Menina Yanomami morre em transferência para Boa Vista
Uma menina indígena Yanomami de 1 ano e três meses morreu no último sábado, 14, durante uma remoção aérea para Boa Vista, capital de Roraima. Ela apresentava quadro de saúde grave, com sinais de desnutrição, malária e verminose. A criança veio a óbito às 17h30, quando a aeronave se aproximava da capital de Roraima.
No atestado de óbito, obtido pelo Estadão, o documento aponta que a morte aconteceu “em trânsito aeronave”, e as causas apontadas foram:
- Insuficiência respiratória aguda;
- Síndrome de Loeffler grave (uma inflamação nos pulmões causada pelo o acúmulo de eosinófilos – o tipo de glóbulo branco associado a alergias e infecções parasitárias – no tecido pulmonar);
- Ascaridíase.

Sobrevôo próximo a aldeias localizadas em terra Yanomami, em Boa Vista, Roraima. Foto: Chico Batata/Greenpeace
A reportagem procurou a Casa Civil, responsável pela Casa de Governo Yanomami, uma estrutura criada pelo Governo Federal para monitorar a execução do chamado Plano de Desintrusão e de Enfrentamento da Crise Humanitária na Terra Indígena Yanomami, que vive sob constante ameaça das atividades de garimpo ilegal. A entidade não respondeu até a publicação do texto.
O Ministério da Saúde também foi questionado, mas não deu retorno. O espaço segue aberto e a reportagem será atualizada caso as pastas enviem um posicionamento.
Doente desde a semana passada, a indígena foi deslocada na quinta-feira, 12, da comunidade Xitei, onde vive, para Surucucu, outra região localizada dentro da terra Yanomami. Lá, ela ficou internada por dois dias em um hospital. Com o agravamento do quadro, decidiu-se pela remoção dela de Surucucu para Boa Vista na manhã de sábado.
Por volta das 10h, a menina Yanomami foi avaliada por uma enfermeira. Na documentação, constam as informações de que a criança apresentava quadro de “desnutrição grave”, DDA (indicação de Doença Diarreica Grave), desidratação e verminose. Malária também é citada.
“Paciente com quadro de diarreia há 3 dias, mais de 5 episódios ao dia, acompanhados de vômito, tosse e coriza, mega febre e intolerância à via oral”, diz trecho do documento, escrito pela profissional que avaliou a criança.
Foi informado também que a indígena apresentava “irritabilidade”, “olhos fundos”, diarreia líquida e vermes, além de vomitar os alimentos líquidos e remédios que eram oferecidos.
Waihiri Hekurari Yanomami, presidente da Urihi, uma organização não governamental que atua na saúde indígena, disse à reportagem que o pedido pela aeronave para levar a criança até Boa Vista foi feito para o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei-Yanomami) por volta das 10h30, mas que a entidade só enviou uma equipe de emergência cerca de “seis horas depois”.
“A coordenação do Dsei-Yanomami mandou a aeronave às 16h, e a aeronave chegou só chegou às 16h20 lá (em Surucucu).” O tempo de deslocamento, segundo Hekurari, é de 1 hora e 30 minutos de Surucucu até a capital do Estado.
“A aeronave estava chegando, próxima da capital, em Boa Vista, por volta de 17h30, (quando) a criança faleceu dentro da aeronave, né. Tinha informações, equipe informando que a criança estava grave, mesmo assim, a coordenação do Dsei-Yanomami não mandou de imediato a aeronave para buscar em Surucucu”, lamentou o presidente da Urihi.
Mais recentemente, a associação Urihi tem denunciado a crise humanitária e a violência causadas pelo garimpo ilegal em território Yanomami e cobra explicações sobre a demora no resgate da menina.
“A situação é grave, é muito grave, a criança morrer de verme, morrer de malária, morrer de desidratação, desnutrição. Eu fico muito preocupado com isso”, acrescentou o líder indígena.
O Estadão entrou em contato com a liderança indígena Dário Kopenawa Yanomami, que atua na defesa territorial, saúde e educação do povo Yanomami. O líder afirmou que está investigando o caso.
Neste domingo, 15, outra criança Yanomami de 1 ano, também com quadro de desnutrição grave e diarreia, precisou ser levada da comunidade Xitei até Surucucu por motivos de saúde. Pela necessidade de um melhor tratamento, uma aeronave foi solicitada para levá-la até Boa Vista. A indígena chegou à capital roraimense.
Waihiri Hekurari Yanomami criticou a atuação do Ministério da Saúde e afirma que a pasta não “se comunica” com os Yanomami.
“O Ministério da Saúde está brincando com as vidas do povo Yanomami, né?”, disse. “O governo mandou muitos recursos. Esses recursos, as crianças não estão vendo. E o povo Yanomami só está vendo o silêncio e o choro. Mais uma vez o povo Yanomami está chorando, mais de uma vez uma mãe vai estar de luto”, desabafou o presidente da Urihi.



Publicar comentário