Ginecologista de 81 anos é preso por estupro de paciente em trabalho de parto e solto um dia depois
O ginecologista Felipe Lucas, 81, foi preso em Curitiba por crimes sexuais denunciados por quatro pacientes, mas solto após um dia devido à prescrição do crime. Acusado de violação sexual mediante fraude, Lucas, ex-deputado e ex-prefeito, nega as acusações. A Justiça considerou o crime prescrito, mas investigações continuam. A defesa alega injustiça na prisão. O Conselho Regional de Medicina do Paraná investiga o caso, enquanto Lucas mantém inscrição regular na entidade.
Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher, violência doméstica e estupro. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.
A prisão do médico ginecologista Felipe Lucas, de 81 anos, acusado de crimes sexuais durante atendimentos por quatro pacientes, durou um dia. Preso em Curitiba (PR) na quarta-feira, 6, ele foi solto no dia seguinte após decisão da Justiça. Felipe Lucas, que se tornou réu por violação sexual mediante fraude em um dos casos, também é ex-deputado estadual, além de ex-prefeito e ex-vereador de Irati, no interior do Paraná. A defesa dele nega as acusações.
O médico havia sido preso preventivamente por um caso que aconteceu em 2011, em Teixeira Soares (PR), cidade vizinha de Irati, mas que foi denunciado à Polícia Civil em abril deste ano após relatos de outras vítimas se tornarem públicos. Segundo a polícia, o crime aconteceu com a mulher em trabalho de parto. A vitima contou que o médico ficou cinco minutos passando a mão na parte externa da genitália dela durante um exame antes do parto. Felipe Lucas só teria parado após a entrada de uma enfermeira no local.
Na decisão em que mandou soltar o médico, à qual o Estadão teve acesso, o juiz substituto Felipe Vargas Coan, da Vara Criminal de Teixeira Soares, considera que o crime prescreveu. Como o ginecologista tem mais de 70 anos, o Código Penal prevê a redução do prazo de prescrição pela metade. O caso havia sido enquadrado como estupro de vulnerável pelo fato de que a vítima não poderia oferecer resistência. Ao aplicar a redução, o prazo de prescrição caiu de 20 anos para 10 anos.
Com isso, o juiz determinou também a extinção de punibilidade pelo crime — o que não impede essa investigação de corroborar outras apurações envolvendo o médico. O magistrado, inclusive, admite a possibilidade de continuidade delitiva por conta da investigação em andamento do primeiro caso denunciado à polícia, que aconteceu em fevereiro deste ano, em Irati. Porém, a decretação de uma nova medida contra o ginecologista depende de decisão da Justiça na comarca onde ocorreu o caso.
A primeira denúncia foi feita à polícia pela vítima sete dias após o crime. A mulher, de 24 anos, relatou aos policiais que o médico fez massagens íntimas nela durante um exame ginecológico de rotina sob alegação de que seria um estímulo da libido. Conforme a investigação, a vítima estava com o filho de 5 anos no consultório. O caso foi investigado e o médico se tornou réu pelo crime de violação sexual mediante fraude.

O médico ginecologista Felipe Lucas, investigado por crimes sexuais contra pacientes, em imagem do período em que foi deputado estadual no Paraná Foto: Sandro Nascimento/Alep
Além desse caso, a Polícia Civil em Irati investigou outras duas denúncias, de 2011 e 2016, que também foram feitas por mulheres depois que apurações envolvendo o médico foram divulgadas. Nas duas situações, os crimes estão prescritos. Os relatos dessas vítimas afirmam que Felipe Lucas realizou massagens e toques indevidos em partes íntimas, inclusive provocando dores.
Apesar da prescrição, o Estadão apurou que vítimas desses casos foram ouvidas pela investigação na apuração em que o médico é réu para fortalecer as provas e demonstrar um padrão de comportamento ao longo de décadas. Vítimas também afirmaram aos policiais que, para além do trauma do crime, tinham receio de denunciar o médico por conta da influência política dele.
Defesa do médico nega acusações
Procurada pela reportagem, a defesa do médico Felipe Lucas negou que ele tenha praticado “qualquer tipo de crime sexual ao longo de toda a sua carreira profissional”. O advogado também alega que calúnias feitas contra o médico serão objeto de medidas judiciais. “A defesa seguirá acompanhando o caso e adotará todas as medidas cabíveis para preservação da honra, da dignidade e das garantias constitucionais do Dr. Felipe Lucas”, afirmou.
Em relação à prisão, a defesa informou que desde o início considerava a medida como “injusta e desnecessária, tanto pelo fato do medico estar realizando a rotina de um parto, quanto porque os fatos investigados ocorreram há 15 anos”. “Ao final, a própria Justiça reconheceu que o Estado já não poderia mais aplicar qualquer punição no caso”, explicou.
O Estadão entrou em contato com o Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) para saber se o médico está sendo investigado pela entidade e se ele está exercendo a atividade profissional. No site do CRM-PR, a inscrição dele consta como regular. Uma fonte ouvida pela reportagem afirmou que a Justiça aceitou o pedido para que ele fosse afastado das funções feito pela polícia em Irati.
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Quem é o médico
A carreira na medicina levou o ginecologista Felipe Lucas à vida pública. Médico desde 1975, tendo se formado na Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná um ano antes, Felipe Lucas nasceu em Rio Azul, cidade do sudoeste do Estado, em dezembro de 1944.
Especializado em ginecologia e obstetrícia, ele foi homenageado pelo CRM-PR em 2024 com o “Jubileu de Ouro”, destinado a médicos que completam 50 anos de profissão.
Felipe Lucas começou a carreira política como vereador, entre 1989 e 1992, em Irati. Na eleição seguinte, o médico se candidatou e foi eleito prefeito do município, ocupando o cargo entre 1993 e 1996. Em 2000, disputou e perdeu a eleição para comandar o Executivo municipal novamente.
No começo dos anos 2000, Felipe Lucas passou a tentar uma cadeira na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). Pelo antigo PPS, assumiu como suplente entre os anos de 2003 e 2004. Depois, em 2006, elegeu-se deputado com mais de 31 mil votos. Na eleição seguinte, em 2010, ficou como terceiro suplente do partido, chegando a assumir uma vaga em 2014. Em 2020, tentou se eleger vice-prefeito de Irati, mas foi derrotado.



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