Durante anos, o agronegócio foi apresentado como uma máquina quase imune às crises. O conceito do “agro é pop” virou símbolo de prosperidade, avanço tecnológico e recordes de produção. Agora, parte importante do setor enfrenta o outro lado dessa história: dívidas bilionárias, margens estreitas e dificuldade crescente para pagar os financiamentos contraídos nos tempos de bonança.
Em junho, a inadimplência no campo chegou a R$ 48 bilhões. O valor representa um crescimento alarmante de 2.300% em relação aos R$ 2 bilhões registrados cinco anos antes, expondo a pior crise de endividamento do agronegócio em mais de duas décadas. O cenário é definido por especialistas como uma tempestade perfeita, impulsionada por fatores que vão muito além da gestão individual dos produtores rurais.
A origem do problema remonta ao período de prosperidade iniciado em 2020. Os preços da soja, do milho e do gado dispararam, enquanto os custos ainda estavam em patamares mais baixos. Com a taxa básica de juros em 2% ao ano naquele momento, o crédito barato incentivou investimentos pesados em máquinas, terras, armazenagem e na ampliação geral da capacidade produtiva.
Contudo, a partir de meados de 2023, as commodities agrícolas entraram em um ciclo de baixa acentuada. No Mato Grosso, por exemplo, a saca de 60 quilos de soja caiu de mais de R$ 190 no pico de março de 2022 para cerca de R$ 105 em menos de dois anos, mantendo-se negociada abaixo de R$ 130 em agosto, segundo dados da Agrolink.
Enquanto o valor recebido pelo produtor despencava, os custos operacionais permaneceram elevados. Os fertilizantes encareceram de forma expressiva após a guerra na Ucrânia, e as oscilações cambiais pesaram sobre insumos cotados em dólar. Para piorar, a crise climática provocou secas prolongadas e enchentes destrutivas, reduzindo a produtividade justamente quando era preciso produzir mais.
Diante desse cenário de juros em alta — que chegaram a 15% em 2025 — e margens de lucro esvaziadas, especialistas apontam que o país precisa de critérios claros para renegociar dívidas, ampliar o seguro rural e aprimorar os mecanismos de proteção contra intempéries, garantindo que o setor supere a crise sem soluções simplistas ou transferências indevidas de risco para a sociedade.
Fonte: www.campograndenews.com.br
