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Como PCC e ‘Ndrangueta adotam portos de Equador, Uruguai e Panamá para exportar cocaína à Europa

Como PCC e ‘Ndrangueta adotam portos de Equador, Uruguai e Panamá para exportar cocaína à Europa

‘Facção mais perigosa da América do Sul’

Nos 20 anos desde os ataques de maio de 2006, organização criminosa se tornou um dos mais importantes atores do tráfico internacional de cocaína. Crédito: Edição: Júlia Pereira

Traficantes ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), à ’Ndrangheta e à máfia dos Bálcãs usaram portos fora do Brasil para exportar cocaína para a Ásia, a Oceania e a Europa, entre os quais Porto Bolívar, no Equador. Entre as cidades de Machala e Guayaquil, o lugar, por onde passam 80% das 6 milhões de toneladas de bananas exportadas pelo país, foi transformado em um dos maiores entrepostos do tráfico internacional de cocaína, substituindo o porto de Santos.

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Mergulhadores da Marinha retiraram de navio no Porto de Santos carregamento de 341 quilos de cocaína no dia 10 de maio depois de inspeção aduaneira feita pela PF e pela Receita; droga enviada pela rota tradicional do PCC, a partir do Brasil, para Ásia, Oceania e Europa. Foto: Receita Federal

Além do Equador, o PCC teria usado Uruguai, o Panamá e o Suriname para embarcar drogas, além de portos do Nordeste – Pecém (CE), Natal (RN) e do Recife (PE) – para fugir da fiscalização policial e aduaneira no Sul e no Sudeste do Brasil – Itajaí (SC), Paranaguá (PR) e Santos. Esse cenário consta de mensagens, documentos, áudios e depoimentos que compõem as provas reunidas por policiais federais na Operação Conexão Paraíba e na Operação Samba, ação levada a cabo pela Direção Distrital Antimáfia (DDA) de Turim, na Itália.

No Brasil, 16 acusados foram denunciados pelo Ministério Público Federal, entre os quais Demétrio Oliveira Batista, de 55 anos, e Nicholas Charles Evangelista Lopes, de 33 anos, que também foram considerados oficialmente investigados na Itália ao lado do mafioso Vincenzo Pasquino, que fez um acordo de colaboração premiada e revelou os detalhes do consórcio entre o PCC e a ‘Ndrangheta. O relatório final da Operação Conexão Paraíba imputava a eles 13 acusações pelos crimes de organização criminosa, associação para o tráfico, favorecimento, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.

O Estadão procurou as defesas dos acusados, mas não obteve retorno. Na Justiça, os brasileiros negaram as acusações e seus advogados alegaram nulidades processuais para tentar obter a anulação do processo. Já a defesa de Pasquino auxiliou o cliente na delação.

Demétrio e Nicholas são oficialmente investigados na Itália. Eles se tornaram os primeiros brasileiros ligados ao PCC enquadrados na lei antimáfia pelo crime de associação para o tráfico internacional de drogas, com o agravante do Artigo 416 bis do Código Penal Italiano, reservado às atividades mafiosas. Tanto a rota uruguaia quanto a equatoriana teriam sido utilizadas por Demétrio e Nicholas com seus parceiros italianos.

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A partir de João Pessoa, montaram uma base para controlar os carregamentos de drogas. Esse foi o caso do envio de 102 quilos de cocaína, transportados do Porto Bolívar até Gioia Tauro. O navio partiu na noite de 29 de novembro de 2020 com a droga em um contêiner. A embarcação transferiu a carga para outro navio no Porto de Rodman, no Panamá, que acabou apreendida em uma fiscalização aduaneira ao chegar na Itália em 23 de dezembro.

“Meu velho, graças a Deus o material chegou. Não vieram 150 peças. Chegaram cem. Vão entregar US$ 190 mil no Equador”, contou Nicholas para Demétrio. Em outra oportunidade, os brasileiros coordenaram o envio de um carregamento de 22,5 quilos de cocaína do porto de Montevidéu para Genova, na Itália, em um contêiner. A droga também foi apreendida assim como um terceiro carregamento, este de 440 quilos, que saíram do Brasil para o porto de Algeciras, na Espanha.

Nessas operações, a PF e a DDA de Turim detectaram a atuação de outro mafioso importante: Christian Sambati, um amigo de Pasquino.

Pasquino, em uma conversa com Nicholas Charles, conta ao integrante do PCC que Sambati estava prestes a chegar no Brasil e planejava enviá-lo ao Equador para supervisionar a operação de tráfico de drogas do consórcio. A reportagem não conseguiu localizar a defesa de Sambati.

Já em 2025, Nicola Gratteri, procurador distrital antimáfia de Nápoles, confirmara que os grupos mafiosos haviam trocado Santos pelos portos equatorianos. Agora, durante a análise das mensagens trocadas pelos acusados, os investigadores encontraram ainda indícios de que a máfia dos Bálcãs participava da aliança do PCC com a ‘Ndrangheta. Em 15 de outubro de 2020, Nicholas Charles revelou que aguardava a conclusão de um trabalho com traficantes albaneses e tratou da necessidade de acionar um doleiro para apanhar o dinheiro. E mencionou que os albaneses pretendiam enviar droga para Hamburgo, na Alemanha.

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Em 16 de janeiro de 2022, a Receita Federal e a PF apreenderam 293 quilos de cocaína em um compartimento abaixo da linha da água de um navio no Porto de Santos; suspeita é de que a droga estivesse ligada ao grupo de Demétrio Batista de Oliveira. Foto: Receita Federal

No dia seguinte, Nicholas repassou a Pasquino uma conversa com Demétrio sobre o trabalho com os albaneses. Nesse período, segundo a PF, o grupo do PCC tinha três carregamentos de drogas em andamento: um para a máfia italiana, a ser recebido no porto de Gioia Tauro, na Itália; outro para os albaneses, sem previsão de envio; e, por fim, um para a Austrália.

As mensagens do PCC e a corrupção policial

Para a PF, a cada envio de drogas a organização criminosa criava “um novo grupo no aplicativo de mensagens Sky-ECC”, um aplicativo de mensagens criptografadas usado por organizações criminosas de todo mundo. “Em tais grupos, os assuntos referentes ao tráfico são tratados de maneira mais detalhada pelos envolvidos”, afirmaram os investigadores.

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Segundo eles, Demétrio bancava as despesas dos italianos e dos albaneses na base da quadrilha em João Pessoa. Ele enviava a droga em contêineres de frutas para Gioia Tauro ou em contêineres refrigerados para Valência, na Espanha. Em uma das mensagens, o brasileiro contou que os integrantes do grupo no Equador aguardavam “o melhor momento para inserir o entorpecente”. “Essas operações complexas envolvem monitoramento da polícia, uso de barcos velozes e armamento pesado para garantir a entrega das drogas”, relatou a PF.

Ele questionava ainda seus comparsas sobre o melhor momento para o desembarque da droga e sobre as razões da perda de carregamentos descobertos pela polícia. De acordo com os investigadores, as mensagens mostraram ainda que parte da droga “seria proveniente de um pessoal ligado a André do Rap (André de Oliveira Macedo), notório traficante vinculado à organização criminosa”. O grupo usava pistas de pouso clandestinas na Bolívia, Uruguai ou Equador.

 Como PCC e ‘Ndrangueta adotam portos de Equador, Uruguai e Panamá para exportar cocaína à Europa

Demétrio Batista de Oliveira, o Pateta ou Fantasma, preso na Operação Conexão Paraíba, a versão brasileira da Operazione Samba, deflagrada na Itália. Foto: Polícia Federal

Os federais ainda colecionaram informações sobre corrupção de policiais e agentes portuários no Brasil, no Equador, Espanha e no Uruguai. Em 2020, Nicholas e Demétrio negociaram o envio de droga a Barcelona. “O primeiro se ofereceu para ir até a cidade como garantia pessoal para o envio de uma tonelada de cocaína, assegurando que a retirada da droga seria feita por uma esquadra de cinco policiais, garantindo a segurança da operação”, diz o relatório da PF, para quem “isso mostrou a confiança e o comprometimento de Nicholas com a operação”.

Situação semelhante haveria no Equador. “Lá todo mundo comprado, polícia, porto, tudo…”, afirmou Demétrio para um comparsa, confessando que estava trabalhando com a ‘Ndrangheta e com um “albanês forte”. Com este, o grupo enviou drogas a Hamburgo e para a Inglaterra.

“Demétrio pela sua expertise demonstrava gozar de grande credibilidade entre os dois grupos, circulando bem entre a máfia italiana e a máfia albanesa”, afirmou o relatório da PF. O esquema teria movimentado R$ 4,8 bilhões entre 2018 e 2024 por meio de sete empresas – só uma das empresas movimentou R$ 1,2 bilhão entre agosto de 2022 e maio de 2023.

Os brasileiros e os italianos repartiam o lucro do tráfico, assim como os custos da operação. Em uma das mensagens, o brasileiro Nicholas Charles pergunta a Pasquino quanto ele havia pagado para Demétrio pelo envio de um carregamento ao porto de Gioia Tauro, na Itália. E o italiano disse que havia depositado US$ 6 milhões pelo transporte do entorpecente.

O grupo chegou a comprar, no início de junho de 2020, um navio cargueiro de bandeira panamenha, o Srakane, para transportar cocaína. A empresa dona da embarcação enfrentava problemas financeiros e atrasava o salário de seus tripulantes. Em 8 de junho de 2020, Nicholas cobrou Demétrio por telefone sobre o não pagamento de salários, o que havia levado à autuação pelo Ministério Público do Trabalho. Demétrio não conseguiu saldar as dívidas e o navio foi abandonado no Porto de Santos, onde permaneceu até 2025.

Organograma do consórcio

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O organograma do consórcio montado entre o PCC e a ‘Ndrangheta com a participação de traficantes albaneses e australianos, segundo a Operação Conexão Paraíba. Foto: Reprodução/Polícia Federal

Assim, de acordo com a PF, a sociedade entre o PCC e a ‘Ndrangheta envolvia traficantes albaneses, sérvios e australianos. Um organograma do grupo foi produzido na investigação que resultou na Operação Conexão Paraíba. Quatro traficantes brasileiros foram identificados como os fornecedores, entre eles Demétrio e Caio Bernasconi Braga, o Fantasma da Fronteira. Outros quatro homens eram acusados de serem os gerentes operacionais do esquema, entre eles Nicholas.

Demétrio era ligado ao PCC, não só por ser cunhado de Júlio César Guedes de Moraes, o Julinho Carambola, 2º homem na hierarquia da facção. Ele foi preso na Operação Conexão Paraíba. Bernasconi foi detido em 2023. Nicholas foi detido em 2023 na Espanha. Colocado em liberdade, ele teve a prisão decretada na Operação Conexão Paraíba e está foragido.

A ‘Ndrangheta mantinha seis integrantes como membros da sociedade com o PCC. Entre eles estavam os mafiosos Rocco Morabito, Vincenzo Pasquino, Christian Sambati, Giuseppe Grillio, Domenico Vitale e Cesare Antonio Arcorace. O Estadão não conseguiu contato com seus defensores. Além deles, os federais listaram no organograma traficantes albaneses e australianos. O Estadão não conseguiu localizar a defesa dos italianos, de Bernasconi e de Carambola.

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