×

“Sedução algorítmica” substitui reputação e ética no atual momento dos influenciadores

“Sedução algorítmica” substitui reputação e ética no atual momento dos influenciadores

A reputação sempre foi o ativo mais valioso de um comunicador. É ela que valida o seu trabalho perante a sociedade e lhe garante um público fiel. Mas, de uns 15 anos para cá, ela vem perdendo lugar para uma “sedução algorítmica”, que permite todo tipo de desvio e abuso nas redes sociais.

Construo minha carreira há mais de 30 anos sobre pilares do bom jornalismo, como ética, foco nos interesses do público, apuração cuidadosa, humanismo e olhar além das obviedades da vida. A minha reputação é inegociável, por isso essa “virada digital” que ignora tudo me preocupa muito.

As redes sociais normalizaram publicações descuidadas, manipuladoras e até antiéticas com a perigosa falácia da “liberdade de expressão”.

O ponto de inflexão ocorreu quando essas plataformas passaram a premiar volume e engajamento acima da consistência e da responsabilidade. O público fiel deu lugar a uma massa de seguidores voláteis, com os algoritmos valorizando emoções primárias em detrimento da informação precisa, da análise equilibrada ou do conteúdo reflexivo.

A reputação exige tempo e memória coletiva, o que a torna um obstáculo que freia exageros e cobra coerência. Já a manipulação emocional opera no curto prazo, permitindo mentir, espalhar conspirações e atacar adversários desonestamente.

Esse modelo corrói o espaço público saudável. Sem a reputação, a confiança coletiva se fragiliza, criando um público que consome apenas o que confirma suas emoções, em uma sociedade surda ao contraditório e vulnerável a qualquer discurso inflamatório.

O algoritmo não avalia caráter, histórico ou compromisso público. Qualquer um constrói autoridade comprando seguidores ou manipulando métricas. Câmaras de eco reforçam a audiência sem contestação, gerando ídolos de barro com números gigantescos, mas sem nenhuma responsabilidade social.

Influenciadores que tentam manter padrões éticos alcançam menos gente e ganham menos dinheiro. O sistema foi desenhado para recompensar o sucesso meteórico a qualquer custo, punindo quem ousa ser ponderado em um ambiente de histeria.

Essa dinâmica massacra o indivíduo, a sociedade e a própria democracia. Vemos o aumento da ansiedade e da radicalização, a fragmentação do tecido social e a inviabilidade do debate público racional. Sem uma base comum de realidade, somos presas fáceis de populismos digitais que exploram nossas fraquezas.

Ainda há esperança de reverter esse quadro para que a ética e a busca pela verdade superem a manipulação. Esse movimento começa na frente educacional, com um letramento midiático crítico e uma educação digital que ensine as pessoas a identificar quando estão sendo manipuladas por gatilhos emocionais.

A solução exige leis fortes, com responsabilização das plataformas e transparência algorítmica. Necessitamos também de uma tecnologia focada em rastreabilidade e autenticidade, garantindo a origem da informação e permitindo ao usuário distinguir o que é fato apurado do que é ruído fabricado.

Em um mundo onde a inteligência artificial gera texto infinito, a curadoria humana e a reputação podem se tornar diferenciais, verdadeiros artigos de luxo. Mas tudo isso enfrenta resistência brutal das big techs que lucram com o caos, de políticos que surfam na polarização e até de parte do público. Infelizmente, muitos confiam mais em influenciadores sem credenciais do que na imprensa profissional, preferindo a mentira confortável à verdade complexa.

Quanto mais esse sistema opera, mais se normaliza. Há uma janela de oportunidade para o resgate da ética, mas ela não ficará aberta indefinidamente. A esperança existe, mas ela exige de todos nós pressão política e resistência pessoal aos incentivos perversos dos algoritmos.


Vídeo relacionado:

 

Share this content: