Resgate no Pico Paraná: Estava escuro, ele pensou que fosse fundo e pulou, diz irmã de sobrevivente
Jovem que estava desaparecido no Pico Paraná chega caminhando sozinho a fazenda
Roberto Farias andou por dias pela mata até chegar a uma fazenda em Antonina, litoral paranaense; os bombeiros foram acionados para atendimento.
O jovem Roberto Farias de Tomaz, encontrado vivo após quatro dias perdido no Pico Paraná, conseguiu sair da área de montanha depois de saltar de uma cachoeira de cerca de 20 metros de altura em uma decisão movida a “desespero”, segundo relatou à sua irmã.
“Ele disse que estava escuro, mas imaginou que fosse fundo. Falou que pedia toda hora proteção. Dizia: ‘Deus me protege’. E pulou. Na correnteza, perdeu a bota, se machucou bastante, mas conseguiu se segurar numa pedra”, relatou Renata Farias de Tomaz. irmã de Roberto, ao Estadão,

Roberto Farias Thomaz, que estava desaparecido havia cinco dias, foi encontrado com vida pelo Corpo de Bombeiros Foto: Secretaria de Saúde do Paraná/Divulgação
O que aconteceu
Roberto subiu o Pico Paraná no dia 31 de dezembro, acompanhado de uma amiga, com a intenção de ver o nascer do sol no primeiro dia do ano. Após chegarem ao cume, o ponto mais alto da montanha, o grupo iniciou a descida na manhã de 1º de janeiro. Em determinado ponto do trajeto, o jovem foi abandonado pela amiga e se perdeu de outros trilheiros, seguindo uma sinalização equivocada, o que o levou para fora da trilha principal.
Segundo relato feito à família, ele escorregou em um trecho íngreme e não conseguiu mais retornar. A partir desse momento, passou a descer pela encosta, entrando em uma área de mata fechada e extremamente acidentada, fora do traçado usual das trilhas.
“Depois de uma descida, tinha um lugar com sinalização, e ele seguiu o lado errado. Foi ali que ele escorregou e não conseguiu mais subir”, contou Renata.

Roberto Farias Tomaz se perdeu no dia 1º de janeiro e encontrou uma fazenda só no dia 5 Foto: Reprodução/Redes Sociais
“É impossível, e ele saltou”
Ao seguir pela encosta, Roberto encontrou o leito do Rio Cacatu, ainda na parte superior da montanha. Sem conseguir voltar nem referência de trilha, acompanhou o curso do rio. Pouco depois, chegou à cachoeira de aproximadamente 20 metros de altura.
Segundo o Corpo de Bombeiros, esse ponto é conhecido por representar uma barreira natural: pessoas perdidas costumam parar ali, sem conseguir avançar, e equipes de resgate normalmente encerram a progressão naquele trecho devido ao risco extremo.
“Chegamos nessa cachoeira por rapel, usando cordas, porque o terreno é muito íngreme. Pessoas chegam na cachoeira e não conseguem transpor. É impossível, e ele saltou”, explicou o tenente-coronel Ícaro Gabriel, comandante do Grupo de Operações de Socorro Tático, que coordenou as buscas no ponto mais alto do Sul do País, com 1.887 metros. “Ele informou que pulou nela, se bateu na correnteza e perdeu os óculos e os tênis. Teve muita sorte mesmo de não ter se afogado ali.”
Depois do salto, Roberto seguiu o leito do Rio Cacatu. Em alguns trechos, a água estava cheia devido às chuvas, o que fez com que ele fosse arrastado por vários quilômetros. Isso acelerou o deslocamento para fora da área de montanha.
“Na verdade, ele conseguiu ir tão longe assim por conta dessa água que o arrastou ele por vários quilômetros”, afirmou o comandante.
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Irmã publica vídeo com Roberto Farias Thomaz, resgatado após cinco dias. Crédito: @renata.cwbotasepi/Instagram
Caminhada por dias e mais de 20 quilômetros
As equipes de buscas estimam que Roberto percorreu mais de 20 quilômetros em linha reta, mas a distância real pode ser bem maior, já que o trajeto seguiu curvas do rio e trechos de difícil progressão, com pedras escorregadias e desníveis constantes. “É um rio de pedras que não é navegável. Não é fundo, mas tem trechos fundos. Porém, estava bem cheio por conta das chuvas”, acrescentou Gabriel.
A operação de resgate reuniu 100 bombeiros, 300 voluntários, cães, drones e helicópteros. Roberto, porém, relatou ter ouvido a aeronave apenas no primeiro dia, quando ainda estava acima da cachoeira. “Ele disse que gritou por ajuda, mas depois não escutou mais nada. Nem apito, nem gente, nada”, contou a irmã.
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Montanha na Serra do Mar paranaense é o ponto mais alto do Sul do Brasil. Crédito: Corpo de Bombeiros do Paraná
Planejamento de busca coincidia com saída da mata
No momento em que Roberto chegou à fazenda, na região de Antonina, o Corpo de Bombeiros se preparava para iniciar justamente a expansão das buscas a partir do litoral, subindo o Rio Cacatu – hipótese considerada menos provável, mas que já estava no planejamento.
Imagens registradas por câmeras de segurança da CGH (Central Geradora Hidrelétrica) Cacatu mostram que Roberto chegou sozinho à fazenda, foi acolhido e entrou em contato com a irmã. Ele foi encaminhado a um hospital de Antonina. “Ele está todo roxo, magro, cheio de picadas de bichos. Mas, de modo geral, está bem, sabe?”, avaliou Renata.
Segundo a Secretaria da Saúde do Paraná, o rapaz chegou lúcido ao hospital, com sinais de desidratação leve, hematomas em membros inferiores e assaduras na região inguinal.


