A capital federal é palco, a partir desta terça-feira (15), do 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia, evento que reúne obras, experimentos e palestras de 41 artistas de diversas regiões do país. A programação principal ocorre no Sesi Lab e no Museu Nacional de Brasília até o próximo domingo (20), tendo como um dos grandes destaques a instalação “Bordaduras”, criada pela renomada artista plástica Regina Silveira, de 87 anos e professora emérita da Universidade de São Paulo (USP).
A obra monumental consiste em um vinil adesivo de 530 metros quadrados aplicado sobre os vidros do museu do Sesi Lab, exibindo imagens de agulhas gigantes e padrões de bordados em ponto de cruz inacabados. Para a artista, com vasta carreira internacional, a intervenção possui uma natureza intrinsecamente feminista e política, remetendo historicamente à alfabetização das mulheres no Pré-Renascimento por meio do manuseio de linhas e tecidos em enxovais.
Além do impacto visual e histórico, a instalação gerou forte identificação com os funcionários do espaço cultural. A agente de portaria Kaliane Martins, de 40 anos, relatou que a obra resgatou memórias afetivas de sua infância, quando aprendeu a arte do bordado com a mãe e a avó. Histórias semelhantes surgiram nos arredores do museu, como a do professor de circo e palhaço Gabriel Coelho, de 21 anos, que apontou o uso de agulha e linha como um refúgio para se distanciar das telas e do estresse cotidiano.
O evento também dedica espaço central para discutir a interferência da inteligência artificial (IA) nos processos criativos contemporâneos. Durante as palestras e debates, especialistas e artistas avaliaram a relação entre tecnologia e criatividade humana. Regina Silveira defende que a visão sobre a inteligência artificial não deve ser apocalíptica, ressaltando que as ferramentas tecnológicas operam com repertórios pré-existentes, mas a verdadeira invenção é exclusividade do cérebro humano.
A coordenadora do encontro, Suzete Venturelli, reforçou a necessidade de cautela no uso de tecnologias generativas, apontando que bases de dados utilizadas por sistemas automatizados podem carregar vieses problemáticos, como recortes racistas e eurocêntricos. Para os organizadores, a arte deve manter sua capacidade crítica de alfinetar a sociedade e as próprias inovações tecnológicas, priorizando sempre a criatividade e a educação para o uso consciente das ferramentas.
A programação do evento conta ainda com palestras de nomes como a liderança indígena Casé Angatu Xukuru Tupinambá, abordando a ancestralidade na relação entre natureza, arte e tecnologia; Hauke Dorsh, sobre tecnologias sociais na música africana; e Ive Rubini, trazendo o conceito de tecnodiversidade. Os debates seguem abertos ao público na capital federal até o próximo domingo, estimulando novas perspectivas sobre o futuro da criação artística.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
