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Na ‘Faria Lima cearense’, construtora promete o 1º ‘prédio torcido’ do Brasil; veja imagens

Na ‘Faria Lima cearense’, construtora promete o 1º ‘prédio torcido’ do Brasil; veja imagens

Entre os moradores de Fortaleza, há um bordão para se referir à Avenida Desembargador Moreira, no centro: “É a Faria Lima alencarina”. As quadras da via, um coração financeiro como sua irmã paulista, são o sumário da história recente da cidade, tomada por novos prédios. Por isso, o construtor Ricardo Ary sabia que não dava para ser tímido ao planejar o novo edifício do local. Nasceu, então, a ideia de um prédio “torcido”, o primeiro da América Latina.

O projeto do edifício de 30 andares e 115 metros de altura nasceu no fim de 2022, quando a capital cearense começava a despontar como dona do maior Produto Interno Bruto (PIB) do Nordeste — R$ 65 bilhões. Os números deste ano ainda não foram divulgados, mas projeções independentes indicam continuidade da liderança, refletida no mercado imobiliário. A cidade vive um boom de prédios, discutido no novo Plano Diretor do município.

“Fortaleza vive um grande crescimento. Esse foi um dos pontos que levou a planejar esse prédio. Vínhamos com uma demanda forte por áreas comerciais maiores”, diz Ricardo Ary, engenheiro responsável pelo projeto e um dos proprietários da BTB Engenharia, construtora do HBS Square, o futuro edifício comercial mais alto da cidade.

Giro gradual

Primeiro, segundo ele, a ideia era construir um prédio mais “conservador: reto e comportado”. Até que um dos arquitetos inscritos para assumir o desenho final do novo negócio, Daniel Arruda, apresentou o oposto disso: andares com lajes torcidas, que parecem girar sobre si.

Como a construtora já estava achando o prédio comportado demais para virar uma referência, aceitaram. Pesou, nesse momento, o fator financeiro — para os dois lados da balança.

O valor da obra ficou 15% mais caro que o de uma versão estrutural mais “comportada”, estimou Ary, sem precisar valores. Por outro lado, a irreverência arquitetônica também elevava o preço final do produto — portanto, o lucro. Cada laje teve um preço de custo de, em média, R$ 9,5 milhões. Isso equivale a um metro quadrado de R$ 23,7 mil. A entrega está prevista para 2027.

“O próprio terreno, quadrado, inspirou a forma do empreendimento. Além da vontade de criar um ícone para a cidade”, diz Arruda, sobre o formato de prédio que existe, por exemplo, na Ásia, Europa e América Central. Para deixar os vãos dos andares livres, a área de serviço, como elevadores e escadas, fica no núcleo central rígido do prédio — a parte essencial da sustentação do edifício.

A torção é gerada por uma modificação nos pilares de periferia, ou seja, aqueles que ficam nas bordas da estrutura. A cada andar, esses pilares são inclinados em pequenas medidas, de forma que, ao subir pelo edifício, o conjunto vai “girando” gradualmente. É como se cada andar estivesse levemente deslocado em relação ao anterior, criando a sensação de espiral.

Hoje, 80 pessoas trabalham na obra do edifício, que começou em 2023 e terminará daqui a dois anos. Os trabalhadores estão prestes a terminar de construir os cinco primeiros subsolos e chegar ao térreo. Mas só a partir do primeiro andar sua aparência torcida será visível. No pico da construção, serão 300 operários em serviço.

Verticalização de Fortaleza

A verticalização de Fortaleza começa nos anos 30, no centro da cidade. Naquela época, um prédio como o do Excelsior Hotel, com oito andares, era considerado alto.

O crescimento dos prédios para cima ganhou força nas décadas seguintes, mas, nos últimos anos, atingiu seu auge. Em 2022, a Câmara Municipal de Fortaleza aprovou a Lei de Outorga Onerosa, que permite que o município autorize a construção de edifícios acima dos índices permitidos, mediante o pagamento de contrapartidas financeiras pelo proprietário. A flexibilização dos índices está em debate na Câmara Municipal de Fortaleza.

Para Bruno Melo Braga, professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará, a questão que se apresenta é como essa cidade mais alta poderá dialogar com questões climáticas e a realidade local.

“Esses novos edifícios verticais dependem muito do seu valor de imagem, e por isso buscam estratégias formais que os destaquem em relação aos demais e gerem interesse e retorno financeiro. Muitos deles, por exemplo, possuem estacionamentos nos primeiros pavimentos, gerando muros fechados para a cidade”.

Ele é crítico, por exemplo, ao uso de vidro na fachada do novo prédio “torcido”. O material, segundo pesquisas recentes, é associado ao aumento de até 25% no consumo de energia. O vidro permite uma vista panorâmica de Fortaleza. O arquiteto explicou que o uso do material foi o que permitiu a “integração máxima” com os visuais da cidade.

Segundo Ricardo Ary, da construtora, o prédio tem selos mundiais de sustentabilidade e traz “fluidez com [o ambiente] da cidade”. A parte de baixo do prédio tem praça, não há muro, a calçada é muito longa, [o projeto] tem toda uma fluidez com a cidade”.

Ao sul, as janelas do novo prédio se abrem para a Avenida Beira-Mar. No endereço, acontece a maior demolição de um prédio no Brasil: os 75 metros (25 andares) de altura do antigo Seara Hotel cairão para dar lugar a um prédio de 50 andares, da construtora Moura Dubeux. Procurada, a construtora não respondeu. O espaço segue aberto.

A decisão de demolir edifícios ao invés de aproveitá-los “vai na contramão do que deveríamos estar fazendo”, na avaliação de Bruno Braga, da UFC. “Aproveitar estruturas preexistentes e subutilizadas é algo muito mais relevante e sustentável do que demolir grandes estruturas para propor outras ainda maiores”. A Prefeitura de Fortaleza não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem até o fechamento desta publicação.

Em nota, a Prefeitura de Fortaleza afirmou que “a demolição do antigo Seara Praia Hotel, localizado na avenida Beira Mar, foi autorizada após a análise e aprovação de processos administrativos protocolados pela empresa MD CE BC Abolição Construções Ltda, que apresentou toda a documentação exigida, incluindo memorial descritivo com metodologia de demolição, laudo de riscos, plano de gerenciamento de resíduos e anotações de responsabilidade técnica, e cumpriu todos os trâmites legais necessários”

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