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A noite em que João Gilberto tocou numa danceteria em forma de caravela em SP

A noite em que João Gilberto tocou numa danceteria em forma de caravela em SP

Quando foi anunciado que haveria um show de João Gilberto em São Paulo, numa danceteria em formato de navio caravela chamada Latitude 3001 que era palco das novas bandas de rock dos anos 80, muita gente não acreditou. A apresentação estava marcada para uma quinta-feira à noite, dois dias antes do artista tocar com com 22 músicos da Orquestra Sinfônica do Estado no prestigioso Palácio das Convenções do Anhembi.

Conhecido por seu alto nível de exigências sobre as condições técnicas de som dos locais em que se apresenta e contrariando várias expectativas, João Gilberto foi. E fez um a apresentação memorável. A repórter maria Amélia Rocha Lopes estava lá e contou no Jornal da Tarde de 29 de junho de 1985 como foi o inusitado show do mestre da bossa nova no local. Leia a íntegra:

Jornal da Tarde – 29 de junho de 1985

 A noite em que João Gilberto tocou numa danceteria em forma de caravela em SP

Crítica do show de João Gilberto na danceteria Latitude 3001 publicada no Jornal da Tarde de 29 de junho de 1985. Foto: Acervo Estadão

João Gilberto

Excepcional em todos os gêneros.

Num dia de humor particularmente feliz, João brilhou no palco.

Maria Amélia Rocha Lopes

Ele foi sim, cantou, estava de muito bom humor. É verdade que chegou duas horas atrasado, em relação ao horário programado, mas confirmou que é mesmo um homem imprevisível. Durante as duas horas de espera, uma onda de boatos invadia o galeão fundeado na av. 23 de Maio, onde funciona o Latitude 3001: João Gilberto nem saíra do Rio de Janeiro, não sabia o que era o Latitude, porque nem viera passar o som antes do show — logo ele!

A maior parte do público preferia defender a seguinte tese: ele viria sim, mas quando visse o local cheio de fumaça, o ar condicionado ligado, barulho de garrafas e copos no bar, com certeza, não cantaria. Faltando 15 minutos para a uma hora da madrugada, o andar aflito dos responsáveis pela vinda de João Gilberto denunciava que alguma coisa estava acontecendo. Eles vinham ao microfone para apaziguar a boataria: João Gilberto acabara de chegar.

A bem da verdade, esta notícia não dava a ninguém a certeza de que haveria show. João Gilberto na danceteria, quem diria!, era a rima mais freqüente. Mas, surpresa geral, à 1h ele subia ao palco do Latitude, deixando alguns fãs mais afoitos quase na condição de patrulheiros das suas exigências: os pedidos de silêncio corriam boca a boca numa velocidade espantosa.

João Gilberto, ali no palco, já era suficiente para desfazer as tensões criadas desde as 9h da noite, quando a “casa” abriu suas portas. Mas seu primeiro comentário, ainda ofegante pelos vários lances de escadas que teve de subir até chegar ao local do show, foi um tanto preocupante. “Tem cigarro à beça, aqui, hein? E não é do bom…”

Pronto, não canta. Mas João Gilberto parecia imbuído do espírito cívico de cumprir aquele compromisso de qualquer maneira. “Posso descansar, um pouquinho?” perguntou. Parte da platéia, com medo de que ele ainda pudesse escapar, disse que não. “Então é pra já”, determinou João. E de cara foi buscar um Lamartine Babo, de 1939, com “Voltei a Cantar”.

Mas o som estava horrível: grave demais, tanto na voz quanto no violão, e especialmente neste. João não parou, tentando contar com a eficiência dos técnicos na mais simples das armações de sonoridade de palco, ou seja, um microfone para voz, outro para violão. Mas essa regra foi contrariada. O som da voz chegou perto do normal, o do violão passou ao largo. Em certo momento, deu realmente vontade de que João voltasse à velha forma e mandasse desligar o ar condicionado, que zumbia intermitente.

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Mas seu humor, num dia particularmente feliz, conseguiu transformar em rápido improviso, no meio da música, um copo que caiu no bar, uma garrafa que tombou numa bandeja. Um dos assessores de imprensa da casa garantem que, quando soube que seria uma noite com muitos jornalistas na platéia, João Gilberto teria, intencionalmente, trocado o seu repertório. Em lugar de “Estate”, “Retrato em Branco e Preto” ou “Wave”, João Gilberto praticamente não saiu dos anos 40. Foi buscar as composições de Wílson Batista e seus parceiros Haroldo Lobo (“Emília”, 1942), Marino Pinto (“Preconceito”, 1941), Henrique de Almeida (“Louco”, 1946), e mais Assis Valente (“Madame”, 1945), Marino Pinto e Zé da Silva (“Aos Pés da Cruz”, 1942), Geraldo Pereira e Nélson Trigueiro (“Sem Compromisso”, 1944). Ou seja, apenas grandes sambistas que nas suas poesias reafirmam constantemente essa condição.

João Gilberto imprime a este velho repertório um tratamento harmônico primoroso, fazendo as canções ficarem supermodernas, portanto independentes do tempo em que foram compostas. De certa maneira é um pouco o que acontece com o próprio João, que ficou sendo o símbolo do jeito de cantar bossa-novista, mas que pela qualidade transcendeu o estilo. É “apenas” um excepcional cantor e instrumentista de bossa-nova, de samba, de bolero, de samba-canção…

Ainda na linha imprevisível, é pouco provável que este seja o repertório do show que apresenta hoje no Palácio das Convenções do Anhembi, com 22 músicos da Orquestra Sinfônica do Estado. Ali, para um público mais diversificado, deverá recorrer àquela elegantíssima seleção sintetizada no brilhante disco Amoroso, de 1977, com “Caminhos Cruzados”, “Triste”, “S Wonderful”.

Se essa platéria terá o apoio adicional da orquestra como vantagem em relação ao espetáculo da madrugada de ontem no Latitude, com certeza não poderá ver João Gilberto cantando cada canção por três vezes. Em cada uma delas mostrava uma harmonia diferente, só para alfinetar quem ousou dizer que ele faz sempre tudo igual. Um luxo de humor e ironia.

JORNAL DA TARDE

Por 46 anos [de 4 de janeiro de 1966 a 31 de outubro de 2012] o Jornal da Tarde deixou sua marca na imprensa brasileira.

Neste blog são mostradas algumas das capas e páginas marcantes dessa publicação do Grupo Estado que protagonizou uma história de inovações gráficas e de linguagem no jornalismo.

Um exemplo é a histórica capa do menino chorando após a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982, na Espanha.

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