Harmonia entre China e EUA coloca Brasil em posição estratégica e arriscada, avaliam analistas
Presidentes das duas maiores potências se reuniram na semana passada e resultado pode implicar o agronegócio de MS
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reuniu-se com o presidente da China, Xi Jinping, em Pequim, na semana passada, para alinhar as relações comerciais entre as duas potências mundiais após o período de disputas tarifárias bilaterais em 2025.
O encontro internacional gera reflexos diretos na balança comercial do Brasil e nas exportações de Mato Grosso do Sul, que mantêm transações de grãos e carnes com os dois mercados.
Durante a agenda oficial na Ásia, o presidente norte-americano visitou pontos locais, como o Templo do Céu, e tratou de acordos comerciais. Conforme analistas de relações internacionais ouvidos pelo Jornal Midiamax, o governo da China sinalizou o compromisso de ampliar a compra de soja e de aeronaves produzidas pelos Estados Unidos.
A alteração no fluxo comercial norte-americano e chinês gera impactos na economia sul-mato-grossense. Dados da Abracomex (Associação Brasileira de Consultoria e Assessoria em Comércio Exterior) apontam que Mato Grosso do Sul exportou US$ 2,51 bilhões no primeiro trimestre de 2026, o que gerou um superávit de US$ 1,76 bilhão.
O volume de exportações sul-mato-grossenses registrou crescimento de 12%, sendo que o mercado chinês absorve 44,84% do total das vendas externas de Mato Grosso do Sul.
O professor de Relações Internacionais da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), Mauro Sérgio Figueira, indicou que a promessa da China de comprar mais soja dos Estados Unidos estabelece uma nova dinâmica de concorrência para o agronegócio brasileiro, que registrava entrada preferencial no país asiático em razão de um boicote anterior de Pequim aos produtores norte-americanos.
“Para o Brasil, esse encontro acende um pequeno alerta competitivo. No campo comercial, a China prometeu comprar mais soja e mais aviões dos Estados Unidos. É claro que a soja brasileira tem uma entrada privilegiada na China. As exportações brasileiras bateram recorde atrás de recorde mensal desde o início deste ano. Mas vale lembrar que a China estava boicotando a compra de soja dos EUA. Não creio que isso deva impactar fortemente as exportações brasileiras, mas de todo modo os chineses estão prometendo comprar mais soja dos EUA. E também comprar mais aviões da Boeing. A Embraer é grande fornecedora de jatos executivos para a China, então Boeing e Embraer não concorrem exatamente no mesmo mercado, mas de todo modo esse assunto foi tratado pelos dois países“, avalia.
A doutora em Relações Internacionais Lisa Belmiro explicou que a estratégia chinesa de diversificação de fornecedores agrícolas atua na dinâmica do comércio exterior do Brasil, onde o país ocupa posição no abastecimento do agronegócio.
Entre janeiro e abril, as aquisições chinesas de produtos brasileiros cresceram 25%, com movimentação de US$ 35,61 bilhões.
“A meu ver, a ascensão comercial da China, que tem se consolidado nos últimos anos, diante de uma relativa dificuldade dos Estados Unidos em contribuir com alguma estabilidade na ordem internacional, é fator que pode representar janela de oportunidade para o Brasil”, disse Lisa.
A analista apontou que o encadeamento de agendas internacionais, que incluiu a reunião de Donald Trump com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Casa Branca, na semana anterior à agenda em Pequim, atesta a manutenção das relações diplomáticas do Brasil com Washington e Pequim.
“A meu ver, fortalece o papel regional do Brasil na América do Sul enquanto uma liderança que tem ficado, em alguma medida, subestimada nos últimos anos. E aí a tradicional capacidade da diplomacia brasileira de manter relações de autonomia diante das grandes potências demonstra, mais uma vez, ter efeitos positivos no curto prazo”, considerou a especialista.
Para Lisa, reconhecer que a China se sobressai ante os americanos é vantajoso, especialmente porque Trump tem como missão não apenas recuperar a própria situação econômica, mas principalmente a credibilidade internacional perante o papel central na guerra do Oriente Médio.
“Considero que é algo positivo para o Brasil a percepção de que a China teria saído mais beneficiada desse encontro, já que, em alguma medida, as boas relações existentes entre China e Brasil são também um elemento que contribui com o poder de barganha frente aos EUA”, pontuou.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)



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