O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve editar uma medida provisória com o objetivo de impor limites às apostas virtuais conhecidas como “bets”. A iniciativa prática pode render alguns votos para o governo na disputa eleitoral atual, embora parte do eleitorado indeciso possa enxergar a medida com ceticismo, considerando-a tardia ou de cunho oportunista.
Analistas apontam que a reação tardia do governo e da campanha frente ao mal-estar popular em diversos temas econômicos revela uma falha na leitura da realidade do país. Faltou uma reflexão aprofundada e a devida cautela quanto aos riscos econômicos, políticos e eleitorais assumidos desde o início do atual mandato presidencial.
No cotidiano da população, o governo demorou a reconhecer o peso de problemas crônicos como o alto nível de preços — especialmente no setor de alimentação —, o endividamento familiar elevado agravado pela instabilidade econômica e o risco de juros ainda mais altos decorrentes de uma economia aquecida. O despertar para a gravidade do problema das “bets” também ocorreu com atraso, apesar da oposição histórica de Lula à jogatina.
Especialistas avaliam que, mesmo com uma proibição definitiva das plataformas, o efeito prático demorará a se fazer sentir e terá alcance limitado. Estimativas apontam que uma parcela considerável das apostas ocorre na ilegalidade, o que poderia provocar a migração dos apostadores para redes criminosas. Além disso, a proposta em estudo restringiria apenas os cassinos virtuais, mantendo ativas as chamadas apostas esportivas.
Os dados sobre o endividamento das famílias ilustram a pressão sobre os orçamentos populares. Em janeiro de 2023, o volume total de crédito bancário em relação à renda das famílias situava-se em patamares elevados, registrando oscilações e voltando a subir para quase 50% em meados de 2026. O comprometimento da renda com o serviço da dívida também aumentou, impulsionado majoritariamente pela trajetória de alta das taxas de juros.
O governo falhou em perceber o aperto orçamentário enfrentado pelas famílias de menor renda, pressionadas tanto pela herança inflacionária de períodos anteriores quanto pela recuperação insuficiente dos salários reais. A falta de sintonia com esses elementos socioeconômicos básicos evidenciou um distanciamento da gestão em relação às dificuldades enfrentadas pelo eleitorado miúdo.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
