Empresas enfrentam dilema entre inovar e sustentar sistemas críticos
Para o líder do RHEL na América Latina, Alejandro Dirgan, os mundos da inovação e do legado precisam conviver bem – Foto: reprodução
Equilibrar inovação com a sustentação de sistemas antigos (porém necessários) tornou-se um dos dilemas mais concretos da transformação digital. Não se trata de uma discussão teórica, e sim algo que impacta o cotidiano de gestores de TI pressionados por resultados, segurança e, cada vez mais, por uma corrida acelerada em direção à inteligência artificial.
O problema vem de aplicações críticas das empresas construídas para plataformas específicas, muitas vezes antigas, cuja atualização envolve riscos operacionais, custos elevados e até implicações legais. Em setores regulados, como o bancário, rodar um sistema sem suporte do fabricante pode significar não apenas vulnerabilidade técnica, mas também descumprimento normativo.
Do outro lado, as empresas são incentivadas a inovar, especialmente com o advento da inteligência artificial. Entretanto um sistema operacional desatualizado mas vital para manter o legado digital pode não oferecer os recursos necessários para a IA.
“Esses dois mundos de hoje, que são inovação e legado, têm que conviver”, explica Alejandro Dirgan, líder da plataforma Red Hat Enterprise Linux para América Latina. “Se eu não entrego essa capacidade ao cliente, ele terá que tomar decisões apressadas para migrar coisas que possivelmente não funcionarão corretamente, aumentando o risco.”
Por conta disso, a Red Hat, líder global em plataformas empresariais open source, passou a oferecer suporte ampliado a versões anteriores do seu sistema operacional, para clientes que precisem de mais tempo para fazer transições seguras de seus sistemas antigos. A empresa oferece ciclos que passam de uma década.
A ideia é boa, mas há um risco implícito de acomodação de alguns clientes, pois o sistema continua funcionando e com suporte garantido. Dirgan reconhece isso, mas explica que essa oferta não deve ser usada para postergar indefinidamente mudanças necessárias. Ficar parado também tem seu preço, pois o suporte estendido tem um custo crescente e não resolve a falta de acesso a novas e bem-vindas funcionalidades.
Pilotos bem-sucedidos e implantações falhas
Essa tensão entre legado e futuro fica ainda mais evidente na corrida pela inteligência artificial. A enorme pressão sobre os gestores de TI vem de acionistas, de concorrentes que anunciam iniciativas ousadas e de consultorias que projetam ganhos bilionários com a tecnologia. Mas a realidade do mercado mostra que a maior parte dos projetos de IA morre no caminho ou nem passa da fase de piloto.
As razões envolvem limitações técnicas, justamente pela integração com sistemas legados, barreiras culturais, com áreas de negócio que não compreendem o impacto da tecnologia, e uma questão estrutural, pois muitos desses pilotos são construídos de forma artesanal, sem preparo para produção.
“Levar a cultura de IA para todas as áreas de uma companhia não é uma tarefa fácil”, afirma Dirgan. “E não é que não vai acontecer, é uma questão de tempo, mas estamos em uma fase de maturação muito inicial.”
Em muitos casos, as empresas investem na tecnologia antes mesmo de entender claramente o problema que querem resolver. A decisão vem mais do medo de ficar para trás do que de uma estratégia consistente.
Esse quadro se agrava quando entram em cena dados sensíveis. Treinar modelos exige acesso a informações que, em setores como saúde e finanças, são altamente reguladas. Levar esses dados para ambientes externos, muitas vezes em outras jurisdições, levanta questões de soberania e governança.
Daí a crescente importância do conceito de soberania digital. Não se trata de rejeitar, por exemplo, a “computação na nuvem”, mas de decidir e ter controle sobre onde dados e aplicações ficam. Isso exige maturidade técnica e organizacional que nem todas as empresas possuem.
A boa notícia é que, com os avanços tecnológicos, isso deixou de ser um privilégio de grandes corporações. Com arquiteturas híbridas e modulares, empresas menores também podem adotar estratégias de controle de dados, mesmo com limitações de equipe e conhecimento.
Diante disso, o open source volta ao centro. Em um cenário dominado por plataformas opacas de IA, a transparência se torna um ativo estratégico por questões éticas e por necessidade operacional. Ao contrário de sistemas proprietários, esse modelo de distribuição de software tradicionalmente aposta na abertura como motor de inovação e confiança.
A América Latina entra nessa equação com uma ambiguidade há muito conhecida. Compensamos os nossos recursos mais escassos com criatividade, o que nos confere um desejo maior pela experimentação. Por isso, empresas da região testam, adaptam e até antecipam soluções que depois acabam sendo replicadas em mercados mais ricos.
Estamos, de fato, em um momento de profunda transição tecnológica e, graças à IA, até de ruptura. Os gestores precisam encontrar um caminho sustentável entre avançar rápido demais, que pode comprometer a segurança e a governança, e devagar demais, que pode ameaçar sua relevância e competitividade. E é fundamental reconhecer que tecnologia é uma questão de desempenho caminhando de mãos dadas com a responsabilidade, para construir um ecossistema digital mais justo, soberano e humano.



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