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‘Sociedade não aboliu legítima defesa da honra’, diz criadora de 1ª delegacia de feminicídio do País

‘Sociedade não aboliu legítima defesa da honra’, diz criadora de 1ª delegacia de feminicídio do País

*Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher, violência doméstica e estupro. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.

Na visão dela, o combate depende de uma atuação mais ativa dos homens em criar ambientes seguros para as mulheres e em refletir sobre masculinidade.

A delegada também defende como essencial uma ocupação igualitária de homens e mulheres em cargos de poder, seja no ambiente público ou na iniciativa privada.

“Aumentar a pena não inibe o feminicídio, porque tem algo que está acima disso, que é a honra masculina. A sociedade não aboliu a legítima defesa da honra“, afirma em entrevista ao Estadão.

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A delegada lembra a decisão unânime do Supremo Tribunal Federal, em 2023, pela inconstitucionalidade da legítima defesa da honra.

Antes, homens que assassinavam ou agrediam suas companheiras usavam o argumento em tribunais do júri para justificar a violência e aliviar a condenação — ou, até mesmo, absolver.

O discurso usado era que o crime era uma “reação legítima” motivada, por exemplo, pela suspeita de traição.

Apesar da mudança jurídica, Eugênia avalia que a mentalidade segue presente na sociedade brasileira.

“É preciso fazer a sociedade refletir — especialmente os homens. As instituições, sejam escolas, igrejas, empresas ou instituições públicas, precisam criar grupos de discussões e reflexões sobre machismo.”

Em caso de ameaça, a delegada afirma que o homem precisa passar obrigatoriamente por terapia e psiquiatria para tratar o comportamento agressivo antes de a violência se concretizar. “Não podemos apostar todas as fichas na polícia e na Justiça. Precisamos prevenir.”

Eugênia destaca que os homens precisam ser mais engajados no combate ao feminicídio. “Nós, mulheres, já sofremos a violência. Quando estamos num relacionamento abusivo, tóxico, não damos conta disso. A gente não consegue visualizar. Ninguém espera que aquele homem venha nos matar. Por isso, perdemos muitas mulheres.”

Por isso, diz, é necessário que as pessoas ao redor intervenham, conversando com a vítima e buscando ajuda para ela. O Ligue 180, para denúncias de suspeitas, é confidencial e está disponível 24h por dia, todos os dias.

No ano passado, o Piauí registrou 38 feminicídios, dois a menos que no ano anterior. No Estado de São Paulo, para comparação, houve recorde de casos. Foram 270 ocorrências em 2025, frente a 246 em 2024.

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“Decidi investigar a violência de gênero quando me deparei com o caso de um homem que cortou a orelha da mulher porque ela o havia traído”, conta Eugênia.

O caso aconteceu em 2002. Quando o marido descobriu a traição, lembra a delegada, ele afirmou que só perdoaria a companheira caso aplicasse um castigo nela. “Como assim uma mulher se acha merecedora de um castigo? Isso não é razoável. Fiquei perplexa. Não aprendi sobre casos assim na Faculdade de Direito nem na Academia de Polícia.”

A falta de protocolos sobre como investigar a violência de gênero fez Eugênia começar a pesquisar sobre o tema.

A dissertação de seu mestrado e a tese de seu doutorado são justamente sobre como a polícia e o Judiciário lidavam com o crime e quais práticas internacionais poderiam ser implementadas no País.

“Quando comecei a pesquisar, em 2002, não tinha Lei Maria da Penha, que é de 2006. Tivemos de estudar com profundidade o arcabouço jurídico que não existia no Brasil.”

Em 2015, Eugênia ocupou interinamente o cargo de secretária de Segurança Pública do Piauí e aproveitou a oportunidade para implementar sua pesquisa acadêmica. “Eu precisava deixar um legado. Aí pensei: vou criar uma delegacia de feminicídio. Nem existia ainda o tipo penal.”

O Núcleo Policial Investigativo de Feminicídio, que incluia um grupo de estudos e pesquisas sobre o tema, foi criado em 2 de março daquele ano. Pouco depois, em 8 de março, no Dia Internacional da Mulher, foi assinada a sanção da lei que tipificou o crime de feminicídio – quando há o assassinato de uma mulher por razões que envolver ela ser do sexo feminino (como violência doméstica ou discriminação e menosprezo à mulher).

“Todo assassinato de mulher temos de investigar sob a perspectiva de gênero. E só depois, se for o caso, mudar — ‘olha, realmente, não foi um feminicídio, foi um latrocínio’”, diz a delegada. “É preciso ensinar a sensibilidade sobre as relações de poder e abuso entre os gêneros aos policiais.”

Ao criar o núcleo investigativo de feminicídios, a delegada previu uma formação para todos os agentes de segurança pública (bombeiros, policiais civis ou militares) sobre como conduzir procedimentos que envolvessem vítimas de violência de gênero.

A Delegacia Especializada em Feminicídio, como passou a se chamar o núcleo, fica em Teresina. Apesar de ser apenas uma unidade, que fica na capital, todos os casos ou tentativas de homicídios de mulheres no Estado são investigados ali, seguindo o protocolo específico.

Ela justifica a necessidade disso lembrando um dos casos com que lidou: “O agressor matou a atual namorada da ex dele, pegou o cadáver dela e fez sexo. Mas o juiz não viu relação de gênero e os jurados absolveram o autor”.

Ao realizar a perícia de uma casa, por exemplo, o protocolo determina que se verifique se há sinais de entrada forçada em cômodos (como danos a portas ou dobradiças) ou indícios de o local ser usado como cárcere privado (como falta de janelas, trancas externas e amarras).

Já no laudo cadavérico, é necessário observar se há lesões antigas, machucados em áreas íntimas e ferimentos compatíveis com amarras ou mordaça.

“Até hoje, a polícia ainda não está acostumada com as relações de poder que demonstram menosprezo e discriminação às mulheres. Isso precisa ser considerado desde o laudo cadavérico e a perícia no local do crime à coleta de informações e depoimentos.”

Um relatório de 2017 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública sobre práticas inovadoras de enfrentamento à violência de gênero destaca a experiência no Piauí. “O núcleo pautou mudanças substantivas na abordagem da investigação do feminicídio no Estado”, aponta o levantamento.

Já naquele ano, o Piauí tinha um aplicativo de celular (Salve Maria) com botão de emergência para denunciar a violência de gênero, com geolocalização para envio imediato de viatura.

“O Piauí falou para o Brasil o que era o feminicídio, mas o Brasil ainda não aprendeu a lição.”

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