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‘Não existe inovação sem diversidade’, dizem diretoras do grupo Mulheres do Brasil

‘Não existe inovação sem diversidade’, dizem diretoras do grupo Mulheres do Brasil

‘Não existe inovação sem diversidade’

A socióloga Andreia Schroeder e a empresária Elizabete Scheibmayr serão palestrantes da São Paulo Innovation Week (SPIW). Crédito: Edição: Larissa Kinoshita motion: Raul Carvalho, Coord de pós: Anderson Russo, Captação: Felipe Pedro/Lucas Ghitelar, Produção: Vitória Schimdtz

 ‘Não existe inovação sem diversidade’, dizem diretoras do grupo Mulheres do BrasilFoto: Taba Benedicto/ Estadão

Andreia Schroeder e Elizabete ScheibmayrDiretoras do Grupo Mulheres do Brasil

É impossível ter inovação sem igualdade entre homens e mulheres, seja no ambiente corporativo, nas escolas ou na política, defendem as diretoras do Grupo Mulheres do Brasil, a socióloga Andreia Schroeder e a empresária Elizabete Scheibmayr. “Se você reúne pessoas muito parecidas para pensar algo novo, o resultado tende a ser parecido com o que já existe. A diversidade é inerente à inovação”, afirma Andreia, em entrevista ao Estadão.

Ao mesmo tempo, elas alertam para um momento de reação aos avanços recentes em direitos e inclusão, marcado por polarização, retrocessos e aumento da violência de gênero. “Vivemos uma situação quase epidêmica de violência contra mulheres e meninas”, diz Elizabete. Andreia acredita que parte dessa resposta atual vem da “sensação de perda de espaço” de grupos historicamente dominantes. Nesse contexto, defendem, ampliar a diversidade — principalmente nos espaços de poder — é condição não só para inovar, mas para construir uma sociedade mais equilibrada e segura.

As duas pesquisadoras serão palestrantes do São Paulo Innovation Week (SPIW), evento que o Estadão realiza em maio na cidade de São Paulo e que tem como foco inovação, tecnologia e negócios. O festival é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos – assinantes podem comprar ingressos com desconto: clique aqui para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes devem acessar este link. O SPIW será realizado entre 13 e 15 de maio na Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap.

O Grupo Mulheres do Brasil foi fundado em 2013 pela presidente do Conselho de Administração do Magalu, Luiza Helena Trajano, com o objetivo de defender a igualdade entre gêneros e raças. Andreia trabalhou por anos no mundo corporativo e hoje atua na área de políticas públicas e relações institucionais do grupo, com foco em aumentar o número de mulheres nos espaços de liderança. Elizabete é a líder da área de combate à violência contra mulheres e meninas. A organização do terceiro setor se declara suprapartidária e tem cerca de 130 mil participantes no Brasil e no exterior.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista das duas.

É possível ter inovação sem diversidade?

Bete: É impossível. Quando a gente fala de inovação, precisa necessariamente falar de diversidade. Não existe qualquer possibilidade de inovar se todas as pessoas não forem consideradas. Inovação vai muito além do tecnológico — envolve agilidade, novas soluções, novos modelos. E, para isso, eu preciso de diversidade. Senão, você acaba criando soluções muito restritas a um único grupo. É preciso trazer diversidade de gênero, de raça, de perspectivas. Para mim, é inconcebível pensar em inovação sem pensar em diversidade.

Andreia: Ter mulheres, considerar o recorte racial e outras características da população, seja no ambiente corporativo, nas escolas ou na política, permite construir soluções mais completas, que englobam diferentes visões. Pensar inovação sem diversidade é um pensamento limitado. Se você reúne pessoas muito parecidas para pensar algo novo, o resultado tende a ser parecido com o que já existe. A diversidade é inerente à inovação.

Como avaliam o momento atual no Brasil e no mundo para políticas de diversidade de gênero e raça?

Andreia: Acho que hoje a gente vive um momento de reação a um período de avanços, de acesso a direitos e de uma perspectiva mais inclusiva, tanto para as mulheres quanto para as questões raciais. Agora, há uma sensação, por parte de alguns grupos, de perda de espaço ou de predominância. E isso ajuda a explicar essa reação.

Você quer dizer essa sensação por parte dos homens?

Andreia: Os homens, sim e, na perspectiva racial, as pessoas brancas. Quando falamos de igualdade de gênero, estamos falando de homens e mulheres terem acesso às mesmas oportunidades, ocuparem os mesmos cargos e receberem os mesmos salários. Mas a dimensão racial também é central. Hoje vemos líderes de países importantes se posicionando contra políticas de diversidade. Isso tem impactos econômicos e políticos e acaba gerando retrocessos, tanto em políticas públicas quanto em iniciativas dentro das empresas. Mas é justamente por isso que precisamos continuar falando sobre o tema e influenciando organizações de todos os portes. Quando você retira mulheres, especialmente mulheres negras, ou homens negros, você perde em produtividade e inovação.

Bete: Existe uma confusão de conceitos. Muitas pessoas acham que alguém está “tomando o espaço” de outra pessoa — e isso tem a ver com poder. Quando um grupo começa a crescer, o outro sente que está perdendo espaço. Mas não é assim. Não se trata de perda, e sim de ganho coletivo. Quando as pessoas entendem que ninguém está perdendo, mas que todos estão ganhando, a mentalidade começa a mudar.

Ao mesmo tempo, vemos o aumento de casos de feminicídio e de violência contra mulher no Brasil e movimentos misóginos em redes sociais e entre os meninos. Como vocês veem isso?

Bete: Hoje vivemos uma situação quase epidêmica de violência contra mulheres e meninas. Os índices cresceram muito, e há uma naturalização dessa violência. Temos a Lei Maria da Penha, considerada uma das melhores do mundo no enfrentamento à violência, prestes a completar 20 anos, e mesmo assim os casos continuam aumentando. O que acontece é que muitas vezes não há repressão efetiva. A violência é justificada, e a culpa recai sobre a vítima. Isso revela um problema estrutural. Também há uma reação a avanços recentes, desde movimentos como o #MeToo até a percepção, por parte de alguns homens, de que estão perdendo espaço. Soma-se a isso uma série de fatores culturais e estruturais que ainda não foram transformados. Hoje, a violência está exposta diariamente: na TV, no celular, nas notícias. Vemos casos de feminicídio todos os dias. São quatro mulheres assassinadas por dia no Brasil. Quando falamos de estupro, são 18 casos diariamente. É uma realidade alarmante. E, ainda assim, seguimos perguntando o que a vítima fez, como se houvesse justificativa para a violência. Você tem um homem que mata os dois filhos e a primeira coisa que as pessoas falam é que a culpa é da mulher porque ela traiu o marido. A moça foi arrastada, mas que roupa que ela tava? Ela tava num bar? Ah, por que bateu, né? A gente tem que parar de perguntar o por que que bateu. Não é para bater, não é para matar. Há também discursos que reforçam a ideia de que o homem domina e a mulher é dependente, a “mulher troféu”, que precisa ser protegida. Isso influencia toda a sociedade, inclusive as próprias mulheres, e reforça a naturalização da violência.

Isso é estrutural, vem desde a infância? Como a educação dos meninos e meninas pode ajudar a melhorar esse quadro?

Andreia: Sim. As meninas são educadas como frágeis, destinadas ao espaço doméstico. Os meninos são ensinados a ser fortes, a prover, a não chorar. Isso é ruim para ambos. Para as meninas, porque limita seus sonhos e possibilidades. Para os meninos, porque restringe suas emoções. Desde cedo, brincadeiras, expectativas e estímulos são diferentes, e isso molda a forma como a sociedade pensa. Ao longo da história, as mulheres foram conquistando direitos, acesso à educação, ao voto, ao trabalho. Mas, se a mentalidade dentro de casa não muda, esses avanços geram conflitos na vida adulta. Homens que cresceram acreditando que a mulher deveria ocupar uma posição inferior passam a enfrentar uma realidade diferente — e isso revela o caráter estrutural do problema.

Como mudar isso? Colocar a discussão de gênero nos currículos escolares é uma solução?

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Andreia: Nos últimos anos, houve uma intensificação da polarização ideológica em torno de valores. E o debate sobre gênero acabou sendo distorcido. Quando falamos disso, estamos falando de igualdade de direitos entre homens e mulheres. Por que duas pessoas no mesmo cargo deveriam receber salários diferentes? A sociedade é diversa, e isso precisa ser reconhecido como algo positivo. As pessoas têm trajetórias e escolhas diferentes, e isso não ameaça ninguém. Um exemplo são as cotas para candidaturas femininas, que exigem um mínimo de participação. Isso existe porque ainda há muito mais homens na política. Mas o conceito de gênero diz respeito ao equilíbrio, não é uma pauta exclusiva das mulheres.

É preciso mudar a forma de comunicar esse tema?

Bete: Sim. Quando você fala “gênero”, muitas pessoas associam imediatamente a questões de sexualidade e criam resistência. A linguagem precisa ser acessível. Nenhuma família quer que sua filha tenha medo de andar na rua. Nenhum pai quer que sua filha sofra violência. Quando você coloca a discussão nesses termos — direito de ir e vir, de viver com segurança, de trabalhar e receber um salário justo — as pessoas entendem melhor. O feminismo, no fundo, sempre lutou por isso: direito de escolha. Inclusive o direito de escolher caminhos diferentes, como da mulher não trabalhar ou se dedicar à família. E é importante lembrar que não existe uma mulher única. Falamos de mulheres negras, indígenas, com deficiência, mulheres trans, mulheres mais velhas. A diversidade também está dentro do próprio grupo das mulheres. Quando falamos apenas de “mulheres”, muitas vezes invisibilizamos outras realidades. Houve avanço na presença de mulheres na liderança, mas, em grande parte, de mulheres brancas. As mulheres negras continuam sub-representadas. Em alguns levantamentos, elas são 0,4% em posições de liderança. Ainda é muito pouco. Enquanto isso, mulheres brancas chegam a cerca de 35%. Por isso, quando falamos em aumentar a participação feminina, precisamos perguntar: de quais mulheres estamos falando? Sem esse recorte, não vamos mudar a realidade.

Qual a perspectiva para as mulheres nas eleições deste ano? Acreditam em um crescimento das candidaturas de mulheres?

Andreia: O ideal seria alcançar a paridade — 50% de mulheres na política. Afinal, somos 52% da população. Mas hoje, na Câmara dos Deputados, as mulheres ocupam cerca de 18% das cadeiras. No Senado e nas assembleias estaduais, o percentual é semelhante. Nas prefeituras, é ainda menor. O movimento Mulheres do Brasil tem a iniciativa “Pula para 50”, justamente para ampliar essa participação. Isso é importante não só pela representatividade, mas também pelos efeitos concretos na política. Há estudos que mostram que mulheres têm menor probabilidade de se envolver em corrupção. Políticas públicas também mostram diferenças: programas de transferência de renda, por exemplo, costumam ser direcionados às mulheres porque elas investem mais no bem-estar da família. Há estudos indicando que lideranças femininas estão associadas à redução da mortalidade infantil e, durante a pandemia, países governados por mulheres tiveram menos mortes, em parte por decisões mais rápidas de proteção. Além disso, quando você está insatisfeito com a política, inovar também significa votar diferente. Continuar votando nos mesmos perfis tende a reproduzir os mesmos resultados.

Como vocês veem a ampliação da licença-paternidade aprovada recentemente no Congresso?

Andreia: É um avanço importante, ainda que gradual. O ideal seria chegar a pelo menos 180 dias, mas ampliar esse período já ajuda a mudar a mentalidade. Se o pai não tem tempo para criar vínculo com o bebê, isso impacta o desenvolvimento da criança e a divisão de responsabilidades. Também tem impacto no mercado de trabalho: quando a licença deixa de ser uma questão exclusivamente feminina, diminui o viés na contratação de mulheres. E vale destacar que a aprovação envolveu mulheres de diferentes partidos, trabalhando juntas com a sociedade civil, numa forma mais colaborativa de fazer política.

Qual o papel dos homens nessa agenda?

Bete: É fundamental. Homens aliados, especialmente em posições de liderança, ajudam a transformar ambientes. Quando um líder evita interrupções em reuniões, combate comentários inadequados e promove mulheres, ele influencia toda a cultura ao redor. A empresa é um reflexo da sociedade. Por isso, precisamos de referências que mostrem novas formas de agir. Não se trata de uma disputa entre homens e mulheres. É sobre compartilhar. Quando há diversidade e colaboração, os resultados são melhores — mais inovadores, mais seguros, melhores para todos. No fim, estamos falando de construir uma sociedade com mais equilíbrio, mais respeito e menos violência.

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