Meu Ayrton: docussérie restitui Galisteu e humaniza Senna – 20/11/2025 – Luciana Coelho
A torrente de lançamentos pela ocasião dos 30 anos da morte de Ayrton Senna, ano passado, não foi suficiente para o cineasta João Wainer. Pois ele achou um ponto de vista diferente para trazer ao público uma versão menos chapa-branca do piloto de Fórmula 1, restabelecendo uma voz apagada das versões oficiais, a de Adriane Galisteu.
“Meu Ayrton – Por Adriane Galisteu” não só devolve à apresentadora seu lugar na história como humaniza o esportista de uma forma que, embora não traga nada remotamente negativo, está longe das hagiografias às quais o público foi habituado.
É impressionante que tenha levado 30 anos para alguém conseguir fazer isso. Há tempos Galisteu decolou em carreira própria, de forma que não dá para falar dela como alguém ostracizada. A ex-modelo é uma constante na mídia desde os anos 1990, primeiro como a ex de Senna, mas logo porque conseguiu estabelecer, ela mesma, uma relação com o público.
Essa ascensão, porém, nunca a livrou do apagamento na trajetória de Senna. Ela era namorada do piloto quando ele morreu, aos 34, num violento acidente no autódromo de Ímola (Itália), mas passou para a história como uma aproveitadora, um flerte que viu no piloto um trampolim. Mesmo consolidando seu nome na TV, a apresentadora nunca se livrou dessa sombra.
Wainer não conta, no documentário em duas partes, a história de Galisteu. Não é ela como mulher, nem sua carreira, o objeto do enredo. O alvo aqui é Senna, a partir dos olhos dela. Poderia ser machista reduzi-la a esse lugar, mas o efeito, ao restituí-la ao lugar de onde foi defenestrada, é o oposto.
Não há excessos nem grandes revelações nas quase duas horas da série. O que se tem é um olhar mais prosaico ausente em outras narrativas sobre o piloto. Por ter morrido muito cedo, no auge de sua trajetória em uma época em que a Fórmula 1 era programa obrigatório na TV aos domingos, a versão cristalizada de Senna é a do herói, ídolo, quase santo. A ponto de ser difícil imaginar quais seriam as opiniões políticas do piloto hoje ou como ele usaria sua fortuna.
A versão de Galisteu devolve o piloto ao mundo real. Ao convidá-la a entremear sua história à do ídolo, Wainer a coloca em patamar de igualdade na relação, algo que nunca lhe foi permitido. Nem mesmo o livro que a apresentadora escreveu com o jornalista Nirlando Beirão pouco após o acidente conseguiria isso. Apesar da enorme vendagem, a publicação foi recebida como uma defesa ou como fofoca.
E a história pregressa da apresentadora não é a de uma arrivista, embora ela admita com franqueza sua relação com o dinheiro. É o depoimento de alguém que certamente fez muita terapia, mas que também cria empatia imediata com o público.
Com destreza, o diretor situa a longa entrevista de Galisteu nos locais que o casal frequentou, restituindo-a ao cenário, e a costura com a de outros personagens muito presentes para o piloto, como o amigo Jacir Bergmann (o Gordinho), o jornalista Roberto Cabrini, a assessora de imprensa Betise Assumpção e o preparador físico Nuno Cobra, além de Lúcia Braga, viúva de Antônio Carlos de Almeida Braga, espécie de mentor de Senna. A família não quis participar.
Para quem torceu por Senna naquelas tantas manhãs de domingo, o trabalho de Wainer é precioso.
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