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Jovem que sobreviveu no Pico Paraná saltou de cachoeira de 20 m, diz bombeiro: ‘Parecia impossível’

Jovem que sobreviveu no Pico Paraná saltou de cachoeira de 20 m, diz bombeiro: ‘Parecia impossível’

‘Se você vir meu estado, não acredita’, diz jovem que havia desaparecido no Pico Paraná

Irmã publica vídeo com Roberto Farias Thomaz, resgatado após cinco dias. Crédito: @renata.cwbotasepi/Instagram

O jovem Roberto Farias de Tomaz, encontrado vivo após quatro dias perdido no Pico Paraná, conseguiu sair da área de montanha depois de saltar de uma cachoeira de cerca de 20 metros de altura, considerada intransponível pelas equipes do Corpo de Bombeiros. Esse local, historicamente, marca o ponto onde outras buscas por desaparecidos costumam terminar.

A informação foi confirmada ao Estadão nesta segunda-feira, 5, pelo tenente-coronel Ícaro Gabriel, comandante do Grupo de Operações de Socorro Tático, que coordenou as buscas no ponto mais alto do Sul do País, com 1.887 metros. Segundo ele, o salto aconteceu já no primeiro dia de desaparecimento e foi determinante para que Roberto conseguisse avançar dezenas de quilômetros pela mata até chegar a uma fazenda na região de Antonina, no litoral do Paraná.

“Existe uma cachoeira grande ali e nosso pessoal atingiu esse local de madrugada. Fizemos rapel, subimos, e sempre foi uma barreira que consideramos intransponível para que uma pessoa consiga chegar viva. Ele informou no depoimento que saltou daquela cachoeira. Para nós, parecia algo impossível”, afirmou o comandante.

O erro na trilha e a queda pela encosta

Roberto, de 19 anos, subiu o Pico Paraná no dia 31 de dezembro, acompanhado de uma amiga, com a intenção de ver o nascer do sol no primeiro dia do ano. Após chegarem ao cume, o ponto mais alto da montanha, o grupo iniciou a descida na manhã de 1º de janeiro. Em determinado ponto do trajeto, o jovem foi abandonado pela amiga e se perdeu de outros trilheiros, seguindo uma sinalização equivocada, o que o levou para fora da trilha principal.

Segundo relato feito à família, ele escorregou em um trecho íngreme e não conseguiu mais retornar. A partir desse momento, passou a descer pela encosta, entrando em uma área de mata fechada e extremamente acidentada, fora do traçado usual das trilhas.

“Depois de uma descida, tinha um lugar com sinalização, e ele seguiu o lado errado. Foi ali que ele escorregou e não conseguiu mais subir”, contou a irmã ao Estadão, Renata Farias de Tomaz.

A cachoeira onde as buscas costumam parar

Ao seguir pela encosta, Roberto encontrou o leito do Rio Cacatu, ainda na parte superior da montanha. Sem conseguir voltar nem referência de trilha, acompanhou o curso do rio. Pouco depois, chegou à cachoeira de aproximadamente 20 metros de altura.

Segundo o Corpo de Bombeiros, esse ponto é conhecido por representar uma barreira natural: pessoas perdidas costumam parar ali, sem conseguir avançar, e equipes de resgate normalmente encerram a progressão naquele trecho devido ao risco extremo.

“Chegamos nessa cachoeira por rapel, usando cordas, porque o terreno é muito íngreme. Pessoas chegam na cachoeira e não conseguem transpor. É impossível, e ele saltou”, explicou o tenente-coronel. “Ele informou que pulou nela, se bateu na correnteza e perdeu os óculos e os tênis. TQeve muita sorte mesmo de não ter se afogado ali”, completou o comandante.

‘Eu pedia proteção e pulei’, disse jovem à família

Segundo a irmã, o jovem contou que avaliou a profundidade da água antes de saltar e tomou a decisão em meio ao desespero. “Ele disse que estava escuro, mas imaginou que fosse fundo. Falou que pedia toda hora proteção. Dizia: ‘Deus me protege’. E pulou. Na correnteza, perdeu a bota, se machucou bastante, mas conseguiu se segurar numa pedra”, relatou Renata.

Depois do salto, Roberto seguiu o leito do Rio Cacatu. Em alguns trechos, a água estava cheia devido às chuvas, o que fez com que ele fosse arrastado por vários quilômetros. Isso acelerou o deslocamento para fora da área de montanha.

“Na verdade, ele conseguiu ir tão longe assim por conta dessa água que o arrastou ele por vários quilômetros”, afirmou o comandante.

Caminhada por dias e mais de 20 quilômetros

As equipes de buscas estimam que Roberto percorreu mais de 20 quilômetros em linha reta, mas a distância real pode ser bem maior, já que o trajeto seguiu curvas do rio e trechos de difícil progressão, com pedras escorregadias e desníveis constantes. “É um rio de pedras que não é navegável. Não é fundo, mas tem trechos fundos. Porém, estava bem cheio por conta das chuvas”, acrescentou Gabriel.

Roberto caminhava principalmente durante o dia e tentava descansar à noite, usando um corta-vento que levava consigo. O comandante Ícaro Gabriel disse ao Estadão que ainda não conversou pessoalmente com Roberto e não soube explicar como ele se alimentou durante os dias em que era procurado.

A operação de resgate reuniu 100 bombeiros, 300 voluntários, cães, drones e helicópteros. Roberto, porém, relatou ter ouvido a aeronave apenas no primeiro dia, quando ainda estava acima da cachoeira. “Ele disse que gritou por ajuda, mas depois não escutou mais nada. Nem apito, nem gente, nada”, contou a irmã.

Planejamento de busca coincidia com saída da mata

No momento em que Roberto chegou à fazenda, na região de Antonina, o Corpo de Bombeiros se preparava para iniciar justamente a expansão das buscas a partir do litoral, subindo o Rio Cacatu – hipótese considerada menos provável, mas que já estava no planejamento.

Imagens registradas por câmeras de segurança da CGH (Central Geradora Hidrelétrica) Cacatu mostram que Roberto chegou sozinho à fazenda, foi acolhido e entrou em contato com a irmã. Ele foi encaminhado a um hospital de Antonina. “Ele está todo roxo, magro, cheio de picadas de bichos. Mas, de modo geral, está bem, sabe?”, avaliou Renata.

Segundo a Secretaria da Saúde do Paraná, o rapaz chegou lúcido ao hospital, com sinais de desidratação leve, hematomas em membros inferiores e assaduras na região inguinal. “Foi submetido à profilaxia medicamentosa e reidratação endovenosa. Foram solicitados exames laboratoriais e de imagem para investigação complementar e ele vai permanecer sob observação enquanto aguarda os resultados”, disse a pasta. Ainda não há previsão de alta médica.

Secretário da Segurança Pública do Paraná, Hudson Leôncio Teixeira afirmou que Tomaz será ouvido nos próximos dias pela Polícia Civil para explicar como se separou do grupo durante a trilha.

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