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Pressionados a usar a IA, profissionais sem preparo veem queda na qualidade de suas entregas

Pressionados a usar a IA, profissionais sem preparo veem queda na qualidade de suas entregas

 Pressionados a usar a IA, profissionais sem preparo veem queda na qualidade de suas entregas

Pressão por resultados, mau preparo e medo de perder o emprego têm feito profissionais usarem mal a IA – Ilustração: Paulo Silvestre
 

Poucos dias depois do 1º de maio, o mundo do trabalho merecia notícias melhores. Mas infelizmente as empresas continuam demitindo aos milhares ao redor do globo. Os gestores põem a culpa na inteligência artificial, porém a tecnologia pode ser apenas um bode expiatório.

A IA também impacta profissionais que não perdem seu emprego, mas que estão sendo pressionados por suas lideranças para usar essas plataformas sem terem formação ou sequer treinamento adequado. O resultado é que, em nome da velocidade e do volume, o mercado começa a observar uma sensível queda na qualidade das entregas.

Há um terceiro aspecto, talvez o mais perigoso a longo prazo, decorrente de maus usos da IA generativa. Graças à sua incrível interface conversacional e à aparente (porém falsa) capacidade de responder corretamente a qualquer coisa que lhe seja perguntada, vemos mais pessoas usando essa tecnologia para atividades prosaicas, as quais seriam perfeitamente capazes de executar sem ajuda.

Os números são colossais. Nos últimos dias, a Meta (dona do WhatsApp, Facebook e Instagram) anunciou o corte de 10% de seus quadros (algo como 8.000 pessoas), além de eliminar cerca de 6.000 vagas. A Microsoft, por sua vez, abriu um programa de demissão voluntária para 7% de suas equipes nos EUA, outros 8.000 profissionais. E não se pode esquecer dos 16 mil desligamentos da Amazon e dos 30 mil da Oracle ao redor do mundo nos últimos meses.

Ao mesmo tempo, a Meta quer investir entre US$ 115 bilhões e US$ 135 bilhões em IA neste ano, o dobro de 2025. Já a Microsoft deve investir cerca de US$ 190 bilhões na tecnologia, 61% a mais que no ano anterior.

Há algo um tanto distópico na utopia de um recurso revolucionário que continua prometendo transformar positivamente vidas e negócios. E a culpa não é da IA.

O assunto ganhou destaque na palestra de abertura da Conferência Gartner Data & Analytics, que aconteceu em São Paulo, nos dias 28 e 29 de abril. “O Gartner estima que apenas 1% a 2% dos cortes de empregos anunciados são, de fato, atribuíveis à IA”, afirmou Sarah James, diretora analista sênior da consultoria. “É apenas uma narrativa sendo usada por alguns para justificar jogar pessoas ao mar.”

“Só 6% dos líderes de IA consideram que sua organização está totalmente pronta para a IA no que diz respeito a pessoas, habilidades e gestão de mudanças”, acrescentou Gareth Herschel, vice-presidente analista do Gartner. Isso desmonta a narrativa de maturidade que o mercado costuma vender.

As capacidades da IA crescem exponencialmente, partindo de uma base já bastante alta. As pessoas, por outro lado, avançam de forma linear. Esperar que elas simplesmente se apropriem, por sua conta, dessa tecnologia e a usem criativa, segura, produtiva e eticamente torna-se cada vez mais uma miragem empresarial.

Pelo contrário, a pressão por resultados majorados pela IA, a falta de preparo e o medo de perder o emprego têm feito com que profissionais a abracem de forma atabalhoada. Disso resultam entregas com erros graves e pessoas com autoestima e confiança profissional em frangalhos.

“Eu sei que isso parece muito trabalho, mas, sinceramente, se você está investindo em IA sem investir nas suas pessoas, você está jogando dinheiro fora” decretou James. “Se você quer uma organização pronta para a IA, precisa de pessoas prontas para a IA.”

Parece óbvio, mas a lógica capitalista sempre privilegia o lucro. E essa tecnologia infelizmente se presta a justificar decisões corporativas que demonstram imaturidade e até irresponsabilidade.

O Gartner indicou que apenas 1% das pessoas demitidas “por causa da IA” no primeiro semestre de 2025 passaram por isso depois que ela havia efetivamente trazido resultados. Os demais perderam o emprego por expectativas que talvez nunca se materializem. A consultoria sugere que metade acabará sendo recontratada até 2027, ainda que em outras funções.

As big techs, muitas das quais criam essa tecnologia, devem saber disso tudo muito bem, ou pelo menos muito melhor que a maioria dos mortais. Porém, ao adotar essas posturas, promovem uma grande deseducação do mercado pelo exemplo.

Portanto, o verdadeiro risco é cultural, não técnico. Empresas que não investirem mais em pessoas acabarão ficando para trás, não importa quão boa seja a sua tecnologia.

Como disse James, “precisamos reconhecer que ‘IA primeiro’ não significa ‘pessoas por último'”.


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