Quarenta anos separaram Luciana Náglies do último passo de balé da adolescência e de sua volta a uma sala de dança. Aos 56 anos, a psicóloga achou que talvez o jazz já não fosse para ela. Cecília Luna, de 64, também havia deixado as sapatilhas para trás durante a vida adulta. Hoje, as duas dividem aulas com mulheres de diferentes gerações em Campo Grande e descobriram que a idade, pelo menos naquele salão, não determina quem pode acompanhar a coreografia.
O espaço onde tudo acontece é a Cuidarte Dança e Arte, criada pela psicóloga e arteterapeuta Dioneia Dias Rigo, que também retomou o balé aos 56 anos. O local reúne alunas de 20 a 75 anos. Luciana começou a dançar na infância, fazendo bal dos 9 aos 16 anos, mas passou quatro décadas afastada. O reencontro ocorreu em outubro do ano passado, quando iniciou aulas de flashback e recebeu o convite para experimentar o jazz, superando a dúvida inicial sobre a idade e a mistura de gerações.
A diferença de idade que inicialmente gerou insegurança logo perdeu importância. Luciana percebeu que o ritmo de aprendizado varia, mas o foco é a conexão e a diversão coletiva, sem a pressão de cobranças estéticas ou de desempenho rigoroso. O reencontro com a modalidade também trouxe à tona memórias afetivas da infância, fazendo com que ela descrevesse a experiência diária na dança como uma verdadeira terapia para o seu bem-estar.
A trajetória de Cecília Luna, de 64 anos, compartilha semelhanças. Aposentada, ela também conheceu o balé na infância e o jazz na juventude, antes de abandonar a prática na vida adulta. Após ver uma reportagem sobre a Cuidarte, decidiu procurar o endereço e recuperou passos guardados por décadas. Ela ressalta que o ambiente funciona como uma extensão de sua família, onde é possível sorrir, se divertir e se sentir bem, respeitando os próprios limites físicos — como o de não se arriscar nas pontas, por precaução.
Por trás das histórias das alunas está a retomada da própria professora, Dioneia Dias Rigo. Ela voltou a dançar há cerca de um ano após reencontrar sua primeira professora de balé, em um momento em que enfrentava quadros de ansiedade e depressão. A partir desse estímulo, decidiu fundar o espaço voltado para unir seus conhecimentos em psicologia, arteterapia e dança, inicialmente pensando no público com mais de 50 anos, mas expandindo o atendimento para uma faixa etária ampla.
Mais do que formar bailarinas com perfeição técnica, a proposta da Cuidarte é abrir espaço para que mulheres realizem desejos que ficaram adiados durante a vida adulta. Entre aulas de flashback, jazz e balé clássico, o ambiente acolhe tanto quem já dançou no passado quanto quem nunca havia pisado em uma sala de dança, permitindo que todas redescubram o prazer de se movimentar sem cobranças e com foco total na felicidade do processo.
Fonte: www.campograndenews.com.br
