No Rio, guerra entre facções e milícias acirra, impõe terror a comunidades e deixa 180 mortos
Rio de Janeiro tem fila de corpos estendidos em uma lona após megaoperação
Conforme o ativista Raull Santiago, ao menos 50 corpos foram retirados por moradores da região de mata do Complexo da Penha durante a madrugada. Crédito: Pedro Kirilos | TV Estadão
Durante o ano de 2025 foram registrados 275 tiroteios por confrontos entre facções e milícias na Grande Rio, a região metropolitana do Rio de Janeiro. Nesses confrontos 180 pessoas morreram. Com 26% de aumento nos casos em relação a 2024, a Grande Rio bateu o recorde de tiroteios motivados por disputas territoriais mapeados pelo Instituto Fogo Cruzado, considerando a série histórica iniciada em 2016.
O instituto monitorou quatro regiões metropolitanas brasileiras – além do Rio, nos Estados da Bahia, Pernambuco e Pará -, para produzir seu relatório anual sobre a violência nas metrópoles. Na soma das quatro regiões, houve 5.846 tiroteios em 2025, resultando em 5.465 pessoas baleadas, com 3.781 mortas e 1.684 feridas.
O governo do Rio informou que as estatísticas compiladas pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) têm como base os registros de ocorrência lavrados pela Secretaria de Estado da Polícia Civil que não incluem a categoria “tiroteios”, portanto não há dados destes casos. Diante da inexistência de metodologia previamente definida e utilizada pelos demais entes públicos, o ISP considera inviável avaliar a estatística do Fogo Cruzado.
Já a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco diz que os índices oficiais de criminalidade seguem em queda desde o início da atual gestão, com a implantação do programa Juntos pela Segurança. O ano de 2025 terminou com redução de 10,54% nos registros de mortes violentas intencionais com motivação de disputa por território e mercado. Foram 256 crimes em 2024 e 229 em 2025. As mortes violentas intencionais com uso de arma de fogo tiveram o menor número desde 2019, com 2.415 homicídios, sendo 155 contra crianças e adolescentes. Em 2024, haviam sido 2.770, sendo 175 contra menores.
A reportagem entrou em contato com os governos de Bahia e Pará, mas ainda não obteve retorno. Também procurou o governo federal, através do Ministério da Justiça e Defesa da Cidadania e aguarda retorno.
Operação mais letal do Rio de Janeiro deixou 122 mortos no ano passado. Foto: Pedro Kirilos/Estadão
Um terço desses confrontos ocorreu durante ações policiais. O total geral de confrontos caiu 14%, mas houve alta de 15% no total de tiroteios em disputas territoriais entre grupos armados, na comparação com 2024. Também aumentou em 11% o número de vítimas de balas perdidas.
Já o número de mortos em mega operações policiais deu um salto de 50% em 2025, em relação ao ano anterior. Para o instituto, o dado evidencia que o Estado segue entre os principais motores da violência que deveria combater.
Só no Rio, de 2021 a 2015, foram cinco grandes chacinas em ações policiais, com 201 mortes. O estudo destaca a Operação Contenção, realizada pelo governo fluminense no fim de outubro passado para cumprir 100 mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho nas favelas da Penha e do Alemão. A operação entrou para a história como a mais letal do Rio de Janeiro e do País, com 122 mortos, cinco deles policiais, superando o massacre do Carandiru, em 1992.
O estudo aponta ainda que a resposta da facção evidenciou sua capacidade de articulação e controle territorial: centenas de ruas e avenidas fechadas com barricadas em chamas, ônibus sequestrados, tiroteios nas regiões dominadas pela facção e drones lançando bombas.
O relatório mostra um crescimento significativo nos dados relacionados às chacinas policiais — episódios em que três ou mais civis são mortos durante uma ação policial – nas regiões estudadas. Foram 62 chacinas em ações policiais em 2025, um crescimento de 24% em relação ao ano anterior. Já os mortos em chacinas policiais dispararam 101%: 346 em 2025, contra 172 em 2024.
Para Cecília Olliveira, diretora executiva do Fogo Cruzado, as disputas armadas e chacinas policiais expõem o dilema da segurança no Brasil. “São dados de uma mesma moeda: as facções e milícias não param de crescer. O Estado investe na mesma política há 30 anos, não desarticula esses grupos nem promove segurança — mesmo com a crescente letalidade policial. Não tem como esperar um resultado diferente quando insistimos na mesma estratégia que sabemos que não dá resultado.”
Conforme a pesquisadora, a segurança baseada apenas na força policial contribui para o alto número de tiroteios, coloca a população na linha de tiro, interfere no funcionamento de escolas e unidades de saúde — e não muda nada no tabuleiro do crime. “Estes grupos estão dominando mais áreas, subjugando mais pessoas e ganhando cada vez mais dinheiro e mais poder — especialmente importante em anos eleitorais, como o que temos pela frente”, afirma.
Refino de cocaína
No plano federal, o balanço de 2025 do instituto aponta para avanços insuficientes para conter a escalada do crime organizado. Os dados indicam que o Brasil deixou de ser apenas mercado consumidor e corredor de exportação para se tornar centro relevante de refino de cocaína. Essa descentralização produtiva é característica de mercados sofisticados, revelando um narcotráfico cada vez mais organizado e eficiente.
“O crime é transnacional, mas a resposta segue fragmentada. Sem liderança federal, os Estados repetem erros e os grupos armados se aproveitam da ausência de política pública para prosseguir sua marcha expansionista”, diz Cecília.
Dados de 57 municípios
Os dados do relatório foram mapeados durante todo o ano de 2025, nas quatro regiões metropolitanas onde o instituto atua. São informações de 57 municípios com população total de 22 milhões de pessoas. O monitoramento simultâneo dessas áreas permite identificar padrões recorrentes no uso da força policial, bem como compreender a dimensão dos conflitos no cotidiano urbano.
O Fogo Cruzado usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada. O laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, Recife, Salvador e Belém.
O estudo analisa a violência por região:
Grande Rio: disputas territoriais batem recorde
Em 2025, a região metropolitana do Rio de Janeiro registrou o maior número de tiroteios motivados por disputas territoriais desde o início do monitoramento do Fogo Cruzado, em 2017. Foram 275 confrontos entre facções e milícias na região metropolitana, alta de 26% em relação a 2024. Esses tiroteios resultaram em ao menos 180 pessoas baleadas e transformaram bairros inteiros em territórios submetidos à violência armada recorrente, com impactos diretos sobre a população e o funcionamento de serviços essenciais.
Apesar da redução no número de tiroteios no total, foi em 2025 a maior proporção de tiroteios durante ações policiais na série histórica, com 39%. Ao menos 1.104 unidades de ensino e 1.149 unidades de saúde tiveram a rotina interrompida ao longo do ano devido à violência armada.
De 2021 a 2025, o Rio registrou cinco grandes chacinas policiais com 201 mortes. São elas: chacina do Jacarezinho (maio de 2021), com 27 mortes; Complexo da Penha (maio de 2022), com 23 mortes; Complexo do Alemão (junho de 2022), com 16 mortes; Complexo do Salgueiro (março de 2023), com 13 morte; e Complexos da Penha e Alemão (outubro de 2025, com 122 mortes.
Pernambuco: disputas rompem padrão histórico
Em Pernambuco, os dados de 2025 revelam uma mudança no padrão da violência armada. O estado, que historicamente registrava poucos conflitos territoriais, contabilizou 46 tiroteios motivados por disputas entre grupos armados na região metropolitana do Recife, representando um aumento de 650% em relação a 2024. Sete municípios foram afetados, evidenciando que os confrontos deixaram de ser episódios pontuais.
Em março daquele ano, no show de João Gomes, durante o carnaval de Olinda, um tiroteio deixou sete pessoas feridas por bala perdida na Praça do Carmo, coração da cidade histórica e palco de um dos maiores carnavais do Brasil.
O estudo destaca a violência histórica contra os mais jovens: 883 casos de jovens entre 0 e 17 anos baleados desde 2019. Em 2025 o número de crianças e adolescentes baleados atingiu o recorde da série histórica, com 148 baleados, resultando em 97 mortes.
Bahia: liderança em letalidade policial
Na Bahia, onde a polícia lidera os índices nacionais de letalidade, a escalada da violência armada ocorre em um cenário de forte presença policial e conflitos territoriais entre grupos armados persistentes. Do total de tiroteios registrados no ano, 44% aconteceram em ações ou operações policiais. A polícia baiana esteve envolvida ainda em 95 mortes em contexto de chacina em 2025, representando um aumento de 73% em relação a 2024, quando foram registradas 55 mortes.
Em 2022, a Bahia ultrapassou o Rio em números absolutos de vítimas da letalidade policial. Desde então, é o estado com a polícia mais letal do Brasil. Em quatro anos, a polícia baiana foi responsável por mais de 6.200 mortes em todo o estado.
Em março de 2025, uma das vítimas foi a dentista Larissa Azevedo Pinheiro, jovem de 28 anos alvejada por uma bala perdida quando estava na garupa de uma moto, a caminho do trabalho, na principal avenida da capital baiana, a Paralela. O projétil que a atingiu partiu do fuzil de policiais que faziam uma perseguição.
Pará: expansão das disputas na Amazônia urbana
No Pará, os registros de ataques armados sobre rodas – quando ocupantes de um carro abrem fogo contra alvos – evidenciam o avanço das disputas entre grupos armados em uma região estratégica para o tráfico de drogas e outras economias ilícitas. Em 2025, a região metropolitana de Belém registrou 43 episódios de violência armada relacionados a esses conflitos.
Dos 542 tiroteios mapeados na região metropolitana de Belém, 46% dos registros ocorreram durante ações policiais — o maior índice entre os quatro estados monitorados pelo Instituto Fogo Cruzado, superando o Rio de Janeiro (39%) e a Bahia (44%).
A pesquisa “Floresta em Pó” — feita pelo instituto com outros parceiros — mostra que o Brasil deixou de ocupar apenas o papel de corredor da cocaína produzida nos países andinos e passou a desempenhar uma função estratégica mais central na cadeia do tráfico internacional. O país se consolidou como um dos principais polos de refino da droga, agregando valor ao produto antes de sua exportação.
Belém ocupa uma posição estratégica nessa nova dinâmica do tráfico por funcionar como ponto de escoamento da cocaína que percorre a rota amazônica. Depois de entrar no país pela fronteira e seguir pelos rios Solimões e Amazonas, a droga chega ao Pará e encontra na capital uma estrutura portuária integrada às rotas internacionais. Essa posição logística transforma a cidade em peça-chave da cadeia global do narcotráfico e amplia os impactos locais da presença das facções, que disputam o controle de corredores fluviais, áreas portuárias e territórios periféricos.
Total de confrontos nas 4 regiões:
- 5.846 tiroteios
- 5.465 pessoas baleadas
- 3.781 mortos
- 1.684 feridos
Números de confrontos por Estado
Rio de Janeiro (Grande Rio):
- 71 bairros afetados
- 275 tiroteios em disputa territorial
- 47 ataques armados sobre rodas
Bahia (Região Metropolitana de Salvador):
- 54 bairros afetados
- 124 tiroteios em disputa territorial
- 24 ataques armados sobre rodas
Pernambuco (Região Metropolitana do Recife):
- 37 bairros afetados
- 46 tiroteios em disputa territorial
- 07 ataques armados sobre rodas
Pará (Região Metropolitana de Belém):
- 43 ataques armados sobre rodas



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