Exclusivo: Em delação, mafioso italiano conta que PCC financiava 50% da cocaína enviada à Europa
‘Facção mais perigosa da América do Sul’
Nos 20 anos desde os ataques de maio de 2006, organização criminosa se tornou um dos mais importantes atores do tráfico internacional de cocaína. Crédito: Edição: Júlia Pereira
Era 28 de novembro de 2023 quando Vincenzo Pasquino foi retirado de uma cela na Penitenciária Federal de Brasília para começar a ser interrogado pelos procuradores italianos. Começava ali a mais importante delação ligada ao tráfico internacional no Brasil desde que Tommaso Buscetta resolveu contar os segredos da Cosa Nostra ao juiz Giovanni Falcone em uma cela da Polícia Federal em São Paulo, em outubro de 1983.
Vincenzo Pasquino, o mafioso que delatou o consórcio da ‘Ndrangheta com o PCC, foi preso pela PF em João Pessoa e levado para Brasília Foto: Reprodução / Polícia Federal
Pela primeira vez, um delator contava detalhes sobre a entrada do PCC no mundo do tráfico globalizado, dominando rotas por onde passaram toneladas de cocaína para Europa, África, Ásia e Oceania. Pasquino prestou depoimento durante três dias seguidos, conforme registrou a juíza de investigação preliminar Francesca Rosseti, ao decretar a prisão dos mafiosos na Operação Samba, que atingiu o consórcio da ’Ndrangheta com o PCC na Itália. Procurada, a defesa de Pasquino não se manifestou.
“Decidi tomar esse caminho da colaboração com a Justiça porque as pessoas nas quais eu confiava me abandonaram”, disse Pasquino aos procuradores. Seus depoimentos se estenderam por meses, até depois da extradição para a Itália, em março de 2024. Um dos últimos foi no começo deste ano, na 16.ª Vara Criminal Federal de João Pessoa (PB), no âmbito da Operação Conexão Paraíba, a face brasileira da Operação Samba, na Itália, ambas deflagradas em 10 de dezembro de 2024.
No dia 17 de maio de 2024, Pasquino contou como foram os encontros com o PCC em São Paulo para fechar o consórcio. “Integrantes de várias famílias (da ‘Ndrangheta) me pediam para trabalhar com eles. Era eu quem mantinha contato com o PCC.” Entre elas estavam os Nirtas, de San Luca, na Calábria. Mas era o seu grupo, o de Turim da ‘Ndrangheta, que tinha os contatos nos portos brasileiros e com os criminosos do País.
Criminosos ligados ao PCC tentaram embarcar 815 kg de cocaína no Porto de Santos, em fevereiro de 2025; a Receita Federal encontrou a droga escondida em um carregamento de café Foto: Receita Federal
Os Nirtas já operavam em Buenos Aires, na Argentina, e procuravam portos no Brasil para expansão. Foi quando enviaram a São Paulo os mafiosos Sebastiano Giampaolo, Ivano Piperissa, o Testa (Cabeça), e Giuseppe Vitale, o Tirchio (Pão-duro). Foi neste momento, em 2018, que Pasquino organizou a reunião deles com o PCC para fechar o acordo entre as duas organizações. Pelo pacto, cada um financiaria 50% de cada partida de droga para a Itália. Pasquino ficou responsável por trazer o dinheiro da Itália.
Preço mínimo da droga e ‘custo’ nos portos
Metade da cocaína do PCC que chegava ao porto Gioia Tauro, na Calábria, dominado pela ’Ndrangheta, era vendida na Itália pelo grupo de San Luca. O entorpecente era distribuído principalmente na Sicília e na região norte do país. Em Turim, a organização de Pasquino se encarregava do negócio.
“O PCC vendia para a gente a cocaína a € 5 mil o quilo, que se tornavam € 7,5 mil no preço de saída (por causa dos custos no portos). A parte do PCC na venda na Itália tinha o preço mínimo acordado de € 23 mil a € 25 mil”, revelou Pasquino.
O grupo de Pasquino e os Nirtas, representados pelo chefão Stefano Nirta, criaram uma equipe comum para recuperar a droga nos navios que chegavam em Gioia Tauro, o maior porto de contêineres do Mediterrâneo. Dele participava o grupo de Africo, representado pelo mafioso Rocco Morabito, com quem Pasquino foi preso na Paraíba, em 2021. Eles ainda forneciam drogas aos palermitanos, o grupo da Cosa Nostra, de Palermo, na Sicília. Pasquino descreveu dezenas de carregamentos de droga enviados à Itália e individualizou os mafiosos envolvidos.
Rocco Morabito e Vincenzo Pasquino foram presos em condomínio em João Pessoa, na Paraíba Foto: Polícia Federal
O Rio de Janeiro e o Comando Vermelho
Ele revelou ainda que a ‘Ndrangheta manteve ligações com a outra grande facção brasileira: o Comando Vermelho, mas que não chegou a um acordo com o CV. Seu contato no Rio se chamava Emanuel, alguém que saíra “recentemente da cadeia”. “Ele conhecia muitos milicianos e homens do CV, de Fernandinho Beira-Mar. Eu estive em uma reunião em uma favela, mas jamais trabalhei diretamente com o CV porque eles não me agradavam.”
Pasquino contou ter ficado surpreso com o ambiente encontrado na cidade do Rio de Janeiro. “Me espantou muito que, logo depois que entramos na favela, havia muitas pessoas com fuzis e com tornozeleiras eletrônicas saídas da cadeia, tudo isso debaixo dos olhos da polícia que olhava de longe, mas não podia ultrapassar o limite da favela.”
Dezenas de carregamentos de drogas
Já condenado por associação mafiosa na Itália (Operação Cérbero), Pasquino descreveu dezenas de carregamentos enviados ao seu país. Logo no primeiro depoimento tratou do envio de 440 quilos de cocaína para o porto de Málaga, na Espanha, que acabaram apreendidos em Livorno, na Itália.
Ele contou que o brasileiro Nicholas Charles Evangelista Lopes, o Loko, integrante do PCC, estava em Málaga para pegar a droga, ao lado de um grupo de italianos. O medo de serem pegos pela polícia espanhola fez com que os criminosos perdessem a oportunidade de apanhar a droga, que seguiu de navio para Livorno.
Nicholas era o enviado de Demétrio Batista de Oliveira, o Pateta ou Fantasma, acusado de ser um dos maiores narcotraficantes da América do Sul, associado ao PCC. Pasquino conta que o conheceu por intermédio de um italiano residente no Brasil, chamado Il Professore (O Professor).
Ataques do PCC completam 20 anos
Demétrio logo questionou se Pasquino dispunha de um veleiro que pudesse transportar um carregamento para a Espanha. “A droga não era nossa. Ela era do PCC. Nós devíamos pagar 20% (aos criminosos que controlavam o porto), mas eu pedi aos brasileiros 30%, de tal modo que 10% permanecessem com a gente”, contou.
O carregamento saiu de Itajaí (SC) em caixas de madeira e, na escala entre Málaga e Livorno, Il Professore, segundo Pasquino, o traiu, vendendo o carregamento a uma família rival da ‘Ndrangheta. Segundo ele, a prova disso é que a polícia italiana apreendeu apenas metade dos 440 quilos da droga. “Não sei dizer o que aconteceu com a outra metade, mas acredito que a tenham roubado”, disse.
Ameaças do PCC: ou paga ou morre
Por isso, Pasquino foi “convocado pelo PCC” para “trocar uma ideia”. Foi informado pelo tribunal do crime de que deveria responder pelo carregamento. O PCC pôs o “mafioso no prazo”, ou seja, concedeu-lhe um tempo para honrar a dívida, caso contrário, seria morto. Não foi a última vez que Pasquino teve de lidar com as ameaças de seus sócios. Dois anos depois, em 2021, ele viveu outro episódio.
Aos italianos, Pasquino contou que se filiou à ’Ndrangheta em 2011. Seu primeiro trabalho foi trazer haxixe da Espanha para a Itália. A partir de 2015, passou a ser o gerente do haxixe para sua ndrina, a família da ‘Ndrangheta de Volpiano, no Piemonte. Usava o codinome Cristiano Ronaldo porque é fã do jogador português.
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Em 2017, após disputas internas na organização, Pasquino afirmou que foi convidado a vir ao Brasil. Seu objetivo era organizar uma rota com veleiros que saíam de Amsterdã com ecstasy e voltavam para a Europa com cocaína. Foi em outubro daquele ano que organizou a primeira partida de droga de Santos para a Itália: 50 quilos, que seriam fixados num compartimento de um navio por dois mergulhadores brasileiros.
“Eles usaram bolsas de cor fosforescente e, por isso, foram percebidos pela polícia, que os prendeu.” Pasquino foi quem comprou criptofones para os brasileiros do PCC – gastou US$ 20 mil. E afirmou que a facção só tratava com criminosos que pertenciam à ‘Ndrangheta, não aceitando trabalhar com quem não tivesse uma “família”.
Ação da PF durante a Operação Conexão Paraíba sobre as relações do PCC com os italianos: Pasquino foi ouvido no processo Foto: Polícia Federal
Ele relatou também ter trabalhado com doleiros brasileiros e demonstrou orgulho ao afirmar: “Fui o primeiro a usar a técnica de esconder cocaína embaixo da quilha dos navios, por meio de mergulhadores colombianos… Três, precisamente, que eu trouxe ao Brasil, que escondiam a mercadoria atrás das grades das entradas d’água”. E listou: na primeira vez, foram 17 quilos de cocaína, depois 110 quilos para Gênova e 140 quilos para Gioia Tauro.
Nicholas Charles Evangelista Lopes e Demétrio Batista de Oliveira estavam entre seus principais contatos no Brasil. “Nós partimos praticamente do zero, no sentido de que não tínhamos os contatos, mas pouco a pouco fomos criando.”
Ao analisar seus depoimentos, a juíza italiana Francesca Roseti assim se manifestou: “Subsistem em seu relato a confiabilidade intrínseca e a credibilidade subjetiva do declarante”. Pasquino acabou condenado à uma das menores penas entre os acusados investigados na Operação Samba: recebeu dez anos de prisão.



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