A droga apreendida pelas forças de segurança deveria ter um destino definitivo: permanecer sob custódia do Estado até sua completa destruição. No entanto, de acordo com as investigações conduzidas pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) no âmbito da Operação Infiltrados, parte expressiva de quatro grandes apreensões realizadas em Mato Grosso do Sul fez o caminho inverso e retornou para as mãos do tráfico.
A representação elaborada pelos investigadores aponta que cerca de 637 quilos de entorpecentes teriam sido desviados ou negociados a partir de cargas que totalizavam 1.765 quilos de drogas apreendidas oficialmente entre os anos de 2022 e 2025. Os episódios sob escrutínio envolvem operações com cocaína e maconha, ligando diretamente o esquema a policiais civis lotados na Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) e no Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros).
No centro da engrenagem descrita pelo Ministério Público aparece Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”. Ele seria o elo fundamental entre traficantes e os agentes públicos investigados, atuando na recepção de informações sobre carregamentos, na negociação de percentuais das drogas apreendidas e na articulação para a venda dos entorpecentes retirados das cargas oficiais. O esquema contava com o apoio de outros colaboradores encarregados do armazenamento e da comercialização dos produtos.
O primeiro episódio detalhado na investigação ocorreu em dezembro de 2022, quando a Polícia Rodoviária Federal e o Dracco apreenderam 326 quilos de cocaína em um fundo falso de veículo em Campo Grande. O material foi encaminhado à Denar para pesagem e armazenamento. Conforme o Gaeco, horas depois, “LK” e um líder de organização criminosa passaram a negociar a compra de parte do entorpecente com policiais, combinando a retirada de 40 quilos da carga que ostentava a marca “Bugatti”.
Outro caso de destaque envolveu a apreensão de 793 quilos de maconha pela Denar em maio de 2024, na capital sul-mato-grossense, após uma suposta denúncia anônima repassada por LK. O Gaeco aponta que havia um acordo prévio para que o grupo criminoso ficasse com 20% do volume apreendido. Entre os citados na ocorrência estão o policial civil Douglas Tobias e o então delegado responsável pela Denar, Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa.
A investigação também mirou uma apreensão de grande volume em Bela Vista, em maio de 2024, onde 643 quilos de cocaína foram interceptados. Segundo o Ministério Público, a equipe policial deslocou-se de Campo Grande para a fronteira com base em informações repassadas pelos criminosos, desviando cerca de 400 quilos antes do registro oficial. Ao todo, a Operação Infiltrados resultou na prisão de 24 investigados, incluindo policiais civis, militares, um policial penal e suspeitos ligados ao tráfico.
Fonte: www.campograndenews.com.br
