Bloqueios políticos das IAs mais poderosas escancaram como somos vulneráveis
Em setembro de 2025, Donald Trump recebeu líderes de big techs dos EUA, sem a presença de Dario Amodei (Anthropic) – Foto: Casa Branca
No dia 12 de junho, os usuários da plataforma de inteligência artificial Claude descobriram que não podiam mais usar o Fable 5 e o Mythos 5, os modelos mais avançados da Anthropic. Tudo porque o governo americano ordenou que eles fossem bloqueados fora dos EUA e para estrangeiros em seu território, alegando razões de segurança nacional. Como a empresa disse que não conseguiria fazer essa segregação, cortou o acesso para todos.
Não se trata de um detalhe técnico. O movimento oferece uma prévia de como funcionará uma nova forma de dependência geopolítica. Ao longo da história, países disputaram influência controlando territórios, rotas comerciais e petróleo, ou impondo sua capacidade militar. Agora, o poder passa cada vez mais pelo domínio das tecnologias que definem a economia, a informação e a inovação.
Estados Unidos e China dão as cartas nesse novo jogo. Os europeus correm bem atrás e outras partes do mundo nem estão na mesma volta. E como o Brasil bebe na fonte digital americana, uma decisão em Washington determina quais ferramentas estarão disponíveis para nossos cidadãos, empresas, pesquisadores e até governo.
A preocupação não é teórica. Dois dias depois, na véspera da cúpula do G7 na França, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, citou o caso da Anthropic como exemplo dos riscos de concentrar o uso da IA em poucas empresas. Segundo ele, governos e organizações devem diversificar suas fontes tecnológicas para reduzir a dependência.
Esse episódio embute muitos pontos obscuros, inclusive o bloqueio de modelos só da Anthropic, que está processando o governo americano. Temos que entender que a vassalagem tecnológica não é percebida quando tudo funciona, mas surge, como um tapa na cara, quando outro país decide, seguindo apenas seus interesses, quais tecnologias podemos ou não usar, o que impacta decisivamente nosso cotidiano.
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Os atritos entre a Anthropic e a administração Trump vieram a público em fevereiro, quando a empresa se recusou a autorizar que os militares americanos usassem sua IA livremente, incluindo na vigilância em massa e em armas autônomas. Desde então, o governo tenta banir a empresa de contratos federais. Em compensação, ela vem crescendo rapidamente na capacidade de seus modelos e em suas finanças, tendo superado a rival OpenAI, criadora do ChatGPT, em receita e avaliação de mercado.
Vale dizer que a Anthropic adiou o Mythos em abril, dizendo que ele era “poderoso demais” para o público, por ser capaz de encontrar brechas em praticamente qualquer software e, assim, se tornar uma “arma digital”. Mas poucas semanas depois, mudou de ideia e o lançou junto com o Fable 5, uma versão “amarrada” para uso geral, apostando que travas e acessos restritos seriam suficientes para mitigar os riscos.
A Anthropic se posiciona como uma empresa que faz um desenvolvimento ético e seguro da IA. Na semana passada, seu CEO, Dario Amodei, defendeu auditorias obrigatórias para todos os modelos mais avançados. Mas a companhia questionou a determinação do governo, afirmando que a medida não seguiu um processo transparente e baseado em critérios técnicos.
Há muita hipocrisia nessa história. Se esses modelos são tão perigosos, a Anthropic nem deveria tê-los desenvolvido e muito menos lançado confiando em regras de segurança. Do lado do governo, a restrição faz sentido em uma leitura rasteira de tentar evitar que estrangeiros usem e copiem todo esse poder, mas perde força diante de seu abundante histórico de terrorismo e cibercrime domésticos e desrespeito do Tio Sam a direitos fundamentais de outros países e de seus próprios cidadãos.
Engana-se quem vê isso como um problema distante, restrito aos corredores do poder de Washington e do Vale do Silício. A inteligência artificial vem ocupando espaço determinante em nossas vidas e nos negócios. Ter acesso aos melhores modelos pode definir quem dominará o seu mercado.
Muita gente que usou o Fable 5 nos três dias em que ficou disponível antes do bloqueio se maravilhou com suas capacidades. Agora se sentem como crianças indefesas de quem foi retirado o doce mais gostoso.
O poder de controlar o poder
As big techs se construíram sobre discursos de liberdade e expansão dos limites humanos. Em várias ocasiões no passado, opuseram-se a pressões do próprio governo americano que contrariavam tais princípios.
Mas desde que Donald Trump assumiu seu segundo mandato, seja por medo ou por oportunismo, essas companhias rasgaram suas cartilhas progressistas e passaram a replicar algumas das ideologias mais autoritárias desse governo. E, verdade seja dita, elas têm conseguido muitos benefícios econômicos e políticos de um presidente que alçou a IA a um fator primário na liderança dos EUA de agora em diante.
Agora alguns desses gigantes tecnológicos estão percebendo que essa conta pode ser alta demais. Com seu estilo visceral e intempestivo, Trump já tomou decisões que contrariaram os interesses dessas corporações, como restringir vendas a alguns mercados, bloquear produtos e privilegiar seus favoritos do momento.
A inteligência artificial despontou como uma tecnologia que dá vantagens enormes e inéditas a quem a use bem, porém está claro que um poder político sem travas controla o poder tecnológico.
Para os clientes, a mensagem é que eles não podem depositar todos os ovos em uma cesta só, pois o “capataz da fazenda” pode arbitrariamente decidir para quem as galinhas botarão. E talvez diversificar as empresas não seja suficiente, sendo necessário contar com ofertas de diversos países. Em última instância, talvez modelos de arquitetura aberta rodando em servidores locais acabem sendo a única garantia de soberania digital.
Chega a ser irônico que os dois modelos barrados pelo governo americano se chamam Fábula e Mito. Isso combina com a opacidade do funcionamento da IA e das decisões governamentais e corporativas em torno dela.
Podemos esperar um aumento dessa opacidade de agora em diante, quando o desejável seria mais transparência, especialmente de empresas que declaradamente buscam uma inteligência artificial que supere a humana. Se há algo de bom nesse quiproquó é que ele está nos dando mais uma chance para olharmos para o impacto dessa tecnologia no que fazemos e colocarmos tudo em perspectiva.



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