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Tren de Aragua: facção usa Roraima como ‘corredor’ de armas, mas já atua por todo País, diz delegado

Tren de Aragua: facção usa Roraima como ‘corredor’ de armas, mas já atua por todo País, diz delegado

PCC e Comando Vermelho: pesquisadora de Oxford explica papel do Brasil no tráfico global de drogas

Veja entrevista com Annette Idler, diretora do Programa de Segurança Global da Universidade Oxford. Crédito: Malu Mões/Estadão

Alvo do governo dos Estados Unidos, a facção venezuelana Tren de Aragua, que tem o Comando Vermelho (CV) como um dos principais clientes, tem usado Roraima como um “corredor” para o tráfico internacional de armas, mas os integrantes e parceiros de negócios do grupo estão distribuídos por todo o País, segundo investigação da Polícia Civil do Estado.

Na terça-feira, 16, ao menos 13 pessoas foram presas preventivamente e outras duas em flagrante (por tráfico de drogas e posse ilegal de armas) na Rota do Norte, megaoperação coordenada pela Polícia Civil de Roraima. Os mandados foram cumpridos não só no Estado, mas em Amazonas, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná.

Conforme balanço parcial, os presos incluem dois nomes apontados como os líderes do braço financeiro dos venezuelanos no Brasil: um localizado em um aeroporto no Rio e outro em Foz do Iguaçu (PR). Ao todo, a polícia identificou 77 alvos entre pessoas físicas e jurídicas. A reportagem não teve acesso aos nomes dos investigados, mas o espaço está aberto para manifestação.

 Tren de Aragua: facção usa Roraima como ‘corredor’ de armas, mas já atua por todo País, diz delegado

Agentes durante Rota do Norte, megaoperação coordenada pela Polícia Civil de Roraima. Foto: Polícia Civil de Roraima

“Roraima se tornou um corredor do Tren de Aragua, tanto para armamento, quanto para as próprias pessoas (que integram a facção)”, disse ao Estadão o delegado Hugo Cardias, titular da Delegacia de Repressão às Organizações Criminosas (Draco) da Polícia Civil de Roraima. “Mas eles também já estão no Brasil inteiro.”

As investigações apontam que, só no Brasil, o grupo movimentou R$ 6 bilhões nos últimos dois anos. “São pessoas que se especializaram em lavar dinheiro para facções criminosas. Principalmente pela proximidade do Comando Vermelho com o Tren de Aragua, eles focam nessas duas, mas não necessariamente são faccionados”, disse Cardias.

Ao todo, a Justiça expediu 25 mandados de prisão preventiva, sendo 18 contra venezuelanos e sete contra brasileiros – polícia segue mobilizada para encontrar os outros alvos. A operação resultou ainda no cumprimento de 30 mandados de busca e apreensão, incluindo em imóveis residenciais e estabelecimentos comerciais.

Balanço parcial indica que foram apreendidos mais de US$ 40 mil em espécie e veículos de luxo, de marcas como Porsche e Land Rover. “Conseguimos também apreender drogas, principalmente algumas que não achávamos ainda que essa facção atuava nesse tipo de entorpecente, como metanfetamina e ecstasy”, disse o delegado.

Operação resulta de um ano e meio de investigações

Resultado de um ano e meio de investigações, a Rota do Norte é um desencadeamento da Operação Kapok, deflagrada no ano passado pela Draco. “Anteriormente, nós conseguimos prender o braço violento do Tren de Aragua”, afirmou Cardias. Com o decorrer das investigações, a polícia identificou o que seria o braço financeiro da organização, alvo da incursão desta terça.

Cardias aponta que, composto principalmente por brasileiros, o grupo atua a partir de diferentes regiões do País, em uma espécie de “home office do crime”. Como já mostrou o Estadão, é uma modalidade comum no caso de facções nacionais – como no caso do CV, que abriga lideranças de outras regiões, como Norte e Nordeste, no Rio –, mas que agora chama atenção por estar ligada a um grupo estrangeiro.

“O Tren de Aragua tem um modo de agir específico, ele se aproveita das mazelas da sociedade”, disse o delegado. “Onde ocorre pobreza, no caso de (áreas de) garimpo, ele começa explorando sexualmente, fazendo pequenos tráficos de droga e, aí sim, vai evoluindo na sua atuação, como ocorreu aqui no Brasil.”

Segundo ele, a atuação da facção no País vem sendo mapeada ao menos desde 2019, mas tem avançado ao longo dos últimos anos. “Aqui, eles vieram com a imigração venezuelana, começaram a explorar sexualmente algumas moças, com foco em prostituição, passaram ao tráfico de droga e chegaram ao tráfico de armas, vendendo armamentos de grosso calibre para vários Estados”, disse Cardias.

Entre os armamentos, estão fuzis, metralhadoras calibre 50 e lança-granadas, como mostrou o Estadão. “Há um conjunto probatório robusto de que essas armas eram enviadas para o Amazonas e, em um segundo momento, para o Rio de Janeiro”, afirmou em coletiva o delegado Wesley Costa, que também atuou na megaoperação.

Cardias afirma que, diferentemente de facções como o CV, o Tren de Aragua não mira o controle territorial, mas age como uma espécie de empresa. “Grande parte das pessoas que foram presas utilizavam muito transações em criptoativos, o que demonstra que o grupo continua se atualizando e agindo como empresa”, disse.

“Já tivemos notícia de eles vendendo para outras facções, mas a proximidade, mesmo, é com o Comando Vermelho. Eles acabam não disputando espaço com o CV como o PCC faz, mas agindo como grandes empresários”, disse. A organização criminosa carioca é considerada a principal em atuação na Amazônia, segundo as investigações.

“Algo do tipo: ‘você tem o dinheiro, eu tenho o produto e o canal de distribuição, então a gente faz as transações financeiras, de armas, de drogas e do que mais tiverem interesse’”, acrescentou.

O Tren de Aragua atua em vários países da América do Sul – como Colômbia, Peru e Bolívia – e entrou na mira do governo Donald Trump, dos Estados Unidos, que executou neste mês Hector Flores, vulgo “Niño Guerrero”, apontado como chefe da facção.

 Tren de Aragua: facção usa Roraima como ‘corredor’ de armas, mas já atua por todo País, diz delegado

Momento do ataque da operação contra Niño Guerrero, líder do Tren de Aragua. Foto: Reprodução/Truth Social/@realDonaldTrump

Para Cardias, ainda não há um impacto perceptível no Brasil das operações realizadas pelo governo Donald Trump na Venezuela. “Porém, a Polícia Civil já tem adotado estratégias e atuado com cuidado e atenção com relação às medidas que estão sendo tomadas, principalmente na área de Las Claritas, para esse tipo de migração de criminosos que atuam lá para o Brasil”, afirmou.

Em geral, a facção atua por meio da associação com outros grupos criminosos, operando em possíveis vácuos deixados por outras facções. Com característica violenta no país de origem, são espécies de camaleões em outras regiões. Em Roraima, avançam sobretudo por Rio Branco, Pacaraima e Alto Alegre.

A operação mobilizou equipes das Polícias Civis dos seis Estados envolvidos e contou com o apoio da Renorcrim (Rede Nacional de Unidades Especializadas de Enfrentamento das Organizações Criminosas), do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Esquartejamentos levantaram suspeitas

A delegada-geral, Simone Arruda, afirmou que a presença da facção no Estado começou inicialmente em Pacaraima, município fronteiriço, e depois em bairros da capital que concentravam grande fluxo migratório.

Segundo ela, as primeiras evidências surgiram durante investigações sobre crimes patrimoniais praticados por migrantes venezuelanos e foram aprofundadas nos anos seguintes.

A consolidação das suspeitas ocorreu durante investigações de homicídios e esquartejamentos registrados em Boa Vista, especialmente no bairro 13 de Setembro. “Nesses inquéritos de homicídio foi demonstrada claramente a existência de membros do Tren de Aragua e do Tren del Llano atuando”, afirmou.

A delegada também destacou que organizações criminosas transnacionais costumam estabelecer alianças operacionais com grupos já instalados nos territórios onde chegam. Segundo ela, o fenômeno, conhecido por especialistas como “hibridização”, foi observado em outros países da América Latina e apresenta características semelhantes em Roraima.

“Eles têm um produto a oferecer e encontram quem tenha dinheiro para pagar. Cada vez mais as facções criminosas atuam como empresas”, disse. Os criminosos também estão entre os suspeitos de atuar como coiotes de cubanos, como mais uma fonte de movimentar recursos para o crime./ COLABOROU FELIPE MEDEIROS

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