Cabeça sã, corpo são: confiança alimenta ‘máquina humana’ – 23/04/2026 – O Mundo É uma Bola
“No futebol, confiança é tudo.” Ouvi essa frase, proferida pelo atacante Rômulo, durante viagem à Alemanha no final do ano passado, em um almoço nas instalações do RB Leipzig do qual o brasileiro participou.
Acredito que a maioria dos futebolistas concorde. Vou além: no esporte em geral, se a cabeça não está boa, o corpo padece, e a “máquina humana” empaca. Confiança é fundamental.
Quem está sem ela são os jogadores do Tottenham, um dos times mais tradicionais e populares de Londres. Sem conseguir uma única vitória no Campeonato Inglês (Premier League) neste ano –15 jogos desde janeiro, com 9 derrotas e 6 empates–, ocupa a zona de rebaixamento.
Seu treinador, o italiano Roberto De Zerbi, no cargo desde o fim de março e o terceiro a dirigir os Spurs nesta temporada, declarou que a equipe sofre com “problema de mentalidade”. Reflexo disso, a direção abriu vaga para um psicólogo, anunciando-a em rede social do clube.
Procuramos um excelente psicólogo de performance. Trabalhando como parte de uma equipe multidisciplinar, você liderará a prestação de apoio psicológico a jogadores profissionais de elite. A função exige um profissional confiável, discreto e altamente eficaz, capaz de construir confiança com jogadores e treinadores
Será que dá tempo de contratar alguém que dê uma “injeção de ânimo” em um grupo notadamente inseguro? Faltam só cinco rodadas para acabar a competição.
Richarlison, o Pombo, hoje reserva do time, recorreu à ajuda da psicologia em 2023, quando teve problemas emocionais e passou a fazer terapia. Funcionou, segundo o próprio, com melhora no bem-estar e no desempenho.
Se der certo agora a tentativa do Tottenham, que está na divisão de elite na Inglaterra desde 1977, o profissional será enaltecido e a mídia buscará descobrir os métodos utilizados para a célere transformação. É, contudo, improvável. Considera-se que o trabalho psicológico/emocional não surte efeito imediato, e sim depois de semanas ou meses.
A seleção brasileira, na Copa do Mundo de 2014, em casa, é um exemplo disso. Ao sentir o grupo frágil mentalmente, com excesso de nervosismo nas oitavas de final (classificação nos pênaltis contra o Chile), o técnico Felipão convocou às pressas Regina Brandão, psicóloga que trabalhara com a equipe no Mundial de 2002, o da conquista do penta.
Não adiantou. O time continuou mal emocionalmente nas quartas de final (2 a 1 na Colômbia, jogo em que Neymar teve séria lesão nas costas), naufragou psicologicamente na semifinal (7 a 1 para a Alemanha, o maior vexame na história da seleção) e não se recuperou para a disputa do terceiro lugar (outro vareio, 3 a 0 para a Holanda).
Nas Copas de 2018 e de 2022, sob a direção de Tite, o Brasil descartou psicólogo. Parecia mesmo desnecessário, devido aos ótimos resultados acumulados nas Eliminatórias.
O moral dos jogadores esteve sempre elevado, e o único momento de abalo claro ocorreu depois que a Croácia, na prorrogação, empatou e levou o jogo das quartas de final para os pênaltis no Qatar. Juninho Paulista, coordenador da seleção à época, disse que a equipe foi para as cobranças já derrotada.
Na trajetória para a Copa deste ano, que começa em junho, a seleção voltou a ter uma profissional (Marisa Santiago), presente no período em que os atletas estiveram juntos para as partidas. Algum recorreu a ela? Se sim, ninguém divulgou.
É notório que os boleiros têm relutância em se consultar. Duvidam da eficácia do “tratamento”, sem saber que essa desconfiança os impede de obter justamente o que mais precisam: confiança.
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