‘Não abandonei’: amiga de jovem que desapareceu no Pico Paraná diz que esperou e buscou ajuda
Quebrou a confiança, diz jovem abandonado por amiga em trilha no Paraná
Ele sobreviveu após ficar quatro dias perdido na mata. Crédito: Edição: Júlia Pereira
Thayane Smith Moraes, de 19 anos, afirma que não abandonou Roberto Farias Tomaz, da mesma idade, durante a trilha no Pico Paraná no dia 1º de janeiro. A jovem diz que chegou a esperar, procurar e acionar o resgate antes de retornar por orientação dos bombeiros, para não se colocar em risco. Segundo ela, a separação ocorreu por diferença de ritmo entre ele e ela durante a descida.
“Não abandonei! Eu assumi o meu B.O., assumi o problema todo. Eu assumo que errei de ter deixado ele para trás, quebrei a nossa regra dos trilheiros e montanhistas, de que vai junto e volta junto. Mas eu acompanhei o passo dos corredores e ele veio no ritmo dele”, afirmou em entrevista ao Estadão nesta terça-feira, 6.
Quatro dias após ter sido abandonado pela amiga, Roberto localizou uma fazenda. Nesse período, ele seguiu o curso do rio e relata ter saltado de uma cachoeira para sobreviver. O rapaz, que teve alta nesta terça, afirma que conheceu Thayane há cerca de dois meses.
Thayane relatou que percebeu que Roberto não estava mais próximo dela e pediu para seguir à frente para acompanhar corredores que desciam em ritmo mais rápido. “Eu ia no ritmo dos corredores e ele vinha no ritmo dele. A gente ia se encontrar no acampamento”, disse.
De acordo com a jovem, ela chegou ao acampamento 1 por volta das 7h50 e permaneceu no local até cerca de 9h15, aguardando Roberto. “Esperei uma hora e 25 minutos. Ele não chegou”, afirmou.

Thayane Smith Moraes, de 19 anos, concedeu entrevista dias antes do rapaz ser encontrado com vida Foto: Reprodução/RIC Record
Pouco depois, segundo Thayane, um dos integrantes do grupo levantou a suspeita de que Roberto estivesse perdido. “Então, a gente foi atrás dele, contactou os bombeiros e falou: tem uma pessoa perdida”, alegou a jovem amazonense.
Ao Estadão, Thayane disse que participou das buscas entre 9h30 e pouco depois de 13h do dia 1º até receber orientação para recuar. “Os bombeiros pediram para a gente retornar para o acampamento para não sermos as próximas vítimas. Os bombeiros nos orientaram pelo fato de estarmos sem água, sem alimento e já desidratados”, afirmou.
Thayane explicou que o caminho feito por Roberto não é o trajeto padrão de retorno do Pico Paraná. “Para ir e voltar é a mesma trilha. Mas existem várias entradas para dentro da mata. Ele acabou entrando para o lado do (Rio) Cacatu, que não tem sinalização”, disse. Segundo ela, o Pico Paraná conta com fitas cinzas de orientação, inexistentes na trilha do Cacatu. “Eu segui a sinalização e cheguei normalmente à fazenda”, afirmou.
Jovem nega abandono e deixa mensagem
Questionada sobre a interpretação de abandono, Thayane foi direta: “Não abandonei. Eu não tenho tanto conhecimento sobre a mata ali. Então, eu não arrisquei a minha vida pra não ser a próxima vítima e retornei”, disse. Ela reconheceu que as decisões poderiam ter sido diferentes. “Se eu não tivesse deixado ele para trás, nada disso teria acontecido. Nós dois juntos íamos nos ajudar”, afirmou.
A amiga disse que ainda não conversou com Roberto após o resgate, por respeito à família. “Eu quis respeitar o reencontro deles. Depois, quando tudo acalmar, quero pedir desculpa pessoalmente”, afirmou.
A jovem deixou ainda uma mensagem direta a Roberto. “Desculpa por ter feito isso com você. Quando a gente se reencontrar, pretendo dar um abraço bem apertado nele e pedir desculpas pessoalmente. A gente vai conversar e resolver pessoalmente, longe das câmaras, somente eu e ele.”
‘Quebrou confiança’, diz Roberto
Roberto Farias Tomaz afirmou ao Estadão que a confiança na amiga com quem fazia a trilha foi quebrada, mas disse que não a culpa pelo que houve. Ele relatou nesta terça-feira, 6, que pretende procurá-la para conversar e devolver pertences, mas negou ter sentido raiva no período em que esteve perdido.
“Ela me passou uma confiança, porém lá em cima ela quebrou legal essa confiança”, afirmou Roberto, minutos antes de receber alta do hospital onde estava internado, em Antonina, litoral do Paraná. Ele evita, porém, se estender nas críticas à garota, que foi alvo de ataques nas redes sociais por ter deixado o amigo para trás. Naquele momento, o jovem passava mal e caminhava mais devagar. “Eu me vejo magoado, mas não a culpo. Não tenho julgamento, não fico bravo com ela.”
Defesa nega crime
A advogada Kellen Larissa, que representa Thayane, afirmou que, embora a conduta possa ser considerada moralmente reprovável, não configura crime. “Essa regra do montanhismo não é lei. Não existe tipo penal para isso. Não houve dolo, não houve intenção de abandono”, disse.
A advogada informou ainda que medidas judiciais estão sendo adotadas contra perfis nas redes sociais que atacam a jovem e usam a imagem dela de forma ofensiva. “O inquérito caminha para o arquivamento. O que a gente pede é que as pessoas permitam que eles sigam em paz.”


