O casamento de Pelé e Rose numa manhã de carnaval em 1966. Nervoso, noivo pediu água com açúcar
Capa do Jornal da Tarde de 21 de fevereiro de 1966 com foto de Pelé brincando o carnaval na véspera do seu casamento com Rosemeri Cholbi. Foto: Acervo Estadão
A cerimônia de casamento de Pelé e Rose em 1966 era uma notícia de peso em qualquer jornal naquele ano. O maior jogador da história do futebol já era bicampeão mundial de clubes pelo Santos e pela seleção brasileira e, aos 25 anos, tentaria o tri na Copa do Mundo da Inglaterra no meio do ano. Para o Jornal da Tarde, a notícia era ainda mais especial. Foi o jornal quem em seu primeiro número, em 4 de janeiro, deu o furo (notícia exclusiva antes dos veículos concorrentes) de que Pelé iria se casar no carnaval.
No dia do casamento, uma segunda-feira de carnaval, a capa do Jornal da Tarde foi dedicada inteira ao assunto, com a manchete “PELÉ CASA ESTA MANHÔ, uma foto do jogador de costas, chapéu, camisa listrada e com os braços erguidos sobre a legenda:
“Ontem de madrugada Pelé brincou pela última vez sozinho no carnaval do Santos. Casa-se hoje de manhã e à tarde leva à Europa a espôsa Rosemere.”
Leia abaixo a íntegra do texto publicado no jornal O Estado de S. Paulo (Estadão), publicação mãe do Jornal da Tarde, que noticiou em detalhes como foi a cerimônia na casa do jogador, em Santos.
Pelé e Rosemeri Cholbi no casamento em Santos. Foto: Acervo Estadão
O Estado de S. Paulo – 22 de fevereiro de 1966
Notícia com detalhes da cerimônia de casamento de Pelé e Rose. Foto: Acervo Estadão
Pelé casou de manhã
Pelé casou ontem, às 8 e 15, com a srta. Rosemere Cholbi. Tanto a cerimônia religiosa quanto a civil, nessa ordem e uma logo após a outra, tiveram no lugar na residência do jogador, onde também foi oferecida a recepção. Às 13 horas, os noivos e seus parentes mais chegados seguiram para Campinas. Às 17 horas, Pelé e sua esposa voavam para Frankfurt.
O CASAMENTO
Eram 8 e 15 da manhã e na sala grande da residência da família de Pelé havia 58 pessoas. Edson Arantes do Nascimento e sua noiva Rosemere Cholbi; Frei Henrique Maria de Pirassununga, da Paróquia do Embaré, d. Ambrosina, avó de Pelé, casal João Ramos do Nascimento (Dondinho) e Celeste Arantes do Nascimento, pais de Pelé; Maria Lucia e Jair (Zoca) irmão de Pelé; Jorge, João e Sonia Maria, respectivamente tio, primo e prima do jogador; José Osores Gonzales e senhora; Nicolau Moram e senhora; João Carlos Amador e senhora, e José Macia (Pepe) e senhora, todos padrinhos de casamento de Pelé e Rose; dezenove jornalistas e alguns amigos íntimos das famílias do noivos.
Frei Henrique Maria de Pirassununga, sacerdote de 45 anos de idade, que está na paróquia de Embaré há seis anos e gosta de fazer pregações contra o comunismo, começou a celebrar o casamento.
Os pais de Pelé, Dondinho e D. Celeste, e o dirigente santista Nicolau Moraes, com sua esposa, foram seus padrinhos na cerimônia religiosa. De Rose, foram padrinhos José Macias (Pepe) e senhora, e o sr. Guilherme Cholbi e d. Idalina Cholbi.
Pelé estava nervoso (pouco antes pedira um copo de água com áçúcar) e a noiva também. Ele não usou fraque; trajava terno azul-noite, de alpaca brilhante, um dos quatro que o alfaiate Wilson Canalongo lhe havia entregue no sábado à noite. Cada um dêles custou cento e oitenta mil cruzeiros.
CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE
Rose usou o vestido que sua mãe confeccionara: todo em renda francesa, forrada com cetim natural. A causa, também de cetim, com 4 metros de comprimento, tinha igualmente aplicações de renda. Do casquete, com tule e com rosas aplicadas, desciam três véus de tule de nailon. Na mão o buquê de rosas que o padrinho Pepe lhe dera. O vestido custou um milhão e oitocentos mil cruzeiros.
UM ALTAR SIMPLES
A sala grande da casa que era de Pelé e agora pertence aos seus pais e irmãos, é representada pelo conjunto de um “living” e de uma sala de visitas, ambos, bem decorados. Do outro lado da sala de visitas, sôbre um móvel de imbuia clara, dona Celeste e dona Idalina armaram um altar simples, com dois crucifixos dourados e uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida, da qual Pelé é fervoroso devoto. Muitas flores brancas, e rosas vermelhas, dispostas em vasos de cerâmica e de cristal, ornamentavam a sala.
A cerimônia religiosa, singela e tocante, foi realizada antes do ato civil devido à profunda crença de Pelé.
OUTRO ATO SIMPLES
Às 8 e 40, na grande área externa da residência, o juiz Antonio Carlos Maia oficiou o ato civil, e a cerimônia durou apenas 20 minutos. José Osores Conzales e senhora foram os padrinhos de Pelé, e João Carlos Amador e senhora, os padrinhos de Rose.
A área externa da casa da rua Almirante Cokrane fica entre a cozinha e a área destinada às empregadas. Mede 10 metros por 6 e é coberta com telhas vermelhas sustentadas por madeira envernizada. Lá estavam a mesa grande, com o bôlo branco – dois grandes corações enfeitados de rosas, sobre uma parte retangular – outras meses menores e a churrasqueira rústica que monopolizava as atenções de Dondinho e do tio Jorge.
ÓRGÃO EMPRESTADO
Para o casamento religioso, dona celeste notou, na tarde de sábado, que estava faltando algo. Algo que ajudasse no momento que ela julgava “mais difícil para as famílias dos noivos. E pensou na música de um órgão. Foi ao Colégio Santa Marcelina, bem próximo de sua casa, falou com irmã Maria Amalia, e esta se dispôs a emprestar o órgão do Colégio e também a executar a ”Marcha Nupcial” e outras músicas adequadas, durante a cerimônia religiosa.
RECEPÇÃO AMIGA
As famílias de Pelé e Rose deram excelente acolhida aos jornalistas, locutores e fotógrafos que trabalharam na cobertura das cerimônias realizadas ontem.
PRÊMIO ESSO
A revelação de que Pelé iria se casar e a cobertura do enlace rendeu ao Jornal da Tarde um Prêmio Esso de jornalismo, na categoria equipe, naquele ano.
Notícia do casamento de Pelé na capa da primeira edição do Jornal da Tarde em 4 de janeiro de 1966. Foto: Acervo Estadão
JORNAL DA TARDE
Por 46 anos [de 4 de janeiro de 1966 a 31 de outubro de 2012] o Jornal da Tarde deixou sua marca na imprensa brasileira.
Neste blog são mostradas algumas das capas e páginas marcantes dessa publicação do Grupo Estado que protagonizou uma história de inovações gráficas e de linguagem no jornalismo. Um exemplo é a histórica capa do menino chorando após a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982, na Espanha.



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