Argentinos se endividam para ver última Copa de Messi – 08/05/2026 – Esporte
Matias Celestino recita de cor, em ordem, todos os 18 jogos das eliminatórias que a seleção masculina de futebol da Argentina disputou rumo à Copa do Mundo deste ano. Ele esteve presente em todos eles, nove em casa e nove fora, atravessando o continente com seu tambor para torcer pela sua nação, a atual campeã mundial.
Agora, Celestino, de 43 anos, se prepara para o ápice dessa maratona: levar seu tambor, mas também sua esposa e filho, para os jogos da Argentina na Copa do Mundo nos Estados Unidos.
É o pior momento para ser um torcedor apaixonado da Argentina.
Os torcedores argentinos, para quem o futebol pode ser uma obsessão, sempre lotaram as Copas do Mundo aos milhares, proporcionando um cenário visual e sonoro nos torneios recentes no Brasil, na Rússia e no Qatar. Agora, eles se deparam com os preços de ingressos mais altos de todos os tempos para a Copa do Mundo deste ano nos Estados Unidos, no México e no Canadá.
Pela primeira vez na história de quase 100 anos do torneio, a Fifa, entidade que governa o futebol, adotou a precificação dinâmica, um modelo comum na América do Norte para passagens aéreas, shows e ingressos esportivos. Os custos para os torcedores das seleções mais populares dispararam para níveis impressionantes, partindo de preços iniciais que já eram várias vezes mais altos do que no Qatar, há quatro anos.
“É como se estivessem tentando fazer negócio com a nossa paixão”, disse Soledad Aldao, uma torcedora argentina de 35 anos, em um domingo recente, durante um churrasco organizado por torcedores em um parque de Buenos Aires.
Em meio à fumaça e ao aroma de carnes, cerca de 150 torcedores vestindo roupas da seleção se reuniram para um churrasco, compartilharam dicas para economizar e buscaram companheiros de viagem e colegas de quarto para suas idas aos Estados Unidos. Eles também lamentaram os preços dos ingressos, que têm atraído críticas e escrutínio de torcedores e políticos, e até motivaram reclamações judiciais.
Aldao, desenvolvedora de software, gastou US$ 700 (R$ 3,4 mil) em cada um dos dois ingressos da fase de grupos para ver a Argentina jogar contra Jordânia e Argélia —mais do que o triplo do que teriam custado há quatro anos e mais do que o salário médio mensal na Argentina. Desde então, os preços aumentaram ainda mais, com ingressos individuais ultrapassando US$ 800 (R$ 3,9 mil). Isso é o dobro do preço de ingressos equivalentes para jogos das outras seleções do grupo da Argentina: Argélia, Jordânia e Áustria.
E esses são apenas os preços oficiais. Em um site de revenda do qual a Fifa, uma organização sem fins lucrativos, fica com 30%, os preços sobem ainda mais. Um ingresso à venda para a final da Copa do Mundo, em 19 de julho, virou manchete depois que seu proprietário pediu mais de US$ 2 milhões (R$ 9,8 milhões). Os próprios preços da Fifa para a final já dispararam para mais de US$ 10 mil (R$ 49 mil) cerca de 10 vezes mais do que em 2022.
Nas Copas do Mundo anteriores, os torcedores pagavam os mesmos preços fixos para jogos equivalentes. A Fifa afirma que precisa da receita para financiar o desenvolvimento do futebol ao redor do mundo.
Os argentinos estão competindo por ingressos não apenas entre si, mas também com torcedores que querem ver um dos maiores jogadores da história, Lionel Messi, no que quase certamente será sua última Copa do Mundo.
Aldao estava entre os aproximadamente cinco milhões de argentinos que lotaram as ruas de Buenos Aires quando sua seleção, liderada por Messi, venceu a França há quatro anos para conquistar o que é amplamente considerado a melhor final da história do torneio. Ela decidiu então que precisava ir da próxima vez, custasse o que custasse. Ela está considerando vender seu carro para financiar mais ingressos. “É loucura, mas é um sonho para mim e é algo da nossa cultura”, disse.
A atração de estar em uma Copa do Mundo para os argentinos é visível a cada quatro anos, quando estádios e cidades são tomados por torcedores vestidos de azul e branco vindos da nação sul-americana.
“A Copa do Mundo é o único movimento que pode unir um país tão dividido quanto o nosso”, disse Celestino.
Para muitos argentinos, financiar viagens para o torneio raramente foi algo simples. A economia volátil da Argentina, com salários baixos e inflação disparada, frequentemente obriga as pessoas a trabalhar em dois ou até três empregos para sobreviver. A renda média mensal dos trabalhadores registrados é de cerca de US$ 1.200 (R$ 5,9 mil), e quase metade da força de trabalho atua na informalidade, muitas vezes ganhando menos.
Mas especialistas dizem que é precisamente por causa da história de instabilidade política e econômica da Argentina que o futebol serve como um pilar fundamental do orgulho nacional.
“Somos um país pobre, somos um país fracassado, mas somos os melhores torcedores”, disse Pablo Alabarces, sociólogo e autor de vários livros sobre futebol.
Alguns torcedores começam a economizar no final de uma Copa do Mundo para a próxima, enquanto outros comprometem recursos que não têm.
Mesmo com as finanças precárias, Celestino disse que sua esposa, Micaela, planeja pedir demissão do emprego de professora para ir à Copa do Mundo. O casal contraiu vários milhares de dólares em dívidas para financiar uma estadia de um mês nos Estados Unidos.
Celestino disse que já estourou o limite de vários cartões de crédito, fez uma rifa e pediu ajuda a amigos e vizinhos. Mas, como muitos outros, ele está esperando para comprar ingressos, na esperança de que os preços caiam mais perto dos jogos. A Argentina joga duas vezes em Dallas e uma vez em Kansas City, Missouri. “Estou esperando que apareça uma alma bondosa para me ajudar”, disse.
Ao longo dos anos, torcedores como Alejandro Solnicki desenvolveram truques para economizar. Em vez de comprar um voo direto para os Estados Unidos, Solnicki, 41 anos, funcionário de cassino, fará uma odisseia de cinco dias passando por São Paulo, Aruba e Charlotte, na Carolina do Norte, antes de chegar ao Missouri para o primeiro jogo. Ainda assim, ele pagou US$ 750 (R$ 3,7 mil) por ingresso para cada um dos três jogos da Argentina. “Gastamos o que for preciso porque somos fanáticos; não usamos a racionalidade”, disse.
Conforto não faz parte do cálculo. Solnicki disse que, em um jogo recente das eliminatórias na Colômbia, dividiu um quarto de hotel com uma cama com outras dez pessoas. “Dormimos todos sentados”, disse.
Alguns frequentadores assíduos de Copas do Mundo decidiram desistir —tanto em protesto quanto por necessidade. Rodrigo Diez, 36 anos, funcionário da alfândega, disse que esteve em três Copas do Mundo anteriores, onde pagou US$ 50 (no Brasil), US$ 70 (na Rússia) e US$ 70 (no Qatar), e não estava disposto a pagar preços que “não fazem sentido”.
“Ir lá seria como fazer o jogo deles, para que na próxima Copa do Mundo façam a mesma coisa de novo”, disse, e acrescentou: “Dá raiva que peguem algo que deveria ser para todos e transformem em algo que é só para poucos”.



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