus procedimentos abstraindo a
singularidade quando faz pesquisas. Certa vez você afirmou
que a Homeopatia só poderia avançar se trabalhasse melhor
em suas contradições. Como você encaminharia um diagnóstico (e terapêutica se possível) para avançar nas discussões?
MTL – O que caracteriza, a meu ver, a produção
discursiva atual na área da medicina e das terapêuticas,
assim como na cultura geral, é o “hibridismo” e a
“colagem” conceitual (conceitos de Mássimo Canevacci,
autor italiano da área de sociologia da comunicação).
Isto leva ao fato de que terapêuticas ou medicinas ditas
complementares não possam ter um discurso
“coerente”, fechado em sua racionalidade.
São discursos mesclados, culturalmente “mestiços”, em que a
racionalidade original aparece hibridada com outra. Por
outro lado, a autoridade moral da ciência como
produtora única de verdades, força a que todo discurso
ou prática terapêutica, para legitimar-se, tenha que
“provar” que se insere nos marcos metodológico e
teórico da ciência, isto é, tem que provar: que é
“científica”. Isto leva a esta posição ambígua ou
ambivalente das outras racionalidades médicas e práticas
terapêuticas em relação à ciência.
A homeopatia não é exceção, ao contrário, pois foi a primeira a iniciar esse
processo no fim do século XVIII. Pessoalmente, acho
que os homeopatas têm que levar essa discussão ao
campo estratégico, respeitando a diversidade conceitual
interna ao campo, mas encarando-a firmemente através
da produção discursiva. Em outras palavras: tem que se
debruçar de forma amadurecida sobre suas polêmicas,
tratando-as epistemológica e metodologicamente
também, não apenas politicamente, como vem fazendo
há um século e meio.
CH – Não se pode afirmar que exista uma só Homeopatia,
mas variadas interpretações sobre o que de fato caracteriza
seu núcleo duro. Nós, da Escola de Homeopatia da APH, achamos
que a Homeopatia pode ser praticada de várias formas mas
que seu núcleo fundante é, seja qual for a técnica, o cuidado
com o sujeito. Comente por favor.
MTL – Como venho afirmando há dez anos, o que
caracteriza basicamente o núcleo central do pensamento
médico homeopático (“doutrina médica”, na pesquisa
“Racionalidades Médicas”) é a busca de um pensamento
científico (“racional”, como dizia Hahnemann em sua
linguagem clássica) sobre a TERAPÊUTICA.
A homeopatia é, antes de tudo, uma ciência da arte de curar,
por paradoxal que isto possa parecer na nossa cultura. A
dimensão terapêutica, entretanto, é voltada para sujeitos
doentes, e não para as patologias. Aproximando-se,
quanto a este aspecto, da psicanálise, a homeopatia tem
como núcleo duro de episteme e praxis o de ser uma
terapêutica científica do sujeito doente. Apenas,
diferentemente desta outra disciplina, a Homeopatia
volta-se para a totalidade da vida, em seus aspectos
sensoriais, orgânicos, psíquicos, sociais e “espirituais”
(aqui vistos não como religiosos ou místicos, mas como
dimensão ética transcendente do sujeito, por não se
reduzir às dimensões anteriores).
Nisto a Homeopatia se aproxima das medicinas tradicionais, orientais ou não
(medicina chinesa, ayurveda, medicinas tradicionais
indígenas, etc). A racionalidade homeopática é híbrida
também quanto a este aspecto, pois tem “um pé” na
modernidade (a busca de cientificidade para seu
paradigma) e outro na tradição (visão do sujeito doente
e do adoecimento em perspectiva holista, busca da cura
ou promoção da saúde como totalidade de dimensões
não isoláveis etc).
Vejo isto como uma riqueza admirável
e acho que a Homeopatia segue ainda hoje como medicina
do futuro. Seria pena reduzi-la a uma racionalidade
tecnocientífica!
Os homeopatas precisam aprender a
conviver com a diversidade interna de seu campo, e ao
mesmo tempo a lidar com essa diversidade em seus três
níveis estratégicos, para tornar-se “pensamento científico”:
metodológico, conceitual e terapêutico.
Muito obrigado Madel!
* A Revista “Cultura Homeopática” foi uma publicação ligada à Escola de Homeopatia da APH dedicada a temas epistemológicos e clínicos. A “Revista de Homeopatia” da APH, tem sido hoje o veiculo de comunicação científica indexado no LILACS- Bireme e uma das mais longevas publicações médicas no País, veiculada ininterruptamente desde 1933.


