Itália investiga integrantes do PCC como mafiosos: ‘Facção mais perigosa da América do Sul’
‘Facção mais perigosa da América do Sul’
Nos 20 anos desde os ataques de maio de 2006, organização criminosa se tornou um dos mais importantes atores do tráfico internacional de cocaína. Crédito: Edição: Júlia Pereira
Os brasileiros Demétrio Batista de Oliveira, o Pateta, de 55 anos, e Nicholas Charles Evangelista Lopes, o Loko, de 33, são os primeiros membros do Primeiro Comando da Capital (PCC) enquadrados com base na legislação antimáfia na Itália. Eles são oficialmente investigados na Operação Samba, da Procuradoria Distrital Antimáfia de Turim, e respondem por tráfico internacional de drogas e organização criminosa. Também foram alvo da Operação Conexão Paraíba, da Polícia Federal (PF), a interface brasileira da investigação – ambas foram simultaneamente deflagradas em dezembro de 2024. Demétrio está preso no Brasil. Nicholas está foragido.
A presença de brasileiros ligados ao PCC na cena criminal global, consolidando sociedades com grupos mafiosos internacionais, é o que está por trás do documento da Justiça italiana e posiciona a facção brasileira como um dos mais importantes atores do tráfico internacional de cocaína.
A reportagem procurou suas defesas. Ambas negam a participação dos acusados nos crimes e entraram com habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para anular as provas ou tentar conseguir que respondam ao processo em liberdade. Em todos os casos examinados, a Corte negou os pedidos dos advogados dos acusados.
Em 2022, a Receita Federal e a PF apreenderam 293 kg de cocaína em um navio no Porto de Santos; suspeita é de que a droga estivesse ligada ao grupo de Demétrio Batista de Oliveira Foto: Receita Federal
Evolução do crime
O documento italiano e o processo brasileiro mostram o caminho percorrido pela facção nos 20 anos seguintes à maior onda de ataques deste século contra as forças de segurança do País, que deixou 564 mortos – 59 deles agentes públicos, entre policiais civis, militares e bombeiros.
Iniciada em 12 de maio de 2006, como reação à transferência da cúpula do PCC para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior paulista, a ofensiva criminosa parou São Paulo, promoveu uma onda de rebeliões em presídios e deixou claro que a facção nascida 13 anos antes na Casa de Custódia de Taubaté, também no interior, tinha mais do que poder de mobilização.
Desde então, o crime se transformou. Não pelo abandono da violência, mas por seu controle, subordinando mortes e sessões de tortura às necessidades dos negócios. “O PCC hoje é uma multinacional cujo objetivo é a expansão do tráfico internacional de cocaína para a Europa”, disse o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
Para contar a história da globalização do PCC, o Estadão consultou mais de 2 mil páginas de documentos, entrevistou autoridades no Brasil e na Itália, ouviu advogados, policiais, procuradores e magistrados.
Na Itália, as medidas cautelares contra integrantes do PCC foram determinadas pela juíza Francesca Roseti, da Seção de Investigações Preliminares do Tribunal de Turim. No Brasil, elas ficaram a cargo de outra juíza, Cristiane Mendonça Lage, da 16.ª Vara Criminal Federal, de João Pessoa.
Ataques do PCC completam 20 anos
No Brasil, a Justiça decretou a prisão de oito dos 20 acusados. Na Itália, 22 pessoas foram acusadas de associação para o tráfico internacional de drogas e por organizar a atividade com o agravante do Artigo 416 bis, reservado às atividades mafiosas.
Esse artigo define como associação mafiosa aquela que tem força para intimidar e impor a lei do silêncio, a omertà, para o cometimento de crimes, para adquirir de forma direta ou indireta o controle de atividades econômicas e contratos públicos ou para impedir ou criar obstáculos aos eleitores nas eleições. Demétrio e Nicholas foram enquadrados neste artigo.
‘Indagati’ na Itália e com prisão decretada no Brasil
Os dois brasileiros investigados aparecem logo na página 3 do documento italiano como “indagati” (investigados). Eles tiveram a prisão decretada no Brasil e a instrução do caso na Justiça Federal acaba de seu concluída. Por causa da ação judicial brasileira, a acusação contra eles está suspensa na Itália, para não haver duplicidade de processo.
Os brasileiros fariam parte da rede de fornecedores de toneladas de cocaína e da logística do transporte da droga para a Europa. As Operações Samba e Conexão Paraíba investigam as relações entre o PCC e a ’Ndrangheta, a máfia da Calábria, no sul da Itália.
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Demétrio foi um dos presos na Operação Conexão Paraíba. Seu nome nunca apareceu nos jornais. Ele foi alvo em 2017 da Operação Contentor, da Polícia Federal, em Santa Catarina, mas acabou livre. Por isso, gostava de ostentar um outro apelido: Fantasma. “Todos sabem que eu existo, mas ninguém me vê. É por isso que me chamam de Fantasma”, escreveu em uma mensagem apreendida pela PF.
Ele seria um dos maiores traficantes da América do Sul associados à facção e era casado com a cunhada de Júlio César Guedes de Moraes, o Julinho Carambola, apontado pela polícia como o número 2 do PCC. Nicholas seria seu gerente. Crescido na zona norte de São Paulo e batizado na facção, foi preso na Espanha em 2023. Posto em liberdade, desapareceu.
Em março, a Justiça italiana condenou oito acusados italianos a penas que variam de 10 a 18 anos de prisão – a menor das condenações foi reservada a Vincenzo Pasquino, o chefe mafioso que fez um acordo de delação premiada e entregou às Justiças do Brasil e da Itália os segredos do contrato entre a ‘Ndrangheta e o PCC para a exploração da rota transatlântica do tráfico de drogas.
Força-tarefa para investigar rotas do tráfico
Para investigar o caso, foi montada uma Equipe Conjunta de Investigação entre o Brasil e a Itália que atuou até março de 2025. Ela envolveu a Procuradoria Antimáfia de Turim e as Superintendências da Polícia Federal da Paraíba e do Paraná – esta última deflagrou a Operação Mafiusi.
O esquema montado pelos italianos da ‘Ndrangheta e pelo PCC envolvia ainda traficantes albaneses, sérvios e australianos.
Os criminosos usaram portos do Brasil, Equador, Uruguai, Colômbia e Panamá para enviar cocaína para Itália, Espanha, Holanda, Bélgica e Austrália. O tamanho da operação fez a Procuradoria Nacional Antimáfia italiana concluir que o PCC é hoje a “mais perigosa organização criminosa da América do Sul”.
Responsável pela investigação na Itália, o procurador Giovanni Bombardieri reafirmou a importância da cooperação internacional para reconstruir esses fatos. “As relações da ‘Ndrangheta e do PCC visavam à obtenção de novas rotas para o envio de drogas.”
Mergulhadores retiram carregamento de cocaína colocado em compartimento abaixo da linha d’água em navio no Porto de Santos Foto: Receita Federal
Consórcio entre organizações movimentou R$ 4,8 bilhões
Durante as investigações, iniciadas em 2017, os italianos fizeram 114 interceptações telefônicas e escutas ambientais em carros, bares, celas e até aviões. Seguiram os deslocamentos feitos pelas companheiras dos criminosos e instalaram câmeras de vídeo para vigiar casas e até uma igreja frequentada pelos mafiosos – uma festa de batismo de uma família mafiosa chegou a ser vigiada.
Todo um capítulo da apuração italiana é dedicado à colaboração com a Polícia Federal e com o Ministério Público Federal (MPF) do Brasil. O primeiro grande resultado dela aconteceu em 4 de fevereiro de 2019, quando foi preso Sérgio de Arruda Quintiliano, o Minotauro. Tiveram ainda ajuda da Drug Enforcement Agency (DEA), a Agência Antidrogas dos EUA, para capturar Gilberto Aparecidos dos Santos, o Fuminho, preso em 14 de abril de 2020, em Moçambique.
Os dois manteriam contato com os mafiosos italianos que representavam a “‘Ndrangheta na América do Sul”. Minotauro dirigiu as tropas do PCC na guerra pelo controle do tráfico na fronteira com o Paraguai. Foi preso em Balneário Camboriú. Dois anos depois, Pasquino e o chefe mafioso Rocco Morabito foram capturados na Paraíba, onde haviam montado uma nova base para enviar toneladas de cocaína para a Europa.
Cão farejador da Receita Federal descobriu carregamento de 1,5 tonelada de cocaína que seria embarcado em Santos Foto: Receita Federal
Durante as investigações, a PF encontrou uma prova importante: mensagens que mostravam Pasquino tratando dos contatos que mantinha com os grandes traficantes da facção, como Fuminho e Minotauro. “Estou trabalhando com Minotauro, aquele que fez a guerra do Paraguai… PCC”, escreveu Pasquino a um boss italiano. Ele também relatou ao mafioso Giuseppe Grillo que Fuminho lhe mandava fotos de mercadoria da Bolívia e era responsável pela logística da droga.
O mafioso continuou explicando ao colega italiano a importância de Fuminho: “Não devemos nem mesmo citar seu nome. Ele é como El Chapo (Joaquín Guzmán, traficante mexicano do cartel de Sinaloa), como Pablo (Escobar, do cartel de Medellín). Eu trabalhei com ele. Me chamava Macarrão – porque aqui a pasta se chama macarrão – ou Italianinho.”
Empresas ligadas ao esquema investigado teriam movimentado entre 2018 e 2024 a soma de R$ 4,8 bilhões, segundo análise do Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf), feita a pedido da PF. Eram sete pessoas jurídicas ligadas a um laranja – um motociclista que recebeu auxílio emergencial durante a pandemia.
As defesas de Fuminho, Minotauro e Julinho Carambola não foram localizadas. Os três estão presos. Durante os processos que responderam na Justiça, todos negaram o envolvimento com o tráfico de drogas e com as organizações criminosas investigadas no Brasil e na Itália.



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