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Não somos percebidas como pessoas que podem produzir beleza

Não somos percebidas como pessoas que podem produzir beleza

 Não somos percebidas como pessoas que podem produzir beleza

Clarice Senna. Foto: Divulgação.

‘A Boca no Mundo’, primeiro álbum de estúdio da cantora e compositora paraense Clarice Senna, um cantautora, como ela define, está liberado desde 0h desta quinta-feira, 18/6, nas plataformas digitais (Amazon Music, Anghami, Apple Music, Audiomack, Deezer, Spotify, Tidal e YouTube Music). O trabalho une a vanguarda musical amazônica a temas como o feminino, saúde mental e a estética do acesso, pautada na identidade de pessoa com deficiência e na baixa visão da artista, causada pela Doença de Stargardt.

Em entrevista exclusiva ao blog Vencer Limites (Estadão), a artista, e também comunicóloga e semioticista, detalha a linguagem assistiva do próprio trabalho, explica sua relação com temáticas das pessoas com deficiência, além de avaliar a acessibilidade do cenário cultural e de que maneira ela, uma artista DEF, participa desse universo.

Conhecida por atuar como ‘compositora de boca’ e utilizar a voz como instrumento, Clarice Senna descreve seu trabalho de composição e arranjos como um instrumental com letra.

O projeto foi produzido com recursos do Fomento CULTSP, programa do governo de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), e do Governo Federal, pelo do Ministério da Cultura.

 Não somos percebidas como pessoas que podem produzir beleza

 Foto: Reprodução.

Tracklist & Ficha Técnico-Musical

1 – Ensolarada – (Part. especial: Mario Manga – violoncelo).

2 – A Boca no Mundo – (Part. especial: Bocato – trombone).

3 – Insurgente – (Part. especial: Alexandre Ribeiro – clarone e clarinete).

4 – Bolero Imaginário – (Composição: Clarice Senna / Simone Guimarães | Part. especial: Cássio Poleto – violino).

5 – Mareô – (Part. especial: Alexandre Ribeiro – clarone e clarinete).

6 – Livramento – (Part. especial: Cássio Poleto – violino).

7 – O Grão Pará – (Part. especial: Bocato – trombone).

8 – Tempo de Viver – (Part. especial: Mario Manga – violoncelo).

9 – Água Viva – (Part. especial: Alexandre Ribeiro – clarone e clarinete).

10 – Pé de Vida – (Part. especial: Fábio Peron – bandolim)

Banda Base: – Clarice Senna (voz e composição) – Dante Ozzetti (violões) – Francy Oliver (percussão) – Jabes Felipe (bateria) – Beatriz Lima (contrabaixo) – Vitor Arantes (piano e teclado).

Ficha Técnica de Produção e Visual

Produção Executiva: Esther Querat / New Territories Music

Assistente de Produção: Creuza Andréa Santos

Audiovisual & Fotografia: Maravilha Marginal

Capa (Ilustração): Helô Rodrigues

Capa (Arte Gráfica): Isza Santos

Stylist: Vinny Araújo

Beleza: Tika Beleza Originária

Distribuição Digital: ONErpm

blog Vencer Limites – Como esse trabalho de estreia discute as temáticas das pessoas com deficiência?

Clarice Senna – Trabalho com imagens mentais e descrevendo coisas nas minhas letras, é algo que uma pessoa com deficiência visual vai notar na música, mas alguém vidente, ou que não tem deficiência de modo geral, talvez nem perceba. Para mim, estou trabalhando com descrição, fazendo isso através da minha poética DEF. E eu gosto muito desse lugar onde o que eu estou fazendo não exatamente está num lugar de segregação. Eu não me dou limites mesmo. No que diz respeito a temas, eu nunca me coloquei nesse lugar que pretende só falar de coisas facilmente identificáveis da minha vivência DEF. Porque meu ponto de vista sobre tudo que escrevo, componho, já é de pessoa que tem uma deficiência e isso vai ficar claro.

Quando falo numa música contra feminicídios, por exemplo, estou falando a partir do meu ponto de vista de mulher com deficiência, a minha visão de mundo está impregnada do que eu sou. Então, não me preocupo muito em dividir, mesmo por medo de ser panfletária. Porque eu acho que o maior direito que a gente pode ter mesmo é esse, de ser livre para fazer as coisas de uma maneira que não tenha que se encaixar e se enquadrar num lugar que foi especificado para nós na sociedade. Eu tenho muito medo desse lugar também É lógico, eu defendo isso da maneira que eu mais acredito, do fundo do meu coração.

Eu ressignifiquei, por exemplo, a bengala, eu danço com ela no palco, eu gosto disso, eu entendo que é um movimento didático que estou fazendo, entendo a responsabilidade de dançar com ela, de me apresentar com ela, sei o que ela significa. Pessoas vão olhar e dizer “coitada, ela já está precisando da bengala”, mas quando empunho a bengala e danço com ela, é uma forma de ressignificar isso, de trazer para uma poética DEF, que tem uma força muito grande, das pessoas pararem de ler esse objeto na mão de alguém como um um objeto triste, de um momento triste. Não quero glamourizar isso, mas é importante sim ressignificar. Dessa forma, eu vou trabalhando sempre, tentando de alguma maneira, por onde eu passe, que as coisas sejam ressignificadas.

blog Vencer Limites – O que significa ser cantautora?

Clarice Senna – Ser cantautora significa que eu fui uma cantora forjada pelas minhas próprias músicas. Antes de qualquer coisa, eu era compositora. Funciona muito assim para os cantautores, a gente compõe. E vem a necessidade de cantar para interpretar o que a gente criou. Minha música foi exigindo que eu fosse uma cantora cada vez melhor, as minhas composições estavam ali. E eu precisando estudar mais um pouquinho aqui para interpretar.

Existe hoje um movimento muito grande de pessoas que compõem e que querem poder cantar suas próprias músicas. Era comum quando a gente pensa em Elis, Bethânia, Gal, compositores fazendo canções para elas cantarem. Tinha isso dessa mulher ir para o palco ser a cara de um repertório de muita gente. Hoje tem bem menos, esse movimento mudou, a gente está vendo chegar um monte de gente que compõe e canta o que compõe, um movimento que deve ter começado ali a esquentar com Ana Carolina, Vanessa da Mata e Maria Gadu, uma mulherada danada, e a gente continua esse movimento, a gente quer interpretar o que a gente compõe.

Me tornei cantora mesmo, sendo forjada pelas minhas composições, que foram me dizendo como eu deveria usar o meu corpo, minha voz para colocar esse corpo na voz e essa voz no corpo. Fui forjada pelas minhas composições e ,para mim, isso que é ser cantautora, me responsabilizar pela interpretação do que eu criei.

blog Vencer Limites – Explique a linguagem assistiva.

Clarice Senna – Eu sou da música, mas também sou do audiovisual. Desenvolvo um trabalho no meu audiovisual de design de áudio acessível. E esse trabalho começou por questões minhas, da minha deficiência.

Por exemplo, uma pessoa que faz audiovisual e que trabalha pela primazia da visão, ela vai captar imagens ou fazer um roteiro. Faço especificamente documentário e uma pessoa que tem a visão bem melhor do que a minha, alguém que não tem uma deficiência visual, vai captar as imagens primeiro, montar as imagens e depois arrumar o áudio.

Normalmente, é dessa maneira que a coisa funciona, vem primeiro a parte visual, depois coloca audiodescrição, porque não foi pensado desde o primeiro momento para ser acessível, porque a pessoa que fez isso impregnou o filme do ponto de vista cultural dela. Então, ela tem a premissa de que todas as pessoas vão acessar e fruir esse filme como ela. Tem momentos de silêncio, de pausas, de coisas que uma pessoa com deficiência visual não vai acessar.

No meu caso, quando vou fazer um filme, estou desde o começo querendo dar acesso. Peço, por exemplo, numa entrevista, para a pessoa falar sobre ela, o nome, descrever a vida dela, que alugumas vezes acho particularmente mais importante do que ela descrever a aparência dela, descrever esse ambiente simbólico. Dou mais importância para isso quando estou constituindo meu roteiro, áudio, que depois vai virar o filme, que vai ganhar a imagem no final.

Então, da mesma forma, eu pensei o disco desde o começo para essa fruição, sai da harmonia funcional porque a gente está buscando ambiência nos acordes, toda uma atmosfera sensorial para esse acorde, para que essa fruição saia do lugar da técnica, saia do lugar onde a primazia é desse corpo normativo, e possa ser aproveitada mais pela sensação, pela sensorialidade. E isso vai se complementando com as letras que são descritivas, onde eu procuro criar imagens mentais, pensado para a fruição de qualquer corpo, seja ele normativo ou não, qualquer vivência, seja ela normativa ou não. Porque, por incrível que pareça, esse lugar, sim, é democrático. Porque o lugar da sensação, da sensorialidade, ele dá mais acesso para todo mundo, é muito engraçado isso, o lugar restritivo, o lugar que exclui, é justamente o normativo, porque ele só prevê um determinado tipo de existência, de fruição e de corpo.

Acredito que faz toda a diferença no final que, desde o começo, a produção artística ser pensada para oferecer uma fruição que vale para todo tipo de corpo, existência, vivência.

blog Vencer Limites – Qual é sua avaliação sobre acessibilidade no cenário cultural e a sua própria participação nesse cenário, sendo uma artista DEF?

Clarice Senna – Tem uma coisa que anda me incomodando muito no cenário artístico. Eu abro um edital e percebo que a gente é esperado sempre só como público. Quando é. Quando se fala de acessibilidade, está falando de acessibilidade para a gente como plateia. Não que isso não seja importante. Claro que isso é muito importante. Houve um tempo que a gente não era lembrado nem nesse momento. Mas quem tá prevendo que a gente pode estar no palco? Porque tem cotas de povos originários, da população preta, acho incrível, eles têm todo direito, mas a gente também tem. Quase nunca tem cota para a gente. Às vezes, no máximo, tem uma pontuação.

Falo isso de cadeira, porque eu estou sempre atrás dos editais. Adivinha por quê? Sou uma pessoa com deficiência visual que trabalha com audiovisual e música. Se eu não for a minha própria investidora, se eu não investir em mim mesma, se eu não correr atrás de edital público. Aliás, eu tenho vivido disso, só o edital me emprega, ninguém além do edital me empregaria para fazer audiovisual e ninguém além do edital me empregaria para fazer música. Parece que não somos percebidas como pessoas que podem produzir beleza.

A deficiência ainda é lida como algo feio, triste, um desastre, uma catástrofe na vida da pessoa. E parece que isso não combina com a arte, isso não combina com a ideia de produzir beleza. De novo, não quero glamorizar nada, mas o maior sofrimento que a gente pode acumular nessa vida, e digo porque passei por isso, por uma depressão profunda, é a gente ficar olhando para as nossas faltas. Quando eu só olhava para as minhas faltas, tudo aquilo que era considerado falha, porque são falhas normativas. Então, o sistema não foi feito para prever a minha existência, nem para facilitar a minha vida. E essas coisas vão vencendo a gente, pouco a pouco, destruindo a autoconfiança da gente, a autopercepção de valor, a autoestima. É uma luta ter uma autoestima boa sendo uma pessoa com deficiência, uma luta que eu travo todo dia, saber que eu preciso de suporte para fazer as coisas, minha autoestima cai dez pontos, mas eu tento naturalizar isso e estou ressignificar.

Ainda somos previstos somente como plateia, mas precisamos chegar nesse lugar e dizer “tem artista DEF”, vamos colocar aqui nesse festival, fora da cota.

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